Um Novo Comeo
Robin Jones Gunn
Srie Selena 1




Selena sempre fora uma moa corajosa e determinada. Para ela, no havia situao difcil que no conseguisse dar um jeito de resolver. Mas agora sentia-se temerosa 
quanto ao futuro. De repente tudo iria mudar em sua vida. E ela no sabia se estava preparada para UM NOVO COMEO. Selena acomodou-se no assento do trem e ficou 
admirando a paisagem da janela. Seu olhar perdeu-se nas belas paisagens inglesas, enquanto seu pensamento voava longe, trazendo mil recordaes. Desejou de todo 
o corao que a amizade que fizera com Cris e Katie, na sua ltima semana ali na Europa, durasse para sempre. 
Selena estava se sentindo insegura em voltar para os EUA. Enquanto estava na Inglaterra sua famlia havia se mudado para outro estado. Agora ela teria que se acostumar 
a uma nova casa, novas pessoas, nova cidade... Tudo isso, somado ao fato de que aquele seria um ano de indefinies, a deixava arrasada. 
At que, no aeroporto de Londres, ela conheceu Paul. Seu corao que estava abatido, encheu-se de nimo. Seria ele o rapaz com quem tanto sonhara? O grande amor 
de sua vida? No! Fora apenas um encontro casual. Ela jamais o veria novamente. Ser???

Ttulo original: Only you, Sierra
Traduo de Myrian Talitha Lins
Editora Betnia, 1999
Digitalizado por deisemat
Revisado por deisemat
www.portaldetonando.com.br/forumnovo/

Um Novo Comeo - Robin Jones Gunn
Srie Selena 1

Para meus amigos escritores, que tambm atuam no campo da fico juvenil: So eles: Lissa Halls Johnson, cujos livros, h cerca de dez anos, me inspiram a escrever 
para adolescentes; Lee Roddy, que teve a gentileza de ler os poemas que escrevi aos 19 anos; Marian Handrick Bray, que  sempre uma amvel anfitri;
E Bill Myers que, com seu viver, est sempre demosntrando qual  a reazo pela qual escrevemos.
"O Senhor, teu Deus, est no meio de ti, poderoso para salvar-te."
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Captulo Um



      Selena Jensen olhou pela janela do trem e ficou a contemplar por uns instantes a paisagem campestre do interior da Inglaterra. Fazia frio e chovia. Da a uma 
hora ela e seus companheiros estariam de volta ao castelo de Carnforth Hall. Ali se encontrariam com outros jovens que, como eles, haviam passado a semana anterior 
ministrando o evangelho em diversoso pases da Europa. Cruzou as pernas e enfiou as mos juntas no meio delas, na tentativa de aquecer os dedos gelados. Pela janela, 
via pastos imensos, que se perdiam de vista, recobertos de geada. Selena soltou um suspiro.
      - Em que est pensando? indagou sua colega Katie, sentada ao seu lado.
      Katie, que estiverra toda encolhida na poltrona, remexeu-se e se virou para fit-la, fazendo "danar" o cabelo acobreado e muito liso. Embora fosse dois anos 
mais velha que Selena, e as duas tivessem se conhecido apenas quinze dias antes, j haviam se tonado boas amigas. Tinham passado uma semana juntas, em Belfast, na 
Irlanda do Norte.
      - Em minha volta para os Estados Unidos, replicou Selena.
      Seus longos brincos tilintaram quando ela se virou para a outra. Selena deu um sorriso largo e tranqilo, mas no olhava para Katie. Seus olhos se fixavam 
em outro ponto - na poltrona do outro lado do corredor. Nela se achavam Douglas, o lder da equipe evangelstica, e Trcia, sua namorada.
      - Passou rpido demais, comentou Katie, cruzando os braos e recostando-se no assento. Ainda no estou com vontade de voltar para casa.
      - , concordou Selena, eu tambm no.
      Viu Douglas passando o brao sobre o encosto da poltrona e Trcia chegando para mais perto dele.
      - Gostaria de vir de novo, falou Katie. Talvez no ano que vem.
      - Eu tambm, disse Selena, ainda olhando para Trcia, que se aconchegava ao namorado.
      - Seria timo se nosso grupo pudesse trabalhar junto outra vez, numa outra viagem dessas.
      - Eu tambm, repetiu Selena, distrada.
      Trcia estava voltando o rosto redondo para o namorado, sorrindo-lhe de modo carinhoso. O rapaz parecia todo encantado com ela.
      - Por que voc disse "eu tambm"? indagou Katie.  claro que voc estaria em nossa equipe de evangelismo.
      Katie desviou o olhar para ver o que atraa a ateno de Selena. Em seguida, inclinou-se e se aproximou mais dela.
      - Esses dois me do at enjo! comentou em voz baixa.
      - U! exclamou Selena em voz sussurrada. Pensei que voc, Douglas, Trcia e Cris fossem amigos h muitos anos. Por que disse que lhe d enjo ver os dois juntos 
assim?
      -  verdade que somos amigos. Mas  que... bom, olhe s para eles. Parecem to apaixonados!
      - Parecem mesmo! concordou Selena.
      Deu outra olhada para o casalzinho, que conversava em voz baixa, fitando um ao outro diretamente nos olhos.
      - No consigo me imaginar numa situao como a deles, com um rapaz me olhando desse jeito, continuou ela.
      - Ah, pare com isso! exclamou Katie, afastando-se dela e dando-lhe uma olhada de alto a baixo. Voc nunca se olhou no espelho, no? Primeiro, seu cabelo  
maravilhoso, espetacular. Louro, anelado, bem encaracolado. Bastante extico.
      - , interveio Selena, puxando uma mecha do longo cabelo, mas voc ainda no percebeu que o que est em moda agora  liso e penteadinho?
      - Ah, , mas s esta semana. Espere mais alguns dias. Todo mundo vai comear a fazer permanente para ficar com o cabelo igual ao seu. E caso voc ainda no 
saiba, seu sorriso  digno de um prmio. E esses seus olhos azul-acinzentados - que todo mundo acha lindos - que mudam de tonalidade de acordo com o tempo! Alm 
de tudo, ainda tem algumas sardas. Isso  timo! Suas roupas so maravilhosas, muito originais, e voc no pode reclamar do seu corpo.
      - Que corpo, menina? Eu pareo mais um moleque!
      - Antes ter um jeito de moleque do que ser grandalhona como um jogador de futebol americano.
      - Mas voc no  grandalhona, protestou Selena.
      - Est bem; sou s meio gordinha.
      - As duas so lindas! disse Stephen, um rapaz alemo que fazia parte do grupo.
      Estava sentado no banco que ficava de frente para elas e parecera estar dormindo. Selena sentiu o rosto avermelhar-se ao se dar conta de que ele ouvira o que 
diziam. Era o mais velho da equipe e usava uma barba que lhe dava uma aparncia de mais adulto.
      - Por que ser que vocs, garotas, gostam tanto de criticar a si mesmas, umas para as outras? indagou Stephen, inclinando-se para elas e assumindo um tom de 
conselheiro. Ambas tm uma aparncia maravilhosa e so belssimas interiormente, continuou ele, apontando para o prprio peito.  isso que realmente importa.
      - Ento por que no tem uma poro de rapazes cados nossos ps? indagou Katie.
      -  isso que voc quer?
      Numa atitude que no era tpica dele, Stephen se jogou no cho e ficou aos ps delas. Selena soltou uma gargalhada.
      - Ah, sai pra l! gritou Katie. Voc est levando na brincadeira, e eu no estou brincando.
      O rapaz sentou-se com um sorriso de satisfao. Normalmente era muito srio.
      - Est bem, continuou a moa. Voc, que  homem, de que  que mais gosta numa garota?
      Stephen deu uma olhada rpida para Trcia e logo em seguida virou-se para Selena e Katie.
      - Bom... principiou ele.
      Entretanto j era tarde. Pelo gesto dele, elas entenderam qual seria a resposta.
      - Eu j sabia! exclamou Katie, erguendo as mos. No precisa dizer nada. Todos os homens so iguais. Dizem que o mais importante  a personalidade da moa 
e como ela  por dentro. Mas o fato  que todos preferem garotas como Trcia - meigas bonitinhas, "prestativas". Confesse! Neste mundo no h muita esperana para 
meninas mais individualistas, como eu e a Selena.
      - Pelo contrrio! retrucou o rapaz. As duas so muito atraentes. Tenho certeza de que um dia aparecer um rapaz - o cara certo - que vai ach-las maravilhosas. 
E s esperar em Deus.
      - ; eu sei, eu sei, disse Katie. Mas enquanto ele no aparece, vamos ficando aqui, em nosso "clubinho", no  Selena?
      Selena se lembrou de que, antes de partirem para o trabalho evangelstico, ela e Katie haviam conversado sobre o Clube Apenas Amigos. Ento ergueu a mo para 
Katie, batendo na palma da mo dela, no alto. 
      - A.A. para sempre! exclamou Selena.
      - Isso mesmo! replicou Katie. Perdemos a Trcia, mas ainda somos trs: eu, voc e a Cris.
      - Vocs no precisam ter nenhum clube, no, interveio Stephen. Talvez precisem  descobrir um clube de rapazes disponveis!
      As duas no acharam a menor graa no que ele dissera e lhe responderam com resmungos e olhares de raiva. O rapaz cruzou os braos, fechou os olhos e fez de 
conta que ia dormir de novo. Contudo em seus lbios estampou-se um sorriso de gozao.
      - Vamos l, disse Katie para a amiga. Vamos tomar alguma coisa.
      Levantou-se e foi andando pelo corredor do vago. Selena segui-a. Atravessaram a porta de sada e se dirigiram para a pequena lanchonete que ficava no carro 
contguo. Compraram uma lata de Coca-Cola e ficaram paradas diante da janela tomando o refrigerante.
      - Esses caras do tipo do Stephen me irritam, disse Katie. Primeiro, so muito educados e fazem milhares de elogios. Depois soltam umas piadinhas idiotas. Assim 
a gente nunca sabe se esto falando srio quando dizem essas frases bonitas.
      - Eu acho que ele falou srio, respondeu Selena, mudando o peso do corpo de um p para o outro.
      Estava calada com suas autnticas botas de cowboy, de que tanto gostava. Alis, estivera usando-as durante quase todo o tempo da viagem. Na verdade, elas 
tinham sido do pai dela. Selena as encontrara num canto da garagem de sua casa, no ano anterior, quando estava procurando objetos para fazerem um "bazar" caseiro*. 
Sua me logo pensara em vend-las.
      ___________________
      *No original, garage sale, literalmente "venda em garagem".  comum nos Estados Unidos, as pessoas venderem seus objetos usados (como roupas, peas de mobilirio, 
livros, revistas, etc) que ainda se encontram em bom estado de conservao, realizando um bazar na garagem da prpria casa, geralmente em finais de semana. (N. da 
T.)
      
      "Puxa!" exclamara ela. "Essas botinas ainda esto por aqui. Harold estava calado com elas no primeiro encontro que tivemos."
      Foi ento que Selena achou que no poderiam mesmo desfazer-se delas. Resolveu experiment-las e, para sua surpresa, elas lhe serviram. A partir daquele dia, 
passou a us-las constantemente, sob os protestos da me.
      - Chega de falar sobre rapazes, disse Katie. Vamos mudar de assunto.
      - Estou ansiosa para nos encontrarmos com as outras equipes para sabermos como foi o trabalho delas.
      - , concordou Katie. No vejo a hora de conversar com a Cris para perguntar como foi a semana na Espanha.
      - Pois . E eu ainda no aceitei o jeito como eles tiraram a Cris do nosso grupo, no ltimo minuto, e a mandaram para Espanha. E a turma da Espanha j tinha 
at ido embora, comentou Selena. Acho que no conseguiria fazer o que ela fez - viajar sozinha durante dois dias e trabalhar com uma equipe que nem conhecia direito.
      -  como eu disse, interveio Katie, assumindo uma pose de mulher forte. Cris  a prpria "missionria".
      Selena riu.
      - Justamente quando eu estava comeando a fazer amizade com ela, eles a mandaram para l, sem mais nem menos. E a sada da Cris deve ter sido ainda mais difcil 
para voc, j que so amigas h tanto tempo.
      - Tenho certeza de que isso foi coisa de Deus, comentou Katie, bebendo o ltimo gole de sua Coca.
      Em seguida olhou para a lixeira e atirou nela a latinha vazia, como quem joga basquete. Acertou em cheio e levantou a mo, mostrando dois dedos, indicando 
uma cesta de dois pontos.
      Selena engoliu o resto do seu refrigerante e tambm jogou a lata na lixeira. Contudo a dela bateu fora. Foi l e pegou-a de novo.
      - Tente outra vez, Selena, falou Katie. 
      Ela tentou e dessa vez acertou.
      - Maravilha! exclamou Katie, batendo a palma da mo na da amiga. Somos invencveis!
      Selena se recordou da semana de evangelismo em Belfast. Ela e Katie haviam realizado o trabalho com as crianas, atuado no grupo teatral e testemunhado de 
Jesus nas ruas da cidade. Haviam tambm orado com alguns adolescentes que decidiram consagrar a vida a Cristo. Alm disso, ainda fizeram visitas a algumas velhinhas 
da igreja, que lhes serviram ch com bolo. A experincia fora muito marcante para ela. Estava satisfeita por Katie ter ficado ao seu lado o tempo todo.
      - Sabe? principiou Katie, quando as duas voltavam para o lugar. Tenho certeza de que Deus deve ter tido um bom motivo para afastar Cris de nossa equipe. E 
se no houve nenhuma outra razo, pelo menos serviu para que eu a conhecesse melhor, Selena. Estou muito contente por isso.
      - Eu tambm, replicou Selena. Estou at comeando a ficar triste ao pensar que tudo est quase acabando.
      Espere a! falou Katie. Ainda passaremos dois dias aqui iinrs de irmos embora!
      - Na prxima parada ns descemos, informou Stephen, no momento em que as duas se aproximavam. Douglas, j estamos chegando!  na prxima estao!
      Selena olhou para Douglas e viu Trcia afastando-se dele. O rapaz ento reassumiu sua condio de lder da equipe. Era uma tima pessoa, o Douglas. Selena 
aprendera a admir-lo muito, principalmente depois de tudo que haviam passado durante o trabalho de evangelismo. Dava para perceber que ele e Trcia iriam continuar 
trabalhando juntos no ministrio cristo depois que se casassem.
      'Iodo o pessoal da equipe se levantou e cada um recolheu seus pertences, como j haviam feito dezenas de vezes, nos diversos deslocamentos que realizaram. 
Uns ajudavam os outros a pegar as malas e sacolas. Todos estavam bem familiarizados com a cena.
      Selena procurou dissipar a nuvem de tristeza que a envolveu quando se lembrou de que na prxima vez em que tomasse o trem seria para ir embora. Sentia um n 
na garganta todas as vezes em que pensava na volta para casa. E no conseguira se abrir e falar do fato nem com Katie, nem com ningum. Talvez ainda viesse a falar. 
Nas vezes em que mencionara a situao, fizera-o com a atitude alegre e descontrada que lhe era caracterstica. Ningum percebera que, bem l no fundo, estava muito 
tensa, pois sabia que sua vida mudaria muito quando retornasse para casa.
      Enquanto Selena estava na Europa, sua famlia se mudara. Agora, ento, no iria voltar para a cidadezinha da Califrnia, onde morara desde pequena. Estavam 
de mudana para Portland, no estado de Oregon, onde passariam a viver.
      O trem parou e todo o grupo foi saindo lentamente. Saltaram na plataforma da estao e se dirigiram para um pequeno estacionamento que havia em frente dela. 
Era de tardinha e caa uma chuva fina. Um furgo os aguardava, estacionado numa das vagas. Cansados da viagem, entraram no veculo com movimentos mecnicos, mais 
parecendo um bando de robs. Estavam acostumados s viagens constantes, mas agora se sentiam exaustos.
      Selena sentou-se num dos bancos do fundo, junto  janela. Ficou a remexer os dedos dos ps, dentro da bota. Ainda passaria mais dois dias na Inglaterra. Seria 
mais um tempo para pensar nas mudanas que iria experimentar. No se sentia prepararada para enfrentar nenhuma delas. Aquele nervosismo relacionad com a mudana 
a irritava. Sempre fora uma garota forte, de esprito livre. A verdade, porm,  que os alicerces de sua vida familiar nunca haviam sofrido um impacto como o que 
experimentava agora.
      Trcia entrou no furgo e veio sentar-se ao lado dela. Douglas acomodou-se no banco da frente e deu um tapinha no ombro do motorista, agradecendo-lhe por ter 
vindo busc-los.
      - Estou ansiosa para ver a Cris, disse Trcia. Espero que tudo tenha corrido bem para ela, na Espanha.
      Selena sorriu e fez um aceno de cabea, concordando. Sentia que gostava da colega - era difcil no gostar dela. Todos a apreciavam. E obviamente estava feliz 
de ver que ela e Douglas haviam se acertado nessa viagem. Mesmo assim, sentia-se meio "deixada de fora". Talvez estivesse com inveja porque a colega conquistara 
um dos poucos rapazes legais que ainda restavam neste mundo.
      O furgo seguiu serpeando pelas ruas estreitas do povoado e depois pegou a estradinha que os levaria a Carnforth Hall. A paisagem ainda era a mesma de uma 
semana antes, quando haviam partido. A exceo era que agora algumas florzinhas silvestres, de cor roxa, brotavam aqui e ali na terra gelada. Selena pensou que se 
ainda houvesse no mundo outros rapazes como Douglas, eles estavam longe de Pineville, sua cidade natal. E nenhum deles participava dos grupos de evangelismo ali 
da Inglaterra.
      - Trcia, falou ela, ser que o Douglas tem algum irmo?
      - Se o Douglas tem algum irmo? disse a amiga, repetindo a pergunta. Por qu?
      - Ah, por nada. Deixe pra l.
      O carro parou na rampa de entrada do velho castelo, que era recoberta de cascalho. Logo avistaram uma jovem alta, de cabelo castanho-claro, perto do enorme 
porto de madeira do solar. Ela segurava uma sombrinha e acenava animadamente para eles.
      -  a Cris! gritou Katie, pondo-se de p ao fundo do carro, e batendo a cabea na vigraa. Oi, "missionria"!
      Selena olhou para Cris e viu-a fazer uma pose de mulher forte, flexionando os msculos do brao direito. Em seu pulso havia algo que rebrilhou  luz da lmpada 
da varanda.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      


Captulo Dois
   
      
      Katie inclinou-se para a frente e ps as mos nos ombros de Trcia.
      - Olhe, Trcia! Gritou. No pulso dela! Aquilo ...?
      - No pode ser! exclamou Trcia. Abra a porta, gente! pediu Katie.
      Selena no entendia por que a amiga parecia to agitada. Katie foi a primeira a sair do carro. Correu para Cris e agarrou o brao dela. Olhou para o objeto 
que estava nele e em seguida para a amiga. Depois soltou um grito. Trcia ergueu-se de um salto e disse:
      - Douglas,  mesmo!
      -  o qu, gente? indagou Selena. Que  que est acontecendo?
      A essa altura, Douglas tambm j estava fora do furgo e corria para junto de Katie, Trcia e Cris. Os quatro ficaram abraados, todos juntos. Em seguida, 
o rapaz perguntou algo a Cris e depois saiu correndo, debaixo da chuva, sem sombrinha, sem nada, em direo ao castelo.
      - Voc tem alguma idia do que est acontecendo? Indagou Selena para Stephen.
      - So americanos, replicou o rapaz. Esse  o jeito deles, no ?
      - Ei! gritou ela. Eu tambm sou americana e no estou toda agitada feito eles.
      - , ainda no.
      - Vamos l, disse Selena. Vamos ver o que  aquilo.
      Os dois desceram do veculo, sob a chuva fria, e se aproximaram dos outros jovens que conversavam animadamente, falando quase ao mesmo tempo.
      - No consigo acreditar! dizia Katie. Estou abismada.  a maior coisa de Deus que j aconteceu no universo. Eu nem acredito!
      - Oi, Selena! disse Cris, olhando-a.
      As duas se abraaram e Selena indagou:
      - E a? O que  essa "coisa de Deus" que aconteceu?
      Cris estendeu o brao e mostrou-lhe um bracelete em seu pulso. Era uma linda pulseira de chapinha de ouro. Selena tocou de leve na jia e viu que nela estavam 
gravadas as palavras "Para Sempre".
      -  muito bonita! falou. Voc a ganhou na Espanha?
      - Mais ou menos, explicou Cris. Quer dizer, ganhei, mas  uma longa histria.
      - Ainda no acredito! repetiu Katie, que parecia fora de si e a ponto de desmaiar.
      - Estou to contente por voc, Cris! exclamou Trcia, pegando o brao dela e apertando-o de leve.
      - Perdoem-me se dou uma de desagradvel, interveio Stephen, fechando as abas do palet. Mas acontece que est chovendo. Ns vamos entrar.
      - Vamos l! respondeu Cris, erguendo mais a sombrinha para cobrir o mximo de gente possvel. Precisamos entrar mesmo. L eu explico tudo, Selena.
      Os membros da equipe pegaram cada um a sua bagagem - agora bem molhada - e foram andando pelo cascalho para entrar no castelo. Os rapazes se dirigiram para 
seu quarto. No pareciam interessados no relato de Cris. As garotas sacudiram bem os agasalhos e os dependuraram nos cabides da entrada. Em seguida, foram para a 
imensa sala de estar. Ali havia uma grande lareira de pedra, onde o fogo j estava aceso. Felizmente no havia ningum nos sofs prximos dela. Katie foi a primeira 
a se jogar num deles.
      - Ainda no d pra acreditar! disse ela.
      Selena sentou-se ao lado de Katie, enquanto Trcia e Cris se acomodavam num assento  frente delas. Selena notou que o semblante de Cris estava diferente. 
Quando a conhecera, quinze dias antes, a jovem vivia com a testa franzida, o queixo tenso. Agora parecia radiante. Seus olhos brilhavam, refletindo o movimento das 
chamas. Seu rosto estava rosado, clido. Alm disso, exibia um sorriso contagiante.
      - Estou doida pra saber o que est acontecendo, disse Selena. Voc parece muito diferente! No me diga que est amando, ou algo assim!
      - Selena, principiou Cris, esforando-se para falar em tom srio, estou amando tanto que me sinto tonta!
      Trcia soltou uma risada alegre. Katie recostou-se no sof e deu um gemido.
      - Ainda no consigo acreditar que isso est acontecendo! Nosso "clubinho" est diminuindo, Selena. Agora somos apenas eu e voc.
      - No estou entendendo nada, ajuntou Selena. Voc est apaixonada por um cara da Espanha, que conheceu apenas h uma semana?
      - No, quero dizer, estou. No, no, eu no o conheci h uma semana, no, explicou Cris, meio confusa. Lembra-se daquele dia em que lhe falei sobre o Ted?
      - O tal surfista louro, lindo, que foi ser missionrio numa ilha longe daqui? indagou Selena.
      Nesse momento ouviram a voz de Douglas atrs delas.
      -Das quatro caractersticas que voc mencionou, disse ele, errou uma. Ele no foi para ilha nenhuma.
      Douglas estava acompanhado de outro rapaz. Katie ergueu-se de um salto e deu-lhe um abrao apertado, ao mesmo tempo em que dizia:
      - Ainda no estou acreditando nisso!
      Trcia tambm se levantou e abraou-o demoradamente, com os olhos cheios de lgrimas. Selena sentia-se meio perdida, pois no estava entendendo nada. Cris 
se levantou em seguida e abraou Douglas meio de lado. Selena tambm se ergueu e foi para onde eles estavam. Sentia-se estranha ao grupo. Por que aquele encontro 
deixara seus novos amigos to empolgados? Quem seria esse Ted, afinal? E o que havia de to importante no fato de ele estar ali e Cris estar apaixonada por ele?
      Trcia soltou-se de Ted, e ele olhou para Selena. Ela tambm o fitou e quase perdeu o flego. O rapaz tinha os olhos azuis mais maravilhosos que ela j vira. 
Contudo o que chamava ateno no era s a beleza dos olhos, no. Havia algo especial no semblante dele. Dava para perceber que Ted era diferente dos outros rapazes. 
Ele era daqueles jovens que do a impresso que Deus poderia realizar uma obra gloriosa por seu intermdio.
      - Selena, disse Cris, quero apresentar-lhe o Ted.
      O rapaz estendeu a mo e cumprimentou-a, dando um largo sorriso e exibindo uma covinha na face direita.
      - Muito prazer em conhec-la, disse ele. Cris me falou muito sobre voc.
      - E pelo que ouvimos, interveio Douglas, ela lhe falou sobre o Ted tambm.
      Selena ficou ligeiramente constrangida ao perceber que os dois haviam escutado que ela dissera que Ted era lindo. Nesse momento, ocorreu-lhe rapidamente que 
se Douglas no tinha um irmo, talvez o Ted tivesse.
      - Ns tnhamos pensado que o Ted fora para Papua Nova Guin, explicou Trcia. Fazia um ano que no o vamos.
      - Mas ele estava na Espanha, explicou Cris, com um tom de triunfo na voz. Foi ele que me buscou na estao.
      E Cris tinha lgrimas nos olhos ao contar o fato. Olhou para o namorado e sorriu.
      - Ele levou um enorme buqu e o meu bracelete, concluiu.
      - No diga! exclamou Katie. E o buqu era de cravos brancos, at aposto; acertei?
      - Era, replicou Ted. E voc no imagina a dificuldade que tive para encontrar cravos em pleno inverno. Tive de ir a um lugar que fica a duas horas de onde 
eu estava e depois voltar. Quase perdi a hora do trem. 
      - Ele deu cravos brancos para ela na poca em que se conheceram, explicou Katie. Uma dzia. E ela tinha... e aqui ela se virou para a amiga. Quantos anos voc 
tinha, Cris, quatorze?
      - No; foi pouco depois do meu aniversrio. J tinha quinze anos...
      - Bom, continuou Katie, como se Selena fosse a nica pessoa ali, Ted deu a ela uns cravos brancos na poca em que se conheceram, quatro anos atrs. E ela guardou 
as flores numa lata vazia. Eles j esto secos, amarelados e com um cheiro horrvel.
      - No senhora! protestou Cris.
      - Voc os guardou mesmo? indagou Ted, passando o brao nos ombros dela e dando-lhe um aperto de leve.
      - Estive para jog-los fora umas duas vezes, confessou ela, e acabei no jogando. Mas eles no esto com cheiro horrvel, no, cocluiu Cris, fazendo uma careta 
para Katie.
      - Esto, sim, falou Katie, virando-se para Selena. Esto com cheiro de caf mofado. Mas isso no tem muita importncia. A pulseira  que  importante. Sabe, 
no Natal, o Ted deu a ela um bracelete com a inscrio "Para Sempre"...
      - No, foi no ano-novo, trs anos atrs, corrigiu Trcia, aps uma festa que houve na minha casa.
      - T bom, foi no ano-novo, concordou Katie.
      - E naquele ano, interveio Douglas, Ted s me deu um livro intitulado Cento e Doze Utilidades Para um Hamster Morto. Lembra?
      - Lembro, responderam Cris e Trcia juntas.
      Evidentemente, as duas no tinham muitas recordaes agradveis do livro, como Douglas e Ted pareciam ter.
      Os dois rapazes estavam com o brao no ombro de suas respectivas namoradas, mas conseguiram bater a palma da mo um do outro, num gesto de "Toca aqui!", lembrando-se 
do livro que era muito divertido.
      - Deixem-me acabar de contar! disse Katie, batendo o p cho. Ento, Selena, eles j esto mais ou menos namorando uns trs anos. A, um dia, o Ted recebeu 
uma carta de uma organizao missionria, chamando-o para trabalhar em tempo integral. Mas ele no queria ir porque ele e Cris estavam firmando o namoro.
      - Na realidade, eu no queria era vender a minha "Kombi Nada", interrompeu Ted.
      Katie ignorou o comentrio sarcstico do rapaz e continuou:
      - Mas Cris terminou o namoro com ele. Deixou que ele fosse embora, sem compromisso algum, para que ele pudesse servir a Deus sem empecilhos. E no estou exagerando, 
no. Foi o mais belo gesto de desprendimento que j vi. Quando eles terminaram, ela devolveu a pulseira pra ele. Ento o Ted disse que, se um dia eles reatassem, 
era porque Deus queria isso, e que se ele recolocasse o bracelete no brao dela, seria para sempre.
      - , Katie, falou Ted, se algum dia eu perder a memria, vou atrs de voc. Parece que voc conhece minha vida melhor que eu.
      - Eu no sabia que ele estava na Espanha, explicou Cris. Acheique a misso o havia mandado para Papua Nova Guin, pois era pra l que ele queria ir.
      - Mas eles estavam precisando muito de algum na Espanha, interveio Ted. Assim que terminei o treinamento bsico, senti a orientao de Deus para ir trabalhar 
em Castelldefels.  claro que fiquei muito alegre quando descobri que o mar l era timo para surfar, concluiu ele com um sorriso.
      - E o Ted no fazia idia de que eu estava na Inglaterra, disse Cris. S ficou sabendo que eu estava indo para a Espanha um dia antes da minha chegada. Ele 
recebeu um fax, informando que teria de me buscar na estao. Foi por isso que o pessoal ficou espantado quando nos viu. Ns mesmos nunca poderamos ter planejado 
nosso reencontro desse modo. Foi Deus que fez tudo. E a semana de evangelismo foi simplesmente fantstica.
      - Quero saber de tudo! disse Trcia. Ih!  a sineta do jantar.
      Todos se calaram e ficaram a escutar. Era mesmo a sineta do jantar.
      - Quero jogar uma gua no rosto, falou Selena. 
      A jovem sentia necessidade de se afastar um pouco dos colegas, e quanto mais depressa sasse dali, melhor.
      - Muito prazer em conhec-lo, Ted, continuou ela. Estou muito feliz por voc, Cris, pelos dois. Foi maravilhoso o modo como Deus ajeitou tudo. Vejo todos no 
jantar, pessoal! 
      Ela j ia saindo, quando Ted estendeu a mo e segurou-a pelo ombro.
      - Venha sentar-se conosco, est bem?
      - T bom, replicou ela, sem entender por que ele a tratava com tanta gentileza.
      Encaminhou-se para um banheiro, entrou e trancou a porta. Abriu a torneira e molhou o rosto, uma, duas, trs, quatro vezes; e a cada vez as lgrimas se misturavam 
 gua fria e escorriam pia abaixo.
      - Que bobagem! murmurou para si mesma. Por que estou chorando?
      Olhou-se no espelho que havia acima da pia.
      - Estou contente pela Cris, continuou. Estou mesmo. E pelo Douglas e a Trcia tambm. Ser que sou to egocntrica que no consigo participar da alegria deles 
s porque no arranjei um namorado? Que atitude mais infantil! Detesto ter essa mentalidade!
      Selena lavou o rosto de novo e disse a si mesma que parasse de chorar. Para sua surpresa, as lgrimas cessaram. Sorriu para sua imagem refletida no espelho, 
sentindo voltar-lhe a autoconfiana. Era a primeira vez que se via to dominada pelas emoes assim.
      Talvez eu estivesse querendo chorar como as outras, por estar contente com a felicidade de Cris, mas achei que no tinha esse direito por no ser da turma 
deles. Quero dizer, eu sou, mas h pouco tempo. Eles j se conhecem quase que a vida toda, ou '"para sempre", como est na pulseira da Cris. Ser que algum dia vou 
encontrar algum que prometa me amar para sempre?
      Deu um suspiro profundo e correu os dedos pelos cachos da testa.
      Alm disso, todos so mais velhos que eu, pensou. Cris e Katie so dois anos mais velhas que eu. Douglas deve ser uns cinco anos e o Ted tambm. Ento por 
que eu teria de estar em situao igual  deles? Eles todos j esto na faculdade, e eu ainda tenho mais um ano e meio no segundo grau. Alm disso, eu j sabia que 
iria ficar meio deslocada nesta viagem, por ser mais nova que os outros. Acho que pensei que tinha maturidade suficiente para no estranhar essas diferenas.
      Sorriu de novo e endireitou um dos brincos. Se Ted era mesmo um cara legal - e achava que ele era - guardaria um lugar para ela perto deles. Ento iria sentar-se 
com ele, Cris e os amigos deles, ou melhor, os amigos dela. E procuraria agir como uma jovem madura, igual a eles. E se algo desse errado, puxaria sua cadeira para 
perto de Katie. As duas sempre podiam convocar uma reunio do seu "clubinho" particular e entregar-se  autopiedade.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      






Captulo Trs
      
      Selena acabou passando bons momentos no jantar. A certa altura, eles pararam de falar sobre si mesmos e passaram a relatar testemunhos do trabalho, um assunto 
do qual todos podiam participar.
      Ento Selena mais uma vez se sentiu parte do grupo. Estava sentada entre Katie e Douglas. Cris e Ted se achavam do outro lado da mesa,  frente deles.
      Vez por outra, ela via os dois trocarem olhares de admirao e afeio. Lembrou-se de Cody, seu irmo. Ele comeara a namorar Katrina, sua esposa, no segundo 
ano do segundo grau. Haviam se casado assim que se formaram, com a aprovao dos pais de ambos. Cody e Katrina tinham sido feitos um para o outro. Todo mundo via 
isso. Estavam casados havia seis anos e ainda pareciam apaixonados um pelo outro. Tinham um lindo garotinho, chamado Tyler. 
      Acho que eu queria que tudo fosse fcil assim para mim tambm. Talvez cu me sinta meio "atrasada" em relao a eles, porque Cody j estava namorando quando 
tinha a minha idade.
      - No sei por que estou falando disso, comentou Katie, quando j estavam terminando de jantar, mas esse papo com vocs est me dando saudade de casa.
      - Est com saudade da famlia? indagou Ted.
      - Um pouco. Acho que estou mais  com saudade da adolescncia, de ir  praia todo dia; de tudo que fazamos juntos. Os anos do segundo grau foram os melhores 
de nossa vida. Por que ser que a gente fica adulto to depressa?
      - E, eu sei o que voc quer dizer, falou Cris. O David, meu irmo, est com treze anos. E eu nem vi como ele cresceu. De repente virou adolescente, ficou alto 
e magricela, e eu nem o conheo direito. Hoje  tarde liguei para l, e foi ele que atendendeu, mnas no reconheci a voz dele. Puxa, meu irmozinho est adulto!
      - Quase adulto! corrigiu Katie. Pra mim o David vai ser sempre um desses garotos muito "certinhos" e convencidos!
      - E voc, Katie, indagou Selena, tem irmos?
      - Dois irmos mais velhos, ambos meio metidos, tambm.
      - E voc, Ted?
      Isso era o que ela mais queria saber. Seria bom se ele tivesse um irmo mais novo, parecido com ele e da idade dela.
      - No, replicou Ted. Sou filho nico. E voc?
      - Quatro irmos e uma irm.
      - So seis filhos ao todo? indagou Douglas. Vocs usam crach de identificao para todo mundo saber quem  quem?
      - Claro que no! Seis filhos no  tanto assim, no. Na casa do meu pai eram nove. Tenho dois irmos acima de mim. O mais velho est estudando fora, na faculdade. 
O segundo  casado e trabalha em construo. Minha irm  dois anos mais velha que eu, e depois de mim tem o Dilton, de oito anos, e o Kevin, de seis.
      - Parece que sua me teve os filhos de dois em dois, comentou Katie. Mas pelo menos cada um teve um irmo do mesmo sexo para dormir no mesmo quarto.
      - Pois eu detesto ter de dividir o quarto com Tnia, minha irm. Ela  supermetdica com tudo. Meu maior sonho  no ter de ficai no mesmo quarto com ela.
      - Na sua casa todo mundo tem nome de faroeste? indagou Katie.
      - No, respondeu Selena, nossos nomes no so de faroeste, no.
      - Ta bom, ento so nomes tpicos do Oeste. Como  o nome do seu irmo mais velho?
      - Wes.
      - Todos riram.
      - Espera a, gente, interveio Selena, levantando as mos para que todos olhassem para ela. Wes  apelido. O nome dele  Wesley. Esse era o sobrenome de solteira 
da minha me. Ela  da famlia de Joo e Carlos Wesley, que foram pregadores famosos na Inglaterra.
      - E como se chama o outro irmo? quis saber Katie, que no estava interessada na histria da famlia de Selena e achava que iria ouvir outros nomes tpicos 
do Oeste.
      - Meu irmo casado se chama Cody.
      Novamente todos riram.
      - Est vendo, comentou Katie. Todos tm nome de faroeste. Seu pai faz o qu?  fazendeiro?
      - Nao, respondeu Selena, comeando a rir.
      - Ele trabalha em qu?
      - Vocs vo rir de novo, disse ela. Ele era xerife.
      O grupo todo deu risada, inclusive Selena.
      - Ele andava com aquela estrela prateada na lapela e tudo o mais? indagou Cris.
      Selena fez que sim e limpou as lgrimas que lhe vieram aos olhos por causa do riso.
      - , disse, acho que somos meio do faroeste, sim. Nunca tinha pensado nisso antes. Eu nos via mais como dinamarqueses, pois minha av  da Dinamarca.
      - E como  o nome dela? indagou Cris.
       - May Jensen. Ns a tratamos por V May. Meu segundo nome  May. E se isso vale alguma coisa, May no  nome de faroeste, ?
      - Creio que no, concordou Cris, dando de ombros.
      - Como  seu segundo nome, Cris? perguntou Selena.
      Cris olhou para o Ted meio sem graa.
      -  Juliet, replicou.
      Todos caram na gargalhada, e quem mais ria era o Douglas.
      - Est bem, Douglas, falou Trcia com a mo na cintura. Voc est achando tudo to engraado, ento diga pra todo mundo seu segundo nome.
      O rapaz ficou srio. Trcia ergueu as sobrancelhas.
      - Quer que eu fale? ameaou ela.
      - Quentin, revelou ele com voz sumida.
      Outra risada geral. Douglas tentou explicar que Quentin tambm era nome de pessoas da sua famlia, como May e Wesley, e que no tinha nada de engraado.
      Afinal quando os seis jovens se levantaram da mesa e se dirigiram para o salo onde se realizaria o culto, pareciam bobos de tanto rir. Estavam cansados da 
viagem e era por isso que riam  toa. Principalmente Katie.
      Selena estava admirada com a rapidez com que a mente de Katie operava, soltando respostas espirituosas para tudo que os outros diziam. Seria muito difcil 
ficarem srios no culto.
      O vice-diretor da misso de Carnforth Hall estava  porta e ia cumprimentando cada jovem  medida que entravam. Quando o grupo deles chegou, ele pegou o brao 
de Ted e disse:
      - O Dr. Benson teve de ir a Edimburgo para assistir a um culto fnebre, ento hoje sou eu quem vai dirigir. Vocs ensaiaram os hinos?
      - Est tudo preparado, replicou o rapaz.
      Ele soltou a mo de Cris e, juntamente com Douglas, dirigiram-se para o palco. Selena sentou-se num banco com Cris, Katie e Trcia. Agora as garotas estavam 
de novo sozinhas, o que a fez sentir-se melhor.
      Ao que parecia, Ted era o dirigente do grupo de louvor, constitudo de quatro rapazes, todos com instrumentos. Como ele e Douglas ainda se achavam com muita 
adrenalina devido ao ambiente do jantar, iniciaram o perodo de cnticos com trs corinhos bem animados, cantados ao som de palmas. Contagiados por eles, todos os 
jovens presentes cantaram com alegria e vigor. Todos pareciam bastante empolgados.
      Selena estava adorando tudo aquilo. A pequena igreja que frequentara em Pineville era muito conservadora. O perodo de louvor nunca era assim to animado.
      Depois do quarto corinho, o vice-diretor foi  frente e pediu a todos que se sentassem.
      - Antes de continuarmos, disse ele, quero dar alguns avisos. Em primeiro lugar, quero apresentar o Ted Spencer, este aqui que est tocando violo.
      O rapaz sorriu e fez um gesto, cumprimentando a congregao, constituda de uns quarenta jovens.
      - Ted  o diretor de nossa misso na Espanha, continuou o vice-diretor. Ele tem um compromisso de dois anos conosco e trabalha em Castelldefels com o grupo 
de jovens de l. Est cursando a faculdade por correspondncia. Estuda misses transculturais. Quando terminar seu compromisso conosco, tambm estar comando o curso. 
Se algum de vocs estiver interessado em continuar na obra missionria e estudar ao mesmo tempo,  s me procurar que posso fornecer todas as informaes necessrias.
      Em seguida ele olhou para Douglas e para os outros rapazes do grupo de louvor.
      - Tinha mais algum aviso? Douglas, foi voc quem disse que linha um aviso?
      O rapaz fez que no. Katie, que se achava sentada perto de Selena, de repente falou:
      - O Douglas quer avisar que o segundo nome dele  Quentin.
      A princpio ningum riu. Todos se voltaram para o rapaz que aceitou a piada com bom humor. Ergueu o polegar para Katie e, em seguida, inclinou a cabea para 
trs, soltando uma gargalhada. Todos os presentes riram tambm.
      - Esses americanos... comentou o vice-diretor, abanando cabea.
      Katie inclinou-se para Selena e disse:
      - Fazia tempo que eu estava esperando essa oportunidade. Desde o primeiro dia de aula do meu terceiro ano na escola, quando Douglas me deixou com um olho roxo.
      Ted se ps a dedilhar um cntico de ritmo mais moderado, e todo o grupo foi silenciando. Da a pouco, estavam cantando de novo os hinos de louvor, agora em 
ritmo mais lento. Afinal, a ltima msica foi cantada em esprito de meditao, e uma atmosfera de silncio tomou conta do salo. Selena fechou os olho e procurou 
cantar de todo o corao, ouvindo sua prpria voz misturar-se  de Cris e Trcia.
      Seguiu-se um momento de orao, no qual vrios jovens espontaneamente agradeceram a Deus pelo trabalho realizado pelas equipes nas cidades aonde tinham ido. 
Muitos citaram o nome de pessoas que haviam contactado. Selena orou por uma senhora idosa com quem conversara em Belfast. A mulher lhe dissera que acreditava que 
iria para o cu porque era uma boa pessoa. No quisera aceitar o fato de que precisava crer em Cristo para se salvar. Selena a achara ligeiramente parecida com V 
May, na aparncia e nos gestos. A diferena era que sua av era crente, e muito fiel.
      Durante uma hora, continuaram orando e dando testemunhos. Muitos relataram fatos extraordinrios, contando o que Deus realizara no meio deles na semana anterior.
      Encerrado o culto, Katie e Selena voltaram para o hall de entrada, para pegar suas malas que ainda estavam l. Levaram a passagem para o quarto e comearam 
a se preparar para dormir.
      - Parece que se passaram dois anos desde que samos daqui, comentou Katie.
      -  mesmo, disse Selena. E foi apenas uma semana.
      - Vai ser to estranho quando formos para casa, continuou Katie. Acho que mudamos muito nesses poucos dias. E  provvel que l esteja tudo do mesmo jeito.
      - Para voc, sim, disse Selena com uma risada.
      Ela se enfiou debaixo das cobertas e ficou a remexer as pernas, esfregando-as contra a roupa de cama, na tentativa de se aquecer.
      - Ah! exclamou. Tinha me esquecido de como este quarto  frio.
      - Por que voc disse que "para mim" vai estar tudo do mesmo jeito? indagou Katie.
      Ela empurrou sua cama para perto da de Selena e em seguida deitou se, cobrindo-se at o queixo.
      - Bom, sabe o que , Katie? Depois que vim para c, minha famlia se mudou. Mudamos da Califrnia para o Oregon.
      - T brincando?
      - No,  verdade. Foi por isso que meus pais deixaram que eu fizesse esta viagem no meio do ano letivo. Eu j ia mesmo mudar de escola. Vou comear a estudar 
numa nova escola agora no incio do semestre.
      Katie bateu em seu travesseiro para afof-lo.
      - E o que voc fez ento? Fez as provas bimestrais e encerrou tudo?
      - , mais ou menos. A escola onde eu estudava  muito pequena. Pra voc ter uma idia, as turmas do terceiro ano tinham um total de cinqenta e sete alunos. 
Na escola havia cerca de duzentos estudantes ao todo. Os professores foram muito legais comigo e deixaram que eu fizesse as provas mais cedo.
      Nesse momento, a porta se abriu, e Cris e Trcia entraram rindo por algum motivo. Katie olhou para Selena, erguendo as sobrancelhas com ar de indagao.
      - As "Julietas" esto de volta, aps o encontro com os seus "Romeus".
      - Foi tudo bem com vocs, meninas? indagou Selena, dando  voz um tom maternal.
      - Desculpe, falou Trcia. Nossa felicidade est evidente demais?
      - S um pouco, replicou Selena na gozao. Acho que  assim que eu e Katie vamos ficar quando nos apaixonarmos.
      - , algum dia, comentou Katie em tom de brincadeira. Quando eu j tiver oitenta e cinco anos e estiver na casa repouso para idosos, algum velhinho vai comear 
a correr atrs de mim numa cadeira de rodas.
      - Ah, to jovem assim? brincou Selena. Pois eu vou ficar muito satisfeita se ainda tiver alguns dentes.
      - Que  isso, garotas? falou Cris, sentando-se na beirada da cama e tirando os sapatos. Quando menos esperarem, o cupido vai atingi-las em cheio.
      - Ah, ? indagou Katie, sentando-se e pegando o travesseiro. Assim? continuou ela, atirando-o na cabea da amiga.
      Cris soltou um grito e revidou imediatamente, jogando o dela na direo de Katie. No entanto errou e acertou o rosto de Selena. Esta tambm entrou em ao. 
A Trcia pegou o seu e atirou nelas. Foi o sinal para que se iniciasse uma guerra geral.
      As quatro amigas ficaram a gritar como crianas, mandando os travesseiros umas nas outras. Afinal o de Selena se rasgou e as penas voaram para todo lado. Elas 
gargalhavam a ponto de chorar. E abanavam a mo na frente do rosto para afastar as plumas que vinham sobre elas.
      De repente ouviram uma batida forte na porta e pararam de rir.
      - Quem ? gritou Selena, com voz controlada.
      - Senhoritas, disse uma voz masculina do outro lado, o que est acontecendo? Esto fazendo tanto barulho que est dando para ouvir na ala sul do castelo.
      - Ah, estamos apenas rindo, pastor. Mas vamos dormir agora, explicou ela, ainda mantendo o ar srio.
      - Ento, boa noite! Apaguem a luz!
      - Boa noite, pastor! respondeu Selena, estendendo o brao para apag-la.
      Elas ficaram alguns instantes ouvindo o eco dos passos que se afastavam corredor abaixo e depois acenderam a luz de novo.
      - Puxa! Que sabidinha! exclamou Katie, afastando uma mecha de cabelo dos olhos. Como aprendeu a fazer isso?
      - Sou de uma famlia numerosa, esqueceu? Tenho muita prtica. Vocs precisam aprender a fazer uma guerra de travesseiro em silncio.
      Cris se deitou e ficou a olhar para o teto.
      - Peo trgua, gente! disse. No agento outro "assalto", seja ele em silncio ou no. Acho que nunca ri tanto em toda a minha vida.  to bom estar de volta 
aqui com vocs! 
      Trcia comeou a recolher as penas.
      - Deixe isso para amanh, falou Selena. De manh vai ser mais fcila arrumar tudo. Acho que tem outro travesseiro no armrio.
      - Vou peg-lo pra voc, ofereceu-se Trcia, indo em direo ao mvel. Mas e essa baguna toda?
      - Deixe pra l! replicou Selena. Amanh ainda vai estar a do mesmo jeito. Eu sempre digo isso para minha irm, mas ela  muito metdica. S consegue relaxar 
e dormir depois que coloca tudo nos seus devidos lugares.
      Trcia voltou e entregou o travesseiro para Selena.
      - Aproveitando enquanto estou de p, falou ela, algum quer mais alguma coisa?
      Ningum respondeu.
      - Cris, posso apagar a luz? Voc veste a camisola no escuro?
      Silncio.
      - Acho que ela j dormiu, disse Katie, ajeitando-se debaixo das cobertas.
      Selena deu uma espiada para Cris. Era verdade. A amiga estava dormindo, deitada de costas com um sorriso nos lbios.
      - Trcia, vamos dar um jeito de cobri-la, disse Selena. Se ela ficar assim, vai congelar.
      Trcia, sempre muito prestativa, falou baixinho ao ouvido Cris, dizendo-lhe que se virasse para que Selena pudesse puxar a coberta e cobri-la. A jovem virou-se, 
mas, ao que parecia, mexeu-se sem acordar.
      Alguns minutos depois, estavam todas ajeitadas na cama. Uma ltima pena flutuou no ar e pousou no rosto de Selou. Ela afastou-a com um tapa de leve e mergulhou 
na terra dos sonhos.
Captulo Quatro
      
      No dia seguinte, Selena s acordou por volta de dez horas. As outras ainda estavam dormindo. O cho achava-se coberto de penas. Selena levantou-se e foi de 
mansinho ao corredor. Pegou uma vassoura no armrio de limpeza e vol tou ao quarto. O mais silenciosamente possvel, para no despertar as colegas, varreu as penas.
      Ouviu vozes no quarto ao lado; as ocupantes dele j estavam se levantando tambm. Sabendo que todos os jovens estariam cansados, os diretores da misso haviam 
determinado que no haveria caf da manh. Das dez horas ao meio-dia, haveria uma refeio no estilo self-service, que valeria pelo caf da manh e pelo almoo. 
Selena resolveu tomar um banho rpido, antes que se acabasse a gua quente.
      Quando retornou ao quarto, as companheiras j haviam acordado e estavam se arrumando.
      - Puxa, mas como estou cansada, dizia Cris. Nem me dei conta de que dormi sem trocar de roupa.
      - Selena, voc pode nos esperar? pediu Trcia. Assim podemos descer juntas para comer.
      - Espero. Podem se arrumar com calma.
      Selena esfregou a toalha no cabelo e em seguida calou as botas. Tirou uma bolsinha da mala, abriu o zper e pegou um par de brincos. Eram figuras da lua e 
de estrelas, presas numa pequenina corrente prateada. A seguir, pegou uma pulseira de argolas - oito argolas de prata - e enfiou-a no brao esquerdo. Colocou um 
colarzinho de contas coloridas, que mais parecia uma fileira de confetes sobre o fundo de sua camiseta de malha verde-escura. Sentia-se revigorada aps o banho e 
pronta para descer.
      No se importava de esperar as outras. Aproveitaria o tempo para ler a Bblia. Tirou-a de sua mochila marrom. Sua Bblia era de tamanho mdio e tinha uma sobrecapa 
de couro, que o pai fizera para ela alguns anos atrs. Na frente estava desenhada uma rvore, ao p da qual se via a inscrio: "Salmo 1.3." Esse era o verso predileto 
de Selena, desde pequena.
      Abriu-a no livro de Salmos e se ps a ler o de nmero 62, que fora o ponto em que parara na vez anterior. O verso 8 prendeu sua ateno. Dizia: "Confiai nele, 
 povo, em todo tempo; derramai perante ele o vosso corao; Deus  o nosso refgio."
      Selena se lembrou de que estava um pouco ansiosa com relao  mudana da famlia, mas guardava o problema s para si. No desabafara com ningum, nem mesmo 
com Deus. Nesse momento, a porta do quarto se abriu e suas companheiras entraram, todas com toalhas enroladas na cabea. As trs ficaram paradas perto da porta com 
ar de tontas. De repente, a um sinal de Katie, estenderam a mo direita para a frente, puseram-se a requebrar um pouco e a cantar em estilo soul music: "Pare! Em 
nome do amor!"
      Selena soltou uma gargalhada, e as trs tambm caram n a risada. Riram tanto que acabaram desmanchando os turbante de toalha.
      - Anda depressa, gente! disse ela afinal. J so quase onze e meia. Se demorarmos, vamos acabar perdendo o self-service.
      Quinze minutos depois, as quatro desciam para o refeitrio. Selena encheu o prato e comeu tudo. Afinal a hora esgotou-se, e D. Joanna, a chefe da cozinha, 
comeou a recolher as vasilhas de alimentos. Nesse instante, Ted e Douglas apareceram.
      - Aqueles  dois vo se arrepender de terem dormido demais, falou Cris.
      Parecia que Ted estava tentando convencer D. Joanna a deixar que eles raspassem o resto que havia nas vasilhas. Trcia deu uma risada ao v-los tentando tirar 
a travessa com fatias de presunto das mos da cozinheira. Ted conseguiu agarrar alguns ovos cozidos e enfiou-os no bolsinho do agasalho. Douglas pegou uma cesta 
com pezinhos que estava sobre a mesa e escondeu-a s costas.
      - Ela no sabe que aqueles dois so capazes de comer qualquer coisa, falou Trcia. Principalmente o Douglas. Se ela permitisse que eles comessem todas as sobras 
da geladeira, para eles estaria timo.
      Com as mos cheias do alimento "pilhado" e com expresso de triunfo no rosto, os dois se aproximaram das garotas.
      - Vocs vo receber o trofu "melhor tapeador do ano", falou Katie. Acho que enganariam at a rainha da Inglaterra, se ela estivesse aqui.
      Os dois se entreolharam com um sorriso matreiro.
      - Que  que foi? indagou Cris. Eu conheo esse olhar de vocs. O que foi que fizeram?
      - Ah, nada, replicou Douglas.
      Ted serviu-se de um pouco de suco de ma, reprimindo o riso.
      - Tratem de contar! exigiu Trcia.
      Ele abriu um pouco mais o sorriso. Levou o copo de suco  boca, evitando olhar para Cris. Douglas parecia a ponto de cair na gargalhada. Olhou para o amigo 
e em seguida para Trcia. Fitando Katie diretamente nos olhos, franziu as sobrancelhas e disse em voz grave:
      - Senhoritas, o que est acontecendo? Esto fazendo barulho que est dando para ouvir na ala sul do castelo.
      Katie abriu a boca de espanto.
      - Ento, boa noite! continuou Douglas. Apaguem a luz!
      - Foram vocs!
      Katie ergueu-se com os braos estendidos, as mos em concha, pronta para estrangular Douglas. Ted ria tanto que acabou se engasgando e soltando o suco de ma 
pelo nariz. Ele agarrou depressa um guardanapo, levantou-se e virou de costas para o grupo, tossindo.
      - Que criancice! exclamou Katie, caindo de volta sentada na cadeira e cruzando os braos. O crebro de vocs deve ter parado de desenvolver quando tinham doze 
anos. Estou pasmada com vocs, caras!
      - Conosco? indagou Ted, que recuperara o flego. E vocs que so to maduras, o que estavam fazendo ontem  noite? Pra mim parecia uma bela guerra de travesseiro, 
bem tpica de garotas de quatorze anos!
      - E era mesmo! confessou Selena, rindo junto com as outras. Pena que vocs no estavam l. Teramos massacrado os dois.
      - Ah, ? indagou Douglas. Quer topar uma guerra de travesseiro hoje?
      - Topamos. Quero ver! replicou Selena, levantando-se e empinando bem o nariz, como fazia s vezes com seus irmos mais velhos.
      Katie ergueu-se de um salto e colocou-se ao lado da amiga.
      - ! Eu tambm quero ver! disse.
      - Ento est bem! Hoje  noite! disse Douglas, apontando para Katie e Selena e assumindo um ar de valento. Ns iremos l.
      O Dr. Bcnson entrou no refeitrio e anunciou que haveria um culto dentro de quinze minutos. O diretor parecia cansado. Selena lembrou-se de que ele fora  
Esccia para assistir a um culto fnebre. Talvez tivesse acabado de chegar.
      Ted e Douglas mais uma vez tocaram violo no perodo de louvor, que durou cerca de meia hora. Selena adorou. Em seguida, o Dr. Benson deu uma palavra sobre 
como eles teriam de se adaptar  rotina normal da vida, quando chegassem em casa. Aconselhou os jovens a pegar a Bblia e procurar um canto para l-la e meditar, 
preparando-se emocionalmente para a volta.
      Slena foi sentar-se num dos ltimos bancos do salo. A maioria dos jovens saiu do aposento. Ficaram apenas uns quatro ou cinco, que se espalharam por ele e 
se puseram a buscar o Senhor. Ela releu o captulo que lera mais cedo e, em seguida, orou.
      "Senhor, tu queres que eu abra o corao para ti. Ento vou abrir. Estou muito nervosa. , estou sim; com muito medo. Issp no me acontece com freqncia, 
mas hoje estou temerosa. Eu no queria me mudar. No queria ir para outra escola. No quero dizer com isso que no desejo conhecer outras pessoas, no.  que eu 
achava muito bom ser conhecida de todo mundo na minha escola de Pineville. Nessa outra, ningum nunca me viu. Ali vou ser apenas mais uma aluna. Contudo, se  isso 
que o Senhor quer, ento est bem. Mas essa situao me deixa insegura, e tu sabes, Senhor, que no sou medrosa. E j que estou desabafando, quero dizer tambm que 
esse negcio de todo mundo estar arranjando namorado, menos eu, est me incomodando. Esses rapazes aqui so muito legais; so gente muito boa. Estou com medo de 
no sobrar ningum assim pra mim. Sei que tenho de confiar em ti, mas..."
      Selena abriu os olhos e releu o verso 8: "Confiai nele,  povo, em todo tempo."
      "Est bem", continuou orando. "Tenho de confiar em ti em tlodo o tempo, mesmo neste momento em que no tlenho namorado. Estou tentando confiar. Mas queria 
que o Senhor lembrasse que j tenho dezesseis anos, e at hoje ningum me beijou, nem ao menos pegou na minha mo. O Senhor entende que isso pode me deixar meio 
insegura com relao  minha aparncia, personalidade e tudo o mais, no ? S quero ter certeza de que o Senhor compreende isso. Sei que compreende."
      Selena se levantou e foi dar uma ltima volta pelo castelo. Sentindo que permanecia em esprito de comunho com Deus, continuou falando com ele enquanto caminhava.
      Ela costumava conversar com o Senhor assim muitas vezes. Recebera Jesus como Salvador quando tinha cinco anos e, desde ento, procurava manter uma profunda 
comunho com Ele. Para ela, isso fora relativamente fcil, pois sua famlia era crist e morava numa cidade de vida tranqila e pacata. Sabia que agora, mudando-se 
para Portland, uma cidade grande, iria encontrar muitas dificuldades.
      Naquela noite, a equipe de Selena se reuniu pela ltima vez. Na noite anterior, riram sem parar. Agora parecia que no conseguiriam parar de chorar. Mesmo 
depois que as garotas estavam deitadas, a luz apagada, ainda continuavam chorando prometendo manter contato umas com as outras. E com toda aquela onda de emoo, 
acabaram se esquecendo da combinada guerra de travesseiros. Na manh seguinte, embora Selena achasse que havia derramado todas as lgrimas que possua, voltou a 
chorar na hora de pegar o furgo, s 5:00h da manh, para ir para a estao de trem. Ainda estava escuro e fazia muito frio. Todo o pessoal veio se despedir-se dela. 
Os abraos foram interminveis. Kati foi a primeira.
      - Pra falar a verdade, disse ela, no estou muito triste por despedir-me de voc porque sei que vou rev-la em breve. Vamos encontrar-nos nas frias, se no 
antes.
      Em seguida Ted lhe deu um abrao.
      - , Selena, disse ele. Acho que vamos ter de adiar nossa guerra de travesseiros.
      -  mesmo, concordou ela.
      Sentiu mais lgrimas lhe encherem os olhos. Sabia que talvez nunca mais visse Ted e Douglas, e que as palavras dele no passavam de uma ameaa vazia.
      Cris foi a ltima a despedir-se.
      - Voc ficou no meu corao, Selena, disse a jovem. E sempre ficar.
      As duas permaneceram um momento uma diante da outra, limpando as lgrimas uma da outra. Por fim, Cris colocou a mo na cabea da amiga e disse:
      - O Senhor te abenoe e te guarde, Selena. O Senhor faa resplandecer o seu rosto sobre ti e te d a paz. E que voc sempre ame a Jesus em primeiro lugar, 
acima de tudo o mais.
      Selena fez um aceno para todos e entrou no carro. Os outros iriam viajar de tardinha para Londres, onde passariam a noite numa penso. No outro dia, pela manh, 
Douglas, Cris e Trcia pegariam um avio para Los Angeles. Ted retornaria a Barcelona. Selena estava detestando ser a primeira a partir.
      - Tchau, gente! gritou ela, acenando outra vez.
      Apesar da bno de Cris e da calorosa despedida, Selena teve a sensao de que uma nuvem sombria a envolveu e permaneceu com ela at chegar ao Aeroporto de 
Heathrow, em Londres. Entrou na fila do balco da companhia area. Despachou sua bagagem e pediu informao sobre o porto de embarque. Estava tudo certo. O avio 
partiria dentro de uma hora.
      Resolveu ligar para os pais e dizer-lhes que o vo estava dentro do horrio. Teve de remexer na mochila para pegar o nmero do telefone de sua nova casa. Era 
estranho no saber de cor o telefone de sua prpria residncia.
      Chegou a um local onde havia vrios aparelhos, mas todos estavam sendo usados. Ficou de lado, aguardando pacientemente que um deles fosse desocupado. Um rapaz 
que estava num dos telefones virou-se para trs e olhou para ela. Tapou o receptor com a mo e disse:
      - Por favor, ser que voc teria umas moedas* para me arranjar? Estou precisando demais.
      ___________________
      Em alguns pases, os telefones pblicos funcionam com moedas, e no com cartes ou fichas, como ocorre no Brasil. (N. daT.)
      
      Pelo jeito de falar, ela percebeu que ele era americano.
      - No sei bem, respondeu.
      Abriu rapidamente a mochila e ficou a procurar moedas no fundo dela. Pegou quatro. Encaminhou-se para o rapaz e lhe entregou o dinheiro. Em seguida, ps-se 
a procurar mais.
      - Voc  um anjo! disse ele, introduzindo imediatamente as moedas no aparelho.  Paul, continuou ele. Jalene est a?
      O rapaz estendeu a mo, querendo mais. Selena viu que havia vrias moedas no bolsinho da mochila e pegou nove. No tinha certeza do valor delas nem se seriam 
suficientes. Tampouco sabia quanto havia dado para o desconhecido. Ele apanhou o dinheiro apressadamente e introduziu-o no aparelho.
      - Oi! Tenho s mais um minuto no telefone, disse ele. Vou lhe dar o nmero do meu vo. Est preparada para anotar?  o vo 931 para San Francisco. Depois pego 
o 57 para Portland. Anotou?
      Selena deu uns passos para trs e, despistadamente, pegou sua passagem e olhou-a. Iria pegar os mesmos vos que ele.
      - Chego em Portland s 8:24h da noite. Entendeu? timo! T bom! A gente se v, ento. Obrigado! Tchau!
      Afastou o fone do ouvido e entregou-o a Selena.
      - Foi o tempo exato, disse o rapaz. Tenho de lhe pagar. Quanto foi que voc me deu?
      - No tenho a menor idia, replicou Selena, olhando "Paul" de frente pela primeira vez.
      Ele tinha cabelo castanho-escuro, e uma mecha caa sobre sua testa larga. Estava com um bluso de couro. Trazia s costas uma mochila,  qual estava preso 
um chapu tipo "Indiana Jones". De repente, veio-lhe  mente um pensamento que a deixou surpresa: Lute por este rapaz!
      - Eu vou lhe pagar em dlares, disse ele, enfiando a mo no bolso.
      - Com licena, disse um senhor com sotaque britnico, que chegara perto de Selena. Voc vai usar esse telefone?
      - Vou, respondeu ela.
      A moa adiantou-se, pegou o aparelho e, em seguida, fez uma chamada a cobrar para os pais. Paul ficou parado ao lado, ainda procurando moedas para pagar-lhe. 
Ele estava agindo como se os dois estivessem juntos. Selena colocou o fone no ouvido, firmando-o com o ombro. Sentia um perfume forte, masculino. Achava que era 
de Paul. 
      O pai dela atendeu. Ela se aproximou mais do aparelho e se ps a conversar com ele em voz baixa. Disse ao pai que tudo estava bem e saindo de acordo com o 
planejado. Ele combinou de ir busc-la no aeroporto.
      - Eu tambm estou com saudade, pai! concluiu ela, em voz suave, desligando em seguida.
      Virou-se para o rapaz e fitou-o. Ele tinha olhos cinzentos. No, azuis. No, no. Pareciam cinzentos. E eram bem claros, como gua.
      - Tenho apenas dois dlares aqui, disse ele. Voc se importaria de ir comigo ao guich de cmbio? Vou descontar um cheque de viagem e lhe pago. Est bom assim? 
Est com pressa?
      - No. Tudo bem, replicou Selena, dando de ombros. Vou com voc.
      - Meu nome  Paul, continuou o rapaz. Peo desculpas por ter abusado da sua bondade. Foi muita gentileza sua me ajudar. Obrigado!
      - De nada. No se preocupe.
      Entraram na fila do guich de cmbio. Selena sentiu Paul fit-la. Suportou o olhar dele por alguns instantes, sem encar-lo. Afinal virou-se para ele. Paul 
no desviou os olhos nem pareceu constrangido.
      - Voc no usa maquiagem, no ? observou o rapaz.
      A Selena ficou meio sem jeito. Esse cara era muito direto. Ela tambm agia assim e, por diversas vezes, esse seu modo de ser lhe causara problemas.
      - No. E voc? indagou brincalhona.
      Paul se espantou, mas em seguida deu um sorriso.
      - Bom,  verdade que voc no precisa, falou ele.
      Selena aproximou-se um pouco dele como que para fit-lo de perto.
      - Nem voc, afirmou em tom claro.
      Dessa vez Paul riu. Nesse momento, chegaram ao guich, e Selena se ps de lado. O rapaz pegou seu passaporte e assinou um cheque. O caixa contou o dinheiro 
e passou-o por baixo da placa de vidro.
      - Tome! disse Paul, afastando-se do guich e entregando-lhe uma nota de $20,00 dlares.
      - No tenho troco para $20.
      - Mas s tenho notas de $20, falou ele. Vai ter de aceitar.
      - Ento vou ficar lhe devendo um troco, disse Selena.
      - No se preocupe, replicou ele, olhando o relgio. E mai uma vez, muito obrigado. Tenho de pegar o avio.
      - Eu tambm, falou Selena.
      Ele foi se afastando rapidamente, a mochila aos ombros. A jovem tambm saiu caminhando em direo ao seu porto de embarque, andando alguns passos atrs de 
Paul. Pensou em cham-lo e seguir junto dele, j que iam pegar o mesmo vo. Contudo, por um impulso interior, conteve-se, o que no era uma atitude muito tpica 
de Selena. Geralmente ela falava o que queria, com qualquer pessoa, a qualquer hora. 
      Viu Paul  sua frente na fila do balco da companhia onde apresentariam a passagem. Havia trs pessoas entre eles. O rapaz no se virou para trs nem uma vez. 
Assim que ele terminou, saiu dali. S retornou quando chamaram os passageiros para se apresentarem para o embarque. Selena se achava perto de uma janela e viu quando 
ele entrou na fila.
      Que coisa mais idiota! pensou. Por que estou observando os movimentos desse rapaz?
      Aproximou-se da porta de entrada com a mochila s costas e a passagem na mo. Seus olhos estavam fitos no velho chapu "Indiana Jones", preso  mochila do 
rapaz, que ia caminhando lentamente acompanhando a fila. Selena teve um pensamento maluco.
      E se nossos lugares forem juntos?
      Sorriu para a comissria de bordo e foi andando para o fundo do avio. Continuava a ver Paul ainda caminhando  frente, o chapu se movendo a cada passo que 
dava. Isso era bom sinal - ele ainda no chegara  poltrona dele. Mais um pouco, e ele estaria na fileira dela. De repente Paul se deteve. Selena prendeu o flego.
      
      
Captulo Cinco

    

      Selena viu Paul deslizar a mochila do ombro e abaixar a cabea para no bater no compartimento de bagagem. Quando falara com ele no terminal, junto ao telefone, 
ele no lhe parecera muito alto. Agora notava que era bem alto e de ombros largos. Como Selena tinha apenas l,65m de altura, obviamente todos os rapazes lhe pareciam 
altos. Consultou de novo o carto de embarque para ver o nmero de sua poltrona.
      Droga! pensou. Meu lugar  trs fileiras atrs da dele. Ser que me ver quando eu passar por ali?
      Foi caminhando devagar e chegou junto  fileira de Paul. O rapaz estava abaixado, guardando a mochila sob o assento  sua frente. Selena parou momentaneamente, 
pensando se deveria dizer algo. Ele se ergueu, mas continuou com os olhos baixos, ajustando o cinto de segurana.
      A moa se deu conta de que estava atrasando a fila e se ps a andar de novo. Afinal chegou ao seu lugar. Era junto  janela. Entrou e sentou-se. Na poltrona 
do corredor, estava um senhor de idade.
      Aqui bem podia ser o lugar do Paul! pensou, olhando para o assento vazio entre o dela e o da beirada. Por outro lado, ainda no h ningum junto dele. Talvez 
eu devesse arranjar uma desculpa para ir me sentar perto dele, como quem no quer nada, como se achasse que ali era minha poltrona. No, isso seria muito vulgar. 
Talvez seja melhor eu levantar e ir procurar um travesseiro ou pegar uma revista, para ver se ele me nota quando eu passar perto. A deixo que ele tome a iniciativa. 
Vou ficar parada l, conversando com ele naturalmente. Ento a comissria vem e me manda sentar, e eu me sento perto dele. Que  que estou pensando? Isso  ridculo! 
      - Bom dia pra voc! disse o senhor que estava sentado na ponta.
      Era calvo e usava uns culos pequenos e redondos. Tinha um ar tranquilo, as mos juntas sobre o estmago, as pernas esticadas, os ps cruzados  altura dos 
tornozelos. Parecia estar j bem acomodado. Selena no teve coragem de pedir licena para passar por ele e ir caminhar no corredor. Retribuiu o cumprimento e em 
seguida se ps a olhar pela janela.
      Viu dois homens chegarem num carrinho cheio de malas e pararem junto ao avio. Iam colocando a bagagem numa esteira rolante, que a transportava para o compartimento 
de carga do avio. Selena pensou que talvez fosse prefervel viajar com a carga do que passar as prximas quinze horas olhando para a cabea de Paul, sentado trs 
fileiras  sua frente.
      A moa forou-se a pensar em outra coisa. Pegou uma revista no "bolso"da poltrona da frente. Ficou a folhe-la, como se estivesse lendo-a. Sua mente estava 
meio confusa. No tinha a menor idia de que horas eram e de quanto tempo ainda demoraria para que o avio levantasse vo.
      A comissria de bordo veio descendo pelo corredor, verificando os cintos de segurana e distribuindo travesseiros e cobertores aos passageiros. De repente 
ela ficou sonolenta. Seria bom tirar um cochilo antes do jantar. Puxou o cobertor at o queixo e ajeitou o travesseiro atrs da nuca.
      Fehou os olhos e procurou analisar os pensamentos, as emoes e as experincias das semanas anteriores. Era a primeira vez, depois de vrios dias, que tinha 
a chance de ficar assim, a ss com seus pensamentos. Talvez fosse bom mesmo que no estivesse ao lado de Paul, conversando com ele.
      O avio comeou a rodar pela pista e em seguida decolou. Selena olhou pela janela. Um minuto depois, o aparelhoa atravessava as nuvens que estavam sobre o 
aeroporto, e agora s se via um tapete cinzento. Tentou espiar para Paul, que se achava a frente. Ser que ele tambm estava olhando pela janela? Estaria lendo? 
Ou dormindo? Inclinou a poltrona, fechou os olhos e voltou a analisar os acontecimentos da viagem.
      Comeou a sentir sono. Para acomodar-se melhor, resolveu escorar o travesseiro na janela e encostar-se nele, ficando com o rosto virado para o corredor. Na 
verdade, sentira-se mais confortvel com o travesseiro na nuca e o queixo abaixado. Entretanto, nessa posio, o cabelo lhe caa sobre o rosto. Do modo como estava 
agora, se por acaso Paul passasse no corredor, fatalmente teria de v-la. S desejava que no comeasse a babar enquanto estivesse dormindo.
      Quando abriu os olhos, a comissria estava lhe estendendo a bandeja do jantar. Abaixou a mesinha de bordo, ajustou o assento e tentou ficar desperta para comer. 
A seguir, passaram um filme, e Selena tentou assistir a ele, mas dormiu de novo. Ficou dormindo e acordando durante vrias horas.
      A certa altura, remexeu-se na cadeira e notou que o sennhor da poltrona do corredor havia sado. Resolveu aproveitar para ir ao banheiro, que ficava ao fundo 
do avio. Ali vrios outros passageiros aguardavam sua vez para usar um dos quatro sanitrios. Selena se ps a esperar tambm, bocejando o tempo todo e correndo 
os olhos ao redor vez por outra.
      Paul se achava na rea de servio, a menos de dois metros dela, pedindo  comissria algo para beber. Mais uma vez Selena ficou paralisada. O rapaz no estava 
olhando em sua direo. Parecia completamente alheio  sua presena. Por que tinha de estar to interessada nele? Paul pegou o copo de bebida da mo da comissria, 
agradeceu e foi andando para voltar ao seu lugar. De repente, virou-se ligeiramente e olhou para trs, na direo de Selena.
      Era a oportunidade que ela estava esperando. E o que fez afinal? Imediatamente ela virou o rosto e se ps a olhar a plaquinha da porta do banheiro, que dizia 
"ocupado".
      Que idiota que sou! Ser que ele me viu? Ser que sabe que estou aqui e virou para ver se o reconheci? Pelo visto, nunca vou ficar sabendo o que se passou 
na cabea dele!
      Resolveu dar uma olhadinha para trs, espiando por entre as mechas do cabelo despenteado. Paul no estava mais ali. Agora recomeavam aquelas tolas indagaes 
de antes. Ser que, ao retornar ao seu lugar, deveria dar a volta pela frente e passar perto dele e olhar para que ele a visse?
      Entrou no pequeno banheiro e deu uma olhada no espelho.
      "A noite dos autmatos voadores", murmurou consigo mesma.
      Seus olhos estavam inchados, e no rosto havia uma marca do travesseiro. Pelo menos no tinha de se preocupar com maquiagem manchada.
      Lembrou-se do comentrio que Stephen havia feito sobre ela e Katie, dias atrs. Ele afirmara que elas eram bonitas. Lindas. Seu pai tambm vivia dizendo-lhe 
o mesmo. No entanto nenhum rapaz "interessante" lhe falara nada parecido. O elogio de Stephen no contava muito, pois no se interessava por ele. Para que uma palavra 
dessas tivesse valor, era preciso que o rapaz fosse do seu interesse.
      "E por que Paul seria?" pensou. "Por que ser que estou pensando tanto nele? Isso j est passando da conta!" Selena saiu do banheiro e voltou ao seu lugar, 
sem dar a volta pela frente, isto , sem passar pela poltrona de Paul. Sentou-se, puxou o cobertor e se cobriu. Em seguida, resolveu orar sobre aquela incmoda obsesso 
com o rapaz. No sabia se era certo ou errado ficar pensando tanto nele. De todo modo, sabia que seria bom orar sobre a questo e entregar tudo a Cristo. Lembrou-se 
do versculo que lera em Salmos, que dizia que temos de confiar no Senhor em todo tempo e abrir o corao para ele.
      E deu certo. Depois que orou, sentiu-se mais tranqila com relao a Paul. Agora s pensava no fato de que da a algumas horas estaria chegando em Portland, 
e tudo seria novidade para ela. Voltou a orar e a conversar com Deus a respeito disso.
      O avio pousou em San Francisco na hora prevista, lembrou que teria de deslocar-se do setor de vos inteenacionais para o domstico, onde pegaria um avio 
menor. Esse vo sairia da a quarenta e dois minutos. Teria que passar na alfndega o mais depressa possvel.
      Felizmente, no fizera muitas compras e indicara no formulrio que no havia nada para declarar. Entrou numa fila que estava caminhando rapidamente. Notou 
que Paul no estava nela. Teve vontade de virar-se e procur-lo, mas resistiu ao impulso. O importante agora era passar pelo posto de desembarque, para que carimbassem 
seu passaporte, e encaminhar-se logo para o outro lado do terminal, onde tomaria um novo avio.
      Conseguiu chegar ao setor e embarcar com alguns minutos de antecedncia. Respirando fundo de cansao e sentindo gotas de suor na testa, Selena se acomodou 
em seu lugar e ficou a olhar pela janelinha.
      - Desculpe, disse uma voz grave junto a ela, voc est no meu lugar.
      Virou-se e deu com os olhos azul-acinzentados de Paul. No rosto dele estampou-se uma expresso de surpresa.
      - Oh!  voc? Como chegou aqui?
      Seu tom era muito sincero, e Selena se convenceu de que ele de fato no sabia que ela viera de Londres no mesmo vo que ele.
      - Vim nadando, replicou com um sorriso, enquanto limpava o suor da testa e afastava o cabelo dos ombros, jogando-o s costas.
      Paul sentou-se na poltrona do meio, perto dela, segurando a mochila no colo.
      - Viemos de Londres no mesmo vo? Indagou.
      Ela teve vontade dar uma resposta irnica, mas disse:
      - , parece que viemos sim.
      - Ah, que no percebi, comentou Paul.
      Ele se levantou para colocar seus pertences no bagageiro.
      - Quer que eu guarde algo aqui para voc? 
      - No, obrigada, disse ela.
      Ainda no conseguia acreditar no que estava acontecendo. Cerca de dezesseis horas antes, desejara tanto sentar-se ao lado de Paul, e depois acabara desistindo. 
Agora estava ali com ele, e tudo acontecera de forma to natural! 
      - No havia percebido que estava no lugar errado, falou, no momento em que ele se abaixava para se sentar. Quer ficar na janela?
      - No, respondeu o rapaz, est bem assim. Voc merece ficar a. Acho que ainda lhe devo algo.
      - No, ajuntou Selena, sou eu quem lhe deve.
      Ela se inclinou e abriu o zper do bolsinho da mochila, de onde retirou um saquinho de papel branco. Tinha conscincia de que o rapaz a observava e, mais uma 
vez, sentiu o perfume de sua loo aps barba. Por alguma razo, aquele cheiro lhe lembrava o Natal em sua cidadezinha. Dessa vez no quis corresponder ao olhar 
dele. Como a situao tomara um rumo muito interessante, resolveu tirar proveito dela. Que ele olhasse, pensou. O que estaria passando pela cabea dele? Ser que 
a achava bonita? Ao pensar isso, Selena teve um ligeiro sentimento de culpa. Que atitude leviana! No sabia nada acerca desse rapaz, a no ser que se chamava Paul, 
que ia para Portland e que era meio cara-de-pau, pois pedira dinheiro emprestado a uma pessoa desconhecida. Contudo era honesto tambm, pois lhe pagara; e com juros.
      Agora era sua vez de lhe pagar com juros.
      - Ainda no tenho troco, disse, estendendo-lhe o saquinho e sorrindo. Aceita um chocolate?  da Finlndia.
      Paul ergueu as sobrancelhas e deu uma espiada para dentro do saquinho j meio amassado.
      - Chocolate? indagou.
      - Pegue, repetiu Selena. Faamos de conta que  o troco dos 20 dlares.
      Paul aceitou o oferecimento e levou a mo ao saquinho. Tirou um cubinho de chocolate e jogou-o na boca.
      - Ah! disse, fechando os olhos. Isso  que  chocolate! De onde  mesmo?
      - Da Finlndia.
      - Voc estava l?
      - No, estava na Inglaterra. Eu fui  Irlanda tambm. Estava participando de um trabalho evangelstico. Uma moa do grupo era da Finlndia e deu um pouco desse 
chocolate para todos os participantes.
      Paul parou de chupar o doce e olhou-a atentamente.
      - Voc no estava em Carnforth Hall, estava?
      - Estava, sim!
      - No acredito!
      Paul recostou-se e fechou os olhos, como se a resposta dela o tivesse deixado chateado. Selena fitou-o, tentando descobrir a razo daquilo.
      - Voc tambm esteve l? indagou ela.
      Paul olhou-a de novo, agora com a expresso normal.
      - Muitas vezes, respondeu. Nem sei quantas. Meu av era o dono do castelo. Comprou-o pouco depois da Segunda Guerra. Antes, ali era um acampamento evanglico. 
Mais ou menos seis anos atrs, ele o cedeu para uma organizao missionria.
      - Puxa! exclamou Selena. Isso  verdade mesmo?
      Paul fez que sim.
      - ; meu av morreu dias atrs. Ele foi sepultado em Edimburgo.
      Selena se lembrou de que o Dr. Benson fora a um enterro naquela cidade.
      - O Dr. Benson foi ao sepultamento dele? indagou.
      - Charles? Foi, e havia mais umas oitocentas pessoas presentes. Meu av era muito querido.
      Paul assumiu um ar contemplativo, mas em seguida abriu um pouco o semblante.
      - Por acaso, l em Carnforth Hall, voc ficou conhecendo um rapaz de San Diego, chamado Douglas?
      - Claro, era o chefe da nossa equipe. Voc o conhece?
      - Ele  amigo de meu irmo. Meu pai  pastor de uma igreja de El Cajon. J ouviu falar?
      Selena abanou a cabea.
      -  muito conhecida?
      -  bem grande. Tem quatro mil membros. O Douglas frequenta nossa igreja. Foi l que ele fez amizade com o Jeremy, meu irmo. Eles tm um grupo de estudo bblico, 
chamado "Amigos de Deus", e se renem na casa do Douglas. As vezes eu gostava de ir l, quando estava no segundo grau. Achava muito legal conviver com aqueles caras 
mais velhos.
      Selena entendia perfeitamente o que ele queria dizer. Tivera a mesma sensao durante todo o perodo do trabalho de evangelizao.
      - Voc conheceu um amigo do Douglas, chamado Ted? indagou ela.
      - Um surfista que toca violo?
      - . Ele agora  o diretor da misso na Espanha.
      - , d pra imaginar isso.
      - O mundo  pequeno, no? comentou Selena.
      - Os crculos da vida so muito pequenos, disse Paul, parecendo estar citando algum escritor. Bom, mas por que voc loi a Carnforth Hall?
      Selena deu de ombros.
      - Creio que foi Deus que me levou, replicou. Um primo meu me falou sobre o trabalho, e resolvi ir.
      Paul desviou os olhos dela. O avio comeava a decolar. Era bem menor e mais barulhento do que o aparelho enorme em que haviam viajado da Inglaterra para os 
Estados Unidos. Assim que estavam no ar, ela retomou a conversa.
      - E posso saber por que voc est indo para Portland? Voc no mora em San Diego?
      - Eu estudo na L e C.
      Selena fitou-o, como quem no entendeu a resposta.
      - Na Faculdade Lewis e Clark, explicou ele, estendendo a mo e pegando mais um pedao de chocolate. Voc no quer mais um pouco?
      A moa pegou um pedacinho e agradeceu. O delicioso chocolate derreteu em sua boca.
      - Sabe de uma coisa? falou o rapaz, abaixando a voz e aproximando-se mais dela. Ainda no sei seu nome.
      - Ah, mas voc sabe o mais importante, replicou Selena com vontade de brincar com ele. Sabe que eu empresto dinheiro para desconhecidos, que no uso maquiagem 
e que sou capaz de dividir com outros meus chocolates carssimos.
      -  verdade,  verdade. Voc tem essas excelentes qualidades. Mas como se chama?
      Era gostoso ficar demorando, brincando com a curiosidade dele, mas ela resolveu responder.
      - Selena.
      Ele fitou-a de um modo diferente, dando a impresso de que gostara do nome. Parecia que sua pergunta era uma prova, e ela dera a resposta correta. Cem por 
cento correta.
Captulo Seis
    
      
      - Selena, principiou Paul, repetindo o nome dela devagar, como se o estivesse saboreando, sua bota  muito legal.
      Ela olhou para o calado j to usado e disse: 
      -  do meu pai.
      - E essa sua presena de esprito? indagou o rapaz.  do seu pai tambm?
      - Pra falar a verdade, , replicou a moa.
      - E voc vai a Portland porque... 
      E aqui ele parou, esperando que ela conclusse a frase.
      - Porque l tenho casa e comida de graa.
      - Sua casa?
      - Na verdade,  de minha av. Acabamos de mudar-nos para l. Minha famlia fez a mudana quando eu estava na Inglaterra.  uma velha casa de estilo vitoriano, 
e a V May no quer vend-la de jeito nenhum. O problema  que ela no consegue mais mant-la nem cuidar dela sozinha. Ento meu pai resolveu mudar de profisso, 
e todos ns vamos morar com vov.
      - . Meu pai tambm seria capaz de uma atitude dessas. Ns morvamos numa casa pequena e sempre tivemos carros velhos. Mas todo ano ele juntava as economias, 
e iam os cinco passar as frias com nossos avs em Carnforth. Aproveite bem o tempo que lhe resta para gozar da companhia de sua av. Isso  um presente do cu.
      - Eu sei, replicou Selena. Eu e ela somos muito amigas.
      Mais uma vez ele a fitou com admirao, como se ela tivesse dado a resposta correta.
      - Muita gente no tem esse tipo de atitude para com os avs nem com outras pessoas idosas, comentou Paul. Eu era mais chegado ao meu av do que a meus outros 
parentes. Era como se tivssemos um s corao.
      - Voc deve estar muito sentido com a morte dele, no ?
      Selena percebeu uma expresso de tristeza no olhar dele e teve vontade de segurar sua mo para consol-lo.
      - Ningum vai ocupar o lugar dele em minha vida. Parece que ficou um vazio enorme no meu peito. s vezes at acho quae escuto o vento assoviando nele.
      A moa sentiu que compreendia esse sentimento potico que brotava do corao de Paul. Seus olhares se encontraram. Durante alguns instantes, nenhum dos dois 
disse nada. O rapaz parecia estar olhando no fundo da alma de Selena, como que retirando foras do silncio que ela mantinha. Selena manteve os olhos nos dele.
      - Vo beber algo? indagou o comissrio de bordo, interrompendo aquele momento de comunho.
      Ambos se viraram para ele e responderam ao mesmo tempo:
      - Um suco de laranja com gelo!
      O homem riu.
      - O. k.! disse. Dois sucos de laranja com gelo! Vocs so irmos?
      Selena e Paul se entreolharam, sem entender a razo da pergunta, e em seguida se viraram para o comissrio.
      - No, replicou a moa. Por que pensou isso?
      - Por causa dos olhos. So iguais, respondeu ele, passando em seguida a servir os passageiros da fileira seguinte.
      - Por que ser que ele pensou isso? indagou Paul, virando-se para olh-la.
      - E eu sei? disse ela, "cruzando" os olhos para que ficassem vesgos, como se estivesse tentando ver a ponta do prprio nariz.
      Paul riu.
      - Ser que somos gmeos e fomos separados quando ramos pequenos?
      - De jeito nenhum, retorquiu Selena. Voc  mais velho que eu.
      - Quantos anos? indagou ele. Eu fiz dezenove em dezembro.
      Selena sorriu e no respondeu.
      - Qu? continuou Paul. Ento sou mais velho uns seis ou nove meses, talvez?
      - Bom, eu fiz aniversrio em 14 de novembro, disse ela.
      - Est brincando! falou ele.  o dia do aniversrio de minha me. Ento voc fez... quantos anos? Dezoito?
      - No.
      - Dezessete?
      - No.
      - Dezesseis? indagou ele devagar e viu a garota acenar que sim. Ento voc tem s dezesseis anos?
      Selena sentiu que ele se afastou dela e, nesse momento, algo mudou entre eles. Aquela comunho emocional que haviam gozado at ento acabou. Ela teve vontade 
de se defender, de dizer que no havia nenhum problema com o fato de ter dezesseis anos, e que ela era madura para sua idade. Entretanto ele se afastara; distanciara-se 
dela emocionalmente, interrompendo a comunho. Tomaram o suco em silncio.
      - Seu namorado ir busc-la no aeroporto? indagou Paul de repente?
      - Meu namorado?
      - Ouvi voc conversando com algum no telefone em Londres, dizendo que estava com saudades.
      - Esse "algum" era meu pai, explicou ela.
      - Ah, disse Paul, olhando para o copo de suco, minha morada vai me pegar.
      - Pena que ela no tenha podido ir ao enterro de seu av. Teria sido bom para voc se ela estivesse do seu lado.
      Interiormente sentia-se magoada. Por que Paul mencionara a namorada? Por outro lado, disse para si mesma, poderia tar uma atitude madura com relao  questo. 
Era s ficar fazendo uma poro de perguntas.
      - Na verdade, acho que no teria sido bom que ela fosse, comentou o rapaz.
      - Por qu?
      - Bom, replicou ele, remexendo os cubos de gelo no copo quase vazio, Jalene ... um pouco diferente.
      - Voc quer dizer que ela no  crente?
      Paul olhou-a, admirado pela sua capacidade de percepo.
      - Eu no disse isso.
      - Nem era preciso, replicou Selena.
      Caiu um silncio pesado entre eles. Selena estava intriga. Por que um jovem como Paul, criado numa famlia evanglica com tanto potencial para o servio cristo, 
iria apaixonar-se por uma garota no-crente? Teve vontade de dizer-lhe o que pensava e, em seguida, ocorreu-lhe que no teria nada a perder, se dissesse. Estava 
claro que Paul no tinha o mnimo interesse por ela, no s porque Selena tinha dezesseis anos, mas tambm porque ele j tinha namorada. Resolveu jogar pesado.
      - Por que voc est namorando essa moa? No est vendo que um relacionamento desigual assim pode lhe trazer problemas? No percebe que esse namoro, que no 
 o melhor que Deus tem para voc,  uma arapuca?
      Paul ficou furioso.
      - E quem  voc para me dizer o que devo fazer de minha vida?  alguma profetisa? Voc no sabe nada a meu respeito nem quem  a melhor namorada para mim.
      - E Jalene sabe? indagou.
      Selena reconhecia que no estava usando de muito tato. Alis, isso nunca fora uma de suas qualidades. Paul ficou ainda mais irritado.
      - E o que voc tem a ver com isso? Quem pensa que , afinal?
      Ele virou o rosto para outro lado, como se o mero fato de olhar para Selena o aborrecesse. Abanando a cabea, inclinou-se e pegou uma revista no bolso do encosto 
da poltrona da frente. A seguir, ergueu o brao e acendeu a luzinha no alto. Obviamente no queria mais conversar com ela.
      A moa ento decidiu fazer o mesmo. Girou a cabea para afastar-se, fingindo que a atitude dele no a incomodava nem um pouco. Contudo uma mecha de seu cabelo 
ficou embaraada na pulseira do relgio dele.
      - Ai! exclamou Selena, puxando para se soltar.
      Contudo o movimento s serviu para que ficasse ainda mais presa.
      - Fique quieta! falou Paul, rspido. Est piorando o problema. Fique bem quieta!
      Selena no o olhava diretamente, mas percebeu que o rapaz estava puxando fio por fio para solt-lo do relgio.
      - Puxa, voc embaraou bem aqui, hein? falou ele, com um pouco menos de irritao na voz. Est quase solto.
      - Pode arrancar tudo, disse Selena. No me importo.
      - Fique calma, est bom? 'Genta firme a. Pronto. Soltou. E nem atrapalhou nada!
      Selena passou a mo no cabelo para ajeit-lo, mas no olhou para ele.
      - Obrigado pelo presente! disse Paul.
      Ela virou-se ligeiramente, para ver o que o rapaz quis dizer com aquilo. Ele ainda estava retirando fios da pulseira.
      - Quando agarra assim, falou ele, no adianta arrancar com fora.
      Parecia Wesley, seu irmo mais velho, quando entrava numa de lhe dar conselhos.
      - Ah, est bom! exclamou Selena, com expresso de raiva. E quem  voc pra me falar que no posso arrancar com fora? No agenta nem conversar sobre sua namorada. 
D logo jeito de fugir!
      Paul teve uma reao que ela no esperava - comeou a rir. Soltou uma gargalhada alegre, profunda, que parecia vir direto do corao.
      - Qual  a graa? indagou Selena, caindo na defensiva. Voc sabe que estou com a razo!
      - Quem  voc, afinal? perguntou Paul, ainda rindo. Meu anjo da guarda ou algo assim?
      - No sou nenhum anjo!
      - Ento  uma dessas jovens guerreiras espirituais, que foi enviada para me conduzir de volta ao caminho certo.
      Selena se lembrou do pensamento que lhe ocorrera no momento em que conhecera Paul. Lute por esse rapaz. Talvez houvesse mesmo uma batalha espiritual na vida 
dele, e o Esprito Santo a estivesse chamando para entrar nessa luta em favor dele. Ela j ouvira falar de pessoas que haviam sentido um forte impulso de orar por 
algum sem saber por qu. Mais tarde tinham descoberto que Deus as usara em orao para operar mudanas na vida daquele por quem haviam orado.
      - Talvez, replicou ela calmamente.
      Aquele encontro casual com esse desconhecido realmente fora muito estranho.
      - Lembre-se, continuou ela, de que foi voc quem me pediu dinheiro para telefonar. Eu no fui atrs de voc, como est tentando insinuar.
      Paul fitou-a, examinando-a atentamente, mas aquilo no a aborreceu. Podia olhar para ela o quanto quisesse. No tinha nada a esconder. O que seria que ele 
estava querendo ver nela?
      - Selena, disse o rapaz, voc  uma jovem excepcional. Tenho pena do homem que se apaixonar por voc.
      - E eu tenho pena da moa que se apaixonar por voc, se continuar fugindo de Deus. O profeta Jonas tentou fugir, lembra? Se no quiser acabar no ventre de 
uma baleia, acho bom acertar sua vida.
      - Pexa! exclamou ele, correndo os dedos pelo cabelo castanho e ondulado. Voc no desiste, no ?
      Selena sentiu que devia parar por a, como se um sinal de alarme soasse em seu interior. Percebia, de repente, que estava por demais exaltada.
      - Desculpe! falou, baixando os olhos e sentindo-se acalmar. s vezes fico meio exaltada. Peo que me perdoe, se falei algo que no devia.
      Paul olhou-a, erguendo uma sobrancelha.
      - Primeiro, voc fala de forma extremamente direta. Depois vira um cordeirinho inocente. Usa essa ttica muito bem. Deve ter sangue escocs, comentou ele, 
com um sorriso. Acho que acabar se tornando uma pessoa muito espiritual. Mas neste momento isso no combina muito com voc.
      Selena ficou chateada, ao perceber que ele a estava humilhando, embora dissesse palavras to doces, e que sua conversa sria no adiantara nada. Ela se rebaixara, 
pedindo desculpas, mas isso no valera de nada. Resolveu desligar-se dele. Pegou o pacotinho de amendoins que o comissrio distribura e ps-se a mastigar demoradamente 
um por um, para manter a boca fechada. J se metera em muita encrenca por falar demais. Quando  que iria aprender a ficar calada? Por que no tinha conversado com 
ele sobre temas mais normais, como o tempo por exemplo? Por que tinha sempre que dizer o que pensava e levar tudo muito a srio, mesmo com pessoas desconhecidas?
      Mas era exatamente isso que mais a incomodava - Paul no parecia ser um mero desconhecido. Havia algo que os ligava. Ele prprio reconhecia o fato. Existia 
um elo entre eles; e era muito forte.
      O avio pousou em Portland na hora prevista. Os dois jovens haviam passado os ltimos dez minutos conversando sobre caminhadas ecolgicas. Ele lhe recomendara 
vrios locais de que gostava. Fora uma conversa calma e amistosa, como um papo de dois estranhos num avio. Por fim ela lhe deu condolncias pela morte do seu av, 
e ele agradeceu educadamente.
      Ao desembarcarem, ele foi caminhando ao lado de Selena, como se os dois estivessem viajando juntos. No disse nada. Limitou-se a andar com ela.
      Assim que alcanaram o terminal, Selena correu os olhos pelas pessoas que estavam ali esperando os passageiros, na tentativa de descobrir quem era Jalene, 
antes que Paul fosse em direo a ela. Identificou-a imediatamente. Era uma jovem de cabelo bem preto, cortado curtinho. Usava uma saia longa e botas pretas. Parecia 
uma pessoal normal. Era engraadinha e tinha um ar alegre, mas trazia nos lbios um sorriso meio gaiato. Paul hesitou por um instante, mas logo em seguida caminhou 
para a jovem que abriu os braos para receb-lo.
      Selena continuou caminhando com os outros passageiros. Dirigia-se para o setor de recolhimento da bagagem onde se encontraria com os pais. Obedecendo a um 
impulso, virou-se ligeiramente para trs, para olhar Paul mais uma vez. Achava que iria v-lo beijando Jalene. Contudo, pelo que percebeu, era ela quem o estava 
beijando.
      Selena subiu pela escada rolante, procurando tirar Paul do pensamento. Ela prpria j teria muito com o que se preocupar. Nas semanas seguintes, precisaria 
adaptar-se a uma nova casa e escola.
      Nem mesmo sei o sobrenome dele. E no h muita probabilidade de que volte a v-lo. Foi apenas um estranho encontro com um desconhecido. E como sempre, falei 
demais. Acabou. Pronto.
      Assim que saltou da escada rolante, avistou o pai. Ele estava com um sorriso tpico, formando ruguinhas ao lado dos olhos, que ele costumava dar quando tinha 
vontade de chorar. A me estava ao lado dele. Selena achou que ela parecia ter emagrecido um pouco. Era uma mulher de ar jovem, que fazia Cooper regularmente. Arrumara 
o cabelo louro num pequeno coque e usava uma cala preta e uma suter vermelha, bem grande, que Selena lhe dera de presente de Natal.
      Correu ao encontro deles. Primeiro foi o pai quem a abraou e lhe deu um grande beijo. Em seguida foi a me, cujas lgrimas molharam o rosto da jovem.
      - Que bom v-la de volta, filha! exclamou o pai.
      Ele tambm tinha uma aparncia jovem, a no ser no alto da testa, onde o cabelo ia rareando. E no ponto onde o cabelo castanho dele se tornara mais ralo, formavam-se 
rugas de preocupao.
      -  to estranho pensar que agora moramos em Portland, comentou Selena.
      Deu o brao  me e foram caminhando em direo  esteira rolante, onde os outros passageiros se aglomeravam para pegar a bagagem.
      - Mas acho que voc vai gostar, disse mame. A V May j melhorou muito depois que chegamos.
      - J est tudo ajeitado? perguntou Selena.
      - Quase tudo. Ainda tem uma poro de caixas no poro, com meus bibels, livros e alguns outros objetos. No h lugar para eles. Eu e V May precisamos dar 
uma arrumada nas coisas e separar algumas. Faz quatro dias que ela pergunta constantemente quando voc vai chegar. Ainda h momentos em que ela confunde as pocas. 
Parece que os dias e os anos se misturaram na mente dela, e s vezes no sabe direito onde est. No se espante se ela no a reconhecer assim que a vir e no souber 
bem quem voc .
      - Ah, no! interveio Selena em tom confiante. Ela vai me reconhecer, sim. Que bom que ela j melhorou.
      Nesse momento soou uma sineta estridente e a esteira rolante entrou em movimento. Selena adiantou-se, misturando-se aos outros passageiros, e inclinou-se, 
procurando ver se sua mala estava nela. Avistou-a em seguida e j ia estender a mo para peg-la quando algum passou  sua frente e a agarrarrou.
      - Essa mala  minha, falou ela.
      - No;  minha, respondeu o rapaz.
      Selena virou-se para ele. Era Paul.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Sete
    
      
      - Ah, no! exclamou Paul. No d pra acreditar! Sua mala deve ser parecida com a minha, mas esta  a minha!
      - No. Sinto muito, mas esta  a minha. Olhe a etiqueta de identificao.
      Ele olhou. Era dela.
      - Desculpe, falou o rapaz. Eu me enganei.
      Recolocou a mala no cho, no meio dos passageiros aglomerados juntos  esteira rolante.
      - T bom, procure no se enganar mais, replicou ela, olhando direto para Jalene, que se achava atrs do rapaz, a esper-lo.
      Um sorriso estampou-se no rosto de Paul. Empurrou o chapu para trs, e ele ficou cado s suas costas, preso pelo cordo que passava pelo pescoo dele.
      - Espero nunca mais v-la, disse ele. Est complicando demais a minha vida.
      Selena pensou numas quatro respostas duras que poderia dar-lhe, mas refreou a lngua. No sabia bem por qu. Talvez porque os comentrios fortes que fizera 
no avio no haviam adiantado de nada. Ou talvez porque seus pais estavam ali, a alguns passos deles, e Jalene tambm os observava.
      Selena no disse nada, mas ficou firme, fitando-o direto nos olhos, da maneira como ele prprio j a olhara algumas vezes. Paul retribuiu o olhar. Ficaram 
assim uns trinta segundos, mas pareceu uma eternidade. Selena foi a primeira a piscar.
      - Passe bem! falou ela e saiu andando.
      - Ei! gritou Paul.
      Ela fez de conta que no o ouviu e continuou em frente.
      - Esqueceu sua mala!
      Ela virou-se. O rapaz estava a um passo, com a mala dela na mo. Ele entregou-lhe a valise, que alis estava bem pesada, e sem fit-la disse em voz baixa:
      - No mude nunca, Selena!
      Dando um rpido olhar para a jovem, ele sorriu e depois virou-se, voltando a misturar-se ao povo. Para ela, isso fora a trgua final. Um simples observador 
que estivesse ali veria apenas um desconhecido ajudando uma jovem a pegar sua bagagem
      Contudo o pai de Selena no era um simples observador. Assim que chegaram em casa, ela recebeu os abraos e a acolhida dos dois irmos mais novos. Em seguida, 
o pai chamou-a para sentar-se um pouco na varanda com ele. A V May j fora dormir, aparentemente esquecida de que a neta voltaria nesse dia. Tnia, sua irm, ainda 
no retornara do shopping center onde trabalhava.
      Selena fez uma xcara de ch de hortel bem quente, pegou uma manta grossa e encaminhou-se para a varanda. A velha porta de telinha rangeu como sempre rangera 
desde que ela era pequenina e passava as frias de vero ali.
      S que agora era inverno, e a ampla varanda estava bem fria. O pai j a esperava no pequeno balano de dois lugares. Ela assentou-se junto dele, segurando 
a xcara, e jogou a manta sobre as pernas.
      - Ns todos sentimos muito a sua falta, principiou ele. Estou to contente de v-la de volta!
      Selena viu o ar saindo da boca dele em forma de fumaa.
      - Quer um pouco do meu ch? indagou, oferecendo a bebida do pai.
      Ele tomou um golinho e fez uma careta.
      - Que  isso? perguntou. 
      - Hortel.
      - Acho que vou ficar com meu caf mesmo.
      Ele gostava de caf forte e bem escuro, uma tradio dos dinamarqueses, mas que Selena no adotara. S conseguira tomar caf poucas vezes e, assim mesmo, porque 
colocara muito acar e leite. E o leite vegetal com sabor artificial melhorava ainda mais o caf. Na verdade, Selena preferia mesmo era os chs de ervas.
      - Como  o nome dele?
      - De quem?
      - Daquele "Indiana Jones" com o chapelo, que no tirava os olhos de voc, explicou ele, passando o brao pelo encosto do balano.
      Era um gesto convidativo para que ela se achegasse a ele e lhe abrisse o corao. A moa sabia que no adiantava ficar com rodeios. Harold Jensen conhecia 
bem seus seis filhos. Ento Selena relatou-lhe seu inusitado encontro com Paul. Falou inclusive do pensamento que lhe ocorrera com relao a lutar por ele.
      Quando ela terminou, o pai coou o queixo e relaxou as rugas de preocupao da testa.
      - Ento  o que voc deve fazer, comentou ele.
      - Eu nem sei o sobrenome dele, falou Selena.
      - Mas Deus sabe! Voc s tem de orar por ele. Eu vou orar tambm. Todos os dias. Agora conte o resto da viagem.
      - Por onde comeo? Foi a experincia mais maravilhosa de minha vida! Foi muito bom ter ido.
      A jovem colocou a xcara no cho e enfiou as mos frias de baixo da manta. Em seguida, ps-se a dar um relato pormenorizado da viagem. Nesse instante, a me 
chegou com um longo robe e um chinelo felpudo. Sentou-se numa cadeira de vime em frente do balano e se encolheu bem nela. O pai de Selena usava apenas uma suter 
e a cala. Contudo no parecia estar sentindo frio. Ele gostava demais desse tipo de clima. Talvez fosse por causa de seu sangue escandinavo.
      - timo, disse a me, tomando um gole do caf. Eu queria ouvir tudo. Mandei os garotos irem deitar e disse para eles que a deixassem dormir at mais tarde 
amanh, mesmo que ficasse o dia inteiro na cama.
      - Obrigada, me, falou Selena. E  provvel que eu durma o dia todo mesmo. Acho que meu organismo nem sabe se agora  noite ou dia.
      Foi ento que um carro novinho em folha parou  porta da casa. Era Tnia, a irm de Selena. A jovem saltou do veculo, apertou um boto que desencadeou um 
som meldico e trancou o carro automaticamente.
      - Tnia comprou um carro novo? indagou Selena.
      - Na semana passada, respondeu a me. No  lindo?
      Com a elegncia de uma modelo e passos majestosos, Tnia subiu a escadinha da varanda. Um aroma doce encheu o ar. A jovem trabalhava como balconista na seo 
de perfumes da loja Nordstrom, e o cheiro deles se apegava a ela.
      - Oh, voc chegou! disse ela, ao ver Selena. Foi bom por l?
      Selena levantou-se para abra-la, j que a irm no parecia muito interessada em aproximar-se dela.
      - Foi sensacional! respondeu. Voc deveria ir na prxima vez.
      Na verdade, Selena no conseguia imaginar a irm viajando para lugar algum se no lhe garantissem que poderia tomar um banho quente de chuveiro toda manh 
e que no lugar haveria uma tomada para ligar seu modelador de cabelo.
      - Gostei do seu carro novo! exclamou Selena.
      - Obrigada, replicou Tnia, retribuindo o abrao.
      Tnia era assim. Nunca tomava a iniciativa de gestos afetivos, mas retribua sinceramente os de Selena. Era uma bela jovem e parecia ser um pouco mais velha 
do que era de fato. Sua beleza era realada pela maquiagem que aplicava com muito bom gosto, pelo cabelo louro e pelas lentes de contato azuis que usava. Tivera 
aparelho nos dentes durante trs anos e, desde os dez, tinha aulas de canto. Em muitos aspectos, ela e Selena eram bem diferentes. S combinavam porque eram irms. 
Se no o fossem, provelmente nunca seriam amigas.
      - Estou to dura que voc nem imagina, disse Tnia. Esse emprego na Nordstrom veio na hora certa. Por enquanto estou trabalhando s quatro horas por dia, mas 
no incio de maro devo comear a ir em tempo integral.
      - Que bom! exclamou Selena. Quer ir pegar um cobertor e o vir sentar com a gente aqui?
      - Se voc no se importa, replicou ela, vou me deitar. Estou muito cansada. Amanh voc me conta da viagem. J viu nosso quarto? Pelo menos  um pouco maior 
que o de Pineville.
      - Os meninos me mostraram assim que cheguei. Minha cama  a que fica perto da janela, n?
      - Voc acha ruim? indagou Tnia.
      Selena sabia que, como Tnia j estava com tudo ajeitado no quarto, no adiantaria nada achar ruim ou no.
      - No, respondeu. Est bom. O quarto  grande. S estou achando estranho chegar em casa e encontrar tudo diferente, todos j acomodados, menos eu.
      - Bom, seja bem-vinda! falou Tnia, caminhando para a porta. Vou me deitar.
      - Boa noite, querida! disse o pai.
      - Durma bem! falou a me.
      E Selena comentou:
      - Vou tentar entrar bem em silncio quando for deitar.
      Tnia entrou em casa, e mais uma vez Selena teve um pensamento que j lhe ocorrera centenas, talvez milhares de vezes: ela gostaria de descobrir um meio de 
mudar o jeito de irm. Parecia que Tnia carregava um grande peso nos ombros por ser filha adotiva. Obviamente todos a amavam. O pai e a me a tratavam da mesma 
forma que aos outros. Selena a considerava sua irm, sua verdadeira irm. Contudo, alguns anos antes, Tnia assumira o rtulo de adotiva e passara a ter uma atitude 
de distanciamento para com os familiares.
      - Ainda nem perguntei o que esto achando daqui, falou Selena encolhendo-se mais debaixo da manta.
      -  nossa casa, replicou o pai.
      - Claro que para o senhor  mesmo, pai. O senhor morou aqui quando era criana. Mas e a senhora, me? E os meninos?
      - Pra falar a verdade, replicou a me, est melhor do que eu esperava. H dias em que a V May est tima. Mas h outros em que fica meio esquecida e nem sabe 
quem somos. Hoje de manh mesmo ela perguntou ao Harold se ele tinha vindo para consertar o encanamento.
      - Deve ser terrvel para o senhor, no , pai, ver que a prpria me no o reconhece, comentou Selena.
      - No  culpa dela, respondeu ele. Eu disse que era o bombeiro, sim, que era o melhor de Portland, e indaguei qual era o cano que estava com problema. Ela 
me levou l no tanque do poro e disse que ele estava entupido porque cara um ioi dentro do cano.
      - E isso aconteceu mesmo, explicou mame. Quando seu pai era menino, ele jogou um ioi naquele tanque, e eles tiveram de chamar um bombeiro para retir-lo, 
seno ia entupir o encanamento todo. O servio saiu muito caro, e V May ficou relembrando o problema e falando dele durante muito tempo.
      - Ah, ento quer dizer que agora ela est lembrando fatos que aconteceram no passado e revivendo tudo como se estivesse acontecendo hoje? indagou Selena.
      -  mais ou menos isso, disse o pai.
      - Vou ficar muito chateada de v-la assim, com essas falhas de memria, comentou Selena. No ano passado ela estava to bem! O que aconteceu? Ser que no h 
um tratamento ou um remdio que ela possa tomar para resolver isso?
      A me abanou a cabea.
      - A nica coisa que podemos fazer  ficar de olho nela, disse. E quando ela tiver essas crises, o melhor  concordar. Ela fica muito irritada quando tentamos 
dizer quem somos e queremos for-la a situar-se no presente.
      Selena e seus pais ficaram conversando mais uma hora. Afinal a noite esfriou mais, e a moa estava com tanto sono que nem conseguia mais falar direito. Abraou 
os pais e subiu a escada que dava para o segundo andar, dirigindo-se ao seu quarto.
      Tnia deixara acesa a pequenina luz do abajur na mesa de cabeceira que ficava entre as duas camas. Ela lanava um leve claro amarelado na parede forrada de 
um papel cor-de-rosa e nas persianas brancas da janela. Esse quarto fora de Tia Emma, a irm mais nova de seu pai. Anos atrs, quando ela sara de casa, a famlia 
passara a usar o cmodo como uma espcie de quarto de despejo, pois era bem amplo. Selena ainda se lembrava de que sempre que vinha passar as frias ali, ia l procurar 
objetos antigos. Era quase como se fosse um sto. Agora haviam tirado as velharias da famlia e arrumado nele os mveis de Tnia e Selena, e ele se tornara um maravilhoso 
quarto.
      Selena percebeu que perto da janela estava bem frio. Abaixou a folha que reforava a vidraa e protegia o quarto da aragem noturna. Seus ps estavam gelados. 
Seria gostoso entrar debaixo do cobertor de flanela.
      Antes de se deitar, porm, achou que deveria fazer algo para "batizar" seu novo quarto. Tinha de fazer em silncio para no incomodar a irm. Resolveu orar. 
Ajoelhou-se ao lado da cama, de costas para a janela fria, cruzou as mos e fechou os olhos. Orou em silncio, suplicando a Deus em favor da av, de seus familiares, 
de si mesma e dos amigos que conhecera em Carnforth Hall. Por fim, orou por Paul.
      Assim que abriu os olhos, quase soltou um grito, mas reprimiu-o a tempo. Havia algum sentado em sua cama. Era uma figura vestida com uma camisola branca e 
em cuja cabea havia um halo de luz. Selena sentiu o corao bater fortemente. A figura se ergueu e puxou as cobertas para que ela se deitasse. Afastando-se da luz, 
disse para Selena:
      - Voc orou por Paul, Emma?
      - V May! sussurrou.
      A av ficou parada, de p, com sua camisola de flanela, esperando que Selena se acomodasse. A moa se lembrou do que sua me dissera, que deviam agir de acordo 
com o que a v dizia. Ento, obedientemente, enfiou-se na cama.
      Por que ser que ela perguntou se orei pelo Paul? Ser que ela o conhece? Por que ela est me confundindo com tia Emma? Ser que  porque estou no quarto que 
era dela?
      V May tinha no rosto um sorriso tranqilo. Ajeitou as cobertas ao redor de Selena e em seguida beijou-lhe ambas as faces, como se ela fosse uma garotinha 
que acabara de fazer suas oraes.
      - Agora repita comigo, Emma: "O Senhor, teu Deus, est no meio de ti, poderoso para salvar-te".
      Selena hesitou.
      - Diga, Emma: "O Senhor, teu Deus..."
      - "O Senhor, teu Deus, est no meio de ti, poderoso para salvar-te", falou Selena em voz baixa, o corao ainda batendo forte.
      "Ele se deleitar em ti com alegria; renovar-te- no seu amor", continuou V May com ternura.
      Selena repetiu o que ela dissera.
      - "Regozijar-se- em ti com jbilo".
      Selena recitou o outro trecho do versculo.
      - "Regozijar-se- em ti com jbilo".
      - Amm, concluiu V May.
      - Amm, repetiu Selena.
      Em seguida, com movimentos silenciosos, do mesmo jeito como entrara, V May foi saindo, descala, e fechou a porta.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Oito
    
      
      - No me diga que isso  normal, me, disse Selena em voz abafada na manh seguinte.
      - Para ela, agora  normal, e todos ns precisamos ter muita compreenso, replicou a me. Foi o que combinamos quando viemos para c.
      A me desligou o fogo da chaleira que estava com gua fervendo, e o boto da trempe saiu em sua mo. Ela mostrou-o para a filha.
      - Essa  a outra razo, falou. Esta casa est caindo aos pedaos.  perigoso para ela ficar aqui sozinha.
      - Mas ser que no  perigoso para ns ficarmos aqui com ela?
      - Claro que no. Ela est tendo crises de perda de memria,  s isso. Voc agiu certo, deixando que pensasse que voc era Emma e a ajeitasse na cama. Provavelmente 
isso  uma recordao agradvel para ela.
      - E por que ela perguntou se orei por Paul?
      - Ela estava se referindo ao seu tio Paul. Esqueceu que seu pai tinha um irmo que morreu na guerra do Vietn?
      - Eu nem lembrava mais dele, replicou Selena, pegando uma tigela com um pouco de mingau de aveia. Isso tudo me d medo. Fiquei com a impresso de que tinha 
de dormir com um olho aberto, para o caso de ela voltar ao quarto no meio da noite.
      - Procure imaginar como isso deve estar sendo horrvel para ela, disse mame. E trate-a com dignidade.
      - Vou tentar.
      Selena misturou um pouco mais de leite no mingau, remexendo-o bem. Nesse instante, V May entrou na cozinha.
      - Olha s quem chegou! exclamou ela.
      Selena no sabia se ela estava referindo-se a ela mesma, a Emma ou a outra pessoa.
      - Bom dia! replicou a moa.
      Com movimentos lentos, afastou-se da mesa e levantou-se, esperando para ver quem a av pensava que ela era naquele momento.
      - No vem me dar um abrao, queridinha?
      Ouvindo-a cham-la de "queridinha", compreendeu que V May a reconhecera. Ela dera a cada um dos netos um apelido carinhoso. Aquele era o de Selena. Ento 
foi com um suspiro de alvio que se encaminhou para os braos da av e lhe deu um beijo no rosto. V May estava cheirando a sabonete, toda limpinha e arrumada.
      - Continue tomando seu caf, disse ela.
      A av foi at o armrio de loua e pegou uma xcara de porcelana. Em seguida, serviu-se do caf forte que estava na cafeteira eltrica. Ela sempre usava uma 
xcara de porcelana, at mesmo para beber a gua com que tomava o remdio. No era preciso nem pensar que um dia ela iria utilizar um vasilhame de plstico. Muito 
menos de isopor. Era sempre porcelana, e pronto! Selena se lembrava de que quando era pequena, e a famlia ia fazer piquenique, alm dos copos descartveis, tinham 
de levar a xcara de porcelana da vov.
      - Quero que me conte tudo da viagem, queridinha, disse a av. Ontem  noite eu estava com muito sono e no conseui ficar acordada para receb-la. Espero que 
voc no tenha ficado chateada.
      - Claro que no v, replicou Selena. A viagem foi maravilhosa. Adorei a Irlanda e arranjei uma poro de amigos.
      Durante alguns minutos, Selena ficou a falar sobre sua viagem. A av se sentou no banco almofadado, que havia junto  parede da cozinha, e se ps a ouvi-la 
com grande interesse. A jovem nem conseguia acreditar que se tratava da mesma pessoa que na noite anterior surgira em seu quarto, mais parecendo um anjo.
      Nos trs dias que se seguiram, V May se mostrou normal animada, com uma mente lcida e trabalhou bastante. As duas conversaram muito, rindo por causa de qualquer 
tolice. Ajudaram a me a tirar os objetos das estantes de uma pequena saleta que havia no andar de baixo da casa. Eram fotos e suvenires que pertenciam  av, e 
agora elas iriam colocar no quarto dela. O pai de Selena instalara nele algumas estantes. A av parecia muito satisfeita de transferir seus objetos pessoais para 
seu prprio quarto.
      Selena estava impressionada de ver como a av se dispusera a deixar sua famlia morar com ela, naquela casa to tradicional, onde vivera 42 dos seus 68 anos 
de vida. Era muito legal de sua parte deixar que sua nora viesse e mudasse tudo. Mame at comprara mveis novos para a sala de visitas, entre os quais um grande 
sof-cama. Haviam levado o pequeno aparelho de televiso da vov para o quarto dela. Ele s tinha antena interna, e a imagem estava melhor no quarto do que na sala.
      Agora o canto da televiso estava vazio, e a sala parecia meio estranha, com todos aqueles mveis diferentes. O pai estava remodelando um barraco que havia 
nos fundos da casa. Ele montara ali sua banca de trabalho e estava transformando o cmodo em um quarto de brinquedos de estilo antigo. Contudo o que estava fazendo 
ali no tinha nada de brincadeira, pois colocara vrios ganchos na parede e pendurara neles suas ferramentas. Dilton e Kevin, os irmos de Selena, adoravam ir para 
l, com machados e serras, e tambm fazer suas "obras-primas". A V May chamava o barraco de "clubinho dos meninos".
      Ento, na vspera do dia em que as aulas iriam comear, V May teve outra crise de memria na hora do jantar. Estavam todos sentados  bela mesa de mogno da 
sala de jantar quando, de repente, ela se virou para Kevin e disse:
      - Rapazinho, voc no pode sair da mesa enquanto no comer a verdura toda.
      Em seguida, ela se levantou e foi para a cozinha, com seu prato de comida ainda cheio. Kevin, de seis anos, o rostinho coberto de sardas, olhou para a me 
com ar meio aflito:
      - Ns nem estamos comendo verdura, disse ele.
      - Eu sei, meu bem, replicou a me. Ela est um pouco confusa. Deixa pra l.
      Alguns instantes depois, V May retornou. Usando uma luva de pegar panelas, segurava com uma das mos uma assadeira com torta de ma e, com a outra, uma faca.
      - Olhe, gente, eu disse para o Ted que iramos guardar um pedao desta torta para ele, falou sorrindo. Crianas, cuidado para no comer demais.
      Ela colocou a torta na mesa.
      - Acho que vou cortar para vocs, para ficar tudo igual. S temos esta torta, portanto ela tem de dar para todos.
      Ela tentou enfiar a faca no meio da sobremesa, mas no conseguiu.
      - Ah, que coisa! exclamou. Peguei a faca errada!
      V May voltou  cozinha.
      - Est congelada, falou Selena.
      - Eu sei, replicou a me. Deixei-a na mesinha para descongelar. Ia coloc-la no forno para aquecer. 
      - Oh me, interveio Dilton, ser que no  perigoso ela ficar andando assim com facas?
      O garoto tinha oito anos e se parecia muito com o pai, s que com mais cabelo. Era um menino srio, com ar responsvel. Parecia achar que sua misso na vida 
era proteger Kevin, seu irmo mais novo. O pequeno era muito afoito, e Dilton achava que ele s chegaria com vida  idade adulta se estivesse sob sua proteo. Alguns 
anos antes, ele vira o irmo brincando de guerreiro Ninja com uma faca de cozinha. Ao tentar tom-la do pequeno, tivera um corte na palma da mo. Sua preocupao 
com V May era sincera.
      - Vamos ficar de olho nela, replicou a me, virando-se para o marido em busca de apoio.
      - Vou ver o que ela est fazendo, disse ele.
      Ele se dirigiu para a cozinha e, por alguns instantes, ningum ouviu nada. Todos comiam, atentos, aguardando o desfecho. Afinal papai voltou, acompanhado de 
V May.
      - Foi um timo jantar, dizia ele.
      - As crianas deixaram torta para voc?
      - Deixaram, deixaram. Agora a senhora pode subir para dormir. Vou mandar as crianas lavarem as vasilhas para a senhora.
      - Voc no se importa? Tem certeza? indagou V May, encaminhando-se para o corredor onde ficava a escada.
      - No, de jeito nenhum. Pode ir dormir, assegurou papai.
      V May foi arrastando os ps devagarinho corredor abaixo, e papai voltou para a mesa. Parecia preocupado.
      - Ser que est tudo bem com ela? perguntou Dilton.
      Papai acenou que sim e enfiou o garfo no seu pur de batatas, que a essa altura j estava frio.
      - Ela estava passando to bem nos ltimos dias. Achei que no iria mudar assim to de repente...
      - Que foi que aconteceu? perguntou Kevin.
      - Ela achou que ramos os filhos dela e que ela estava servindo o jantar como sempre fez. Agora foi se deitar. Est tudo bem.
      Selena viu a me dar uma olhada significativa para o marido, como se tivesse perguntando:
      "Como  que voc pode ter certeza disso?"
      Quando Selena foi se deitar, ficou um bom tempo pensando na codio da av. Seu organismo ainda no se adaptara ao fuso horrio, e estava trocando o dia pela 
noite. Sentia-se ansiosa em relao  nova escola onde iria estudar. As aulas se iniciariam no dia seguinte. Agora havia tambm essa tenso relacionada com a av. 
Ela no era assim to idosa. Tinha 68 anos e ainda estava forte e com sade. Parecia uma injustia, uma crueldade, a av estar com a mente abalada e, ao mesmo tempo, 
com condies de viver ainda muitos anos.
      Ted, o av de Selena, falecera quando ela era criana. Tinha a vaga lembrana do enterro dele e no sabia de qu ele morrera. Durante mais de trinta anos, 
ele trabalhara como construtor, profisso que herdara do pai dele. Alis, fora o bisav de Selena quem, em 1915, construra a casa em que agora moravam. Essa era 
uma das razes por que V May no queria vend-la. Ademais, Selena sabia que o pai nunca iria internar a me numa casa de repouso para idosos. Ento, agora, aqui 
estavam eles, procurando adaptar-se a uma nova cidade, ao lado de uma av que ia pouco a pouco perdendo a lucidez.
      Tnia entrou no quarto. Selena ainda estava imersa em seus pensamentos. Um perfume doce e bem peculiar encheu o ambiente.
      - Ainda estou acordada, Tnia, disse ela. No precisa fazei silncio.
      - Posso acender a luz? indagou a outra, j acendendo-a.
      Selena puxou a coberta para tapar os olhos.
      - Como foi o trabalho hoje? indagou.
      - Bem, replicou a irm.
      - A V May piorou hoje outra vez. Achou que todos ns ramos filhos dela.
      - Voc precisava ter visto no dia em que chegamos, comentou Tnia. Ela pensou que ramos pedreiros e que tnhamos vindo para consertar a casa. Eu queria que 
houvesse um tratamento para isso.
      - , eu tambm. A gente fica tensa s de pensar que vai envelhecer e pode acabar ficando como ela, no ?
      - Sei l, falou Tnia, tirando os sapatos e sentando-se na beirada da cama. Provavelmente essa doena  hereditria. Voc tem os genes dela; eu no. Pelo menos, 
voc j sabe o que pode lhe acontecer quando envelhecer. Eu no tenho a menor idia de minha herana gentica nem sei que doenas talvez tenha herdado.
      Tnia j fizera comentrios desse tipo outras vezes. Volta e meia assumia essa atitude de mrtir. Por outro lado, o que dizia era verdade. Ela no conhecia 
as condies de sua verdadeira famlia. Selena talvez tivesse as mesmas indagaes, se estivesse na situao de Tnia.
      - Mas vou descobrir, concluiu Tnia, pegando os calados e encaminhando-se para o armrio.
      O lado de Tnia no armrio era todo muito bem arrumado. Tudo estava nos seus devidos lugares. E ela o mantinha assim o tempo todo.
      Selena era bem desorganizada. Se precisasse passar, e houvesse algo no caminho, ela simplesmente o afastava para um lado. Se no encontrasse a roupa que queria 
vestir, arranjava outra. Ficou pensando no que a irm dissera. Selena ergueu-se ligeiramente e se apoiou num dos cotovelos, piscando por causa da claridade.
      - O que voc quer dizer com isso, que "vai descobrir"?
      - Assim que tiver dinheiro suficiente, vou procurar minha me biolgica, replicou Tnia, sem se virar.
      - E por que quer procur-la?
      Tnia girou nos calcanhares, meio espantada com a pergunta da irm.
      - Ah, deixa pra l, replicou. Voc no entenderia.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Nove
    
      
      Na segunda-feira de manh, a me de Selena saiu com ela para lev-la de carro at o Colgio Evanglico Royal, que ficava cerca de dezesseis quilmetros de 
onde moravam. Estava chovendo, como sempre, e Selena ficou sentada em silncio alguns minutos no banco de passageiros do velho fusca, esperando o sistema de aquecimento 
do veculo esquentar o carro. Olhou para sua blusa azul de malha grossa, para a saia com a estampa imitando colcha de retalhos e para as botas de cowboy. Levou a 
mo  orelha para se lembrar de qual fora o brinco que colocara.
      Pela primeira vez na vida, Selena se preocupava com as roupas que usava. Em Pineville fora fcil manter sua individualidade. A escola era pequena, e ela era 
bastante popular, pois todos os professores j conheciam seus irmos mais velhos que haviam estudado ali antes dela.
      Agora iria iniciar seu primeiro dia de aula numa escola particular. Imaginava que os outros 280 alunos eram todos clones uns dos outros. Todos deviam usar 
roupa azul-marinho e meia branca.
      - Me, disse Selena, no momento em que entravam na via expressa e ela aumentava a velocidade. Estou comeando a achar que essa idia de estudar num colgio 
evanglico no foi muito boa. Sempere frequentei escolas pblicas, a no ser naquele ano em que a senhora me deu aula em casa. Acho que no vou gostar. No  do 
meu jeito.
      Normalmente a me de Selena era muito paciente. A garota sabia que a qualquer hora poderia chegar para ela e conversar sobre tudo. Entretanto dessa vez foi 
diferente. Mame pareceu meio irritada.
      - Ns j conversamos sobre isso, replicou ela, com certa aspereza. Quando tomamos a deciso de vir para c, falamos sobre isso, e voc disse que gostaria de 
ir para um colgio evanglico, j que em Pineville nunca tivera essa oportunidade.
      - Eu sei, replicou Selena. Mas isso foi antes da minha viagem para a Europa. Acho que no vou ter nada em comum com os alunos dessa escola. No sou igual a 
eles.
      - E como  que sabe disso, se ainda no viu a escola nem conhece nenhum dos alunos, hein? indagou mame, aumentando a velocidade do limpador de pra-brisas. 
Isso no  tpico de voc, Selena, ter medo de situaes novas. Onde est seu esprito aventureiro?
      - No sei.
      - Ento faz uma tentativa, insistiu a me, no momento em que saam da via expressa e rodavam pela rua da escola. S peo que voc experimente uma semana. Depois 
voltamos a conversar. O.k.?
      Ela parou o carro em frente  entrada principal. Selena hesitou por um momento. Viu alguns alunos entrando no prdio. Usavam roupas normais; no modelos antiquados 
nem uniformes.
      - Est bem, disse ela. Uma semana.
      - Quer que eu v com voc  secretaria? indagou mame.
      - No. Tudo bem; posso ir sozinha.
      Selena pendurou a mochila s costas e abriu o porto.
      - Venho peg-la s 3:00h, falou mame, inclinando-se para olh-la atravs da janela do carro. Tenha um bom dia, filha!
      Selena fez um esforo para sorrir. No foi difcil achar a secretaria. Assim que entrou, uma mulher de culos e de cabelo ondulado veio para ela sorridente 
e lhe disse:
      - Voc deve ser a Selena Jensen. Bem-vinda ao Colgio Royal!
      Selena ficou sria.
      - Aqui est o horrio das aulas, alguns papis com informaes e um anurio para voc.
      Eu sabia! Pensou. Deve estar cheio de regulamentos.
      A secretria passou a dar-lhe uma srie de esclarecimentos. Falou-lhe sobre a localizao dos escaninhos e a hora do almoo. Disse tambm que ela poderia inscrever-se 
no time de basquete feminino, se o quisesse, e que o culto se realizava s sextas-feiras. Muitas das informaes, Selena nem ouviu direito.
      - O Ronny vai vir aqui, continuou a mulher. Pedi a ele que lhe servisse de cicerone hoje.
      Ela deu uma olhada para o relgio de parede e prosseguiu:
      - Cad ele, afinal? Faltam dez minutos para bater a sineta.
      - Acho que consigo encontrar tudo sozinha, interveio Selena. Obrigada!
      - No! No consegue no! A escola  muito grande e voc pode se perder aqui dentro, o que no queremos que acontea.
      Selena teve vontade de dizer-lhe que na semana anterior ela estava numa localidade na regio dos lagos, na Inglaterra, fora sozinha para o Aeroporto de Heathrow, 
em Londres, e em seguida viera para Portland. Era bvio que conseguiria encontrar o escaninho 117 sem a ajuda de um "guia".
      Nesse momento, um rapaz alto, de cabelo meio longo, entrou na secretaria. Selena ficou surpresa. Tinha pensado que naquela escola houvesse um regulamento proibindo 
cabelo comprido. Na verdade, no era longo demais; apenas uns dois centmetros abaixo da orelha. Era louro e todo penteado para trs. Ela se surpreendeu tambm com 
a roupa de Ronny. Ele usava uma jaqueta marrom-claro, que tinha um capuz com forro de l. Se Selena encontrasse um bluso igual ao dele num dos brechs de que tanto 
gostava, iria pensar que achara um "tesouro", embora no fosse caro. 
      - Ol colega! exclamou Ronny.
      - O nome dela  Selena, explicou a secretria. Ronny, mostre a ela as dependncias da escola, antes que bata a sineta.
      O rapaz apresentou-lhe o brao para que ela o segurasse, como se ambos fossem padrinhos de um casamento e tivessem de entrar pelo corredor central da igreja. 
Selena fez um gesto, dando a entender que estava com as mos cheias.
      - Ento, est bem, falou Ronny.
      O rapaz saiu para o corredor, onde j se viam alguns alunos.
      - Sua bota  muito legal, comentou ele.
      - E eu acho sua jaqueta muito legal tambm, falou Selena.
      - Ganhei do meu pai. Ele a trouxe do Nepal. Olha, seu escaninho  aqui. Ela lhe deu o segredo do cadeado?
      Selena ficou alegre de saber que havia pelo menos uma pessoa ali que conhecia algum que j estivera fora do pas. Pegou o papel onde estava escrito o segredo 
e girou os nmeros do cadeado, colocando-os na ordem indicada. Imediatamente a portinhola se abriu, e de dentro do armarinho saram vrios bales nas cores roxo 
e dourado.
      -  assim que damos as boas-vindas aos nossos novos colegas, disse Ronny. Agora voc est oficialmente integrada na escola.
      Selena sentiu-se meio perdida, sem saber o que pensar. As pessoas iam passando por ela e muitas a olhavam, mas no paravam. Ainda estava com as mos cheias 
de objetos, mas teria de pegar os bales e resolver o que fazer com eles. Ronny limitou-se a ficar de p ao seu lado, olhando-a. Fora uma bela surpresa. Em Pineville 
no faziam nada semelhante.
      - Podemos estour-los, interveio Ronny afinal.
      Ele pegou um deles, apertou-o entre os dedos e furou-o com os dentes. O ar saiu assoviando. Em seguida, furou mais alguns, enquanto Selena tentava enfi-los 
de volta dentro do escaninho. Como ainda no tinha livros, no precisaria guardar mais nada dentro dele. Fechou-o, e Ronny disse:
      - Vamos l. Vou lhe mostrar onde so as salas. Qual  sua primeira aula?
      Selena foi caminhando ao lado dele, procurando o horrio.
      - Se estou olhando certo, minha primeira aula  Ingls.
      - timo! exclamou Ronny. A minha tambm. Ento  bem ali.
      Ele apontou para uma sala, mas continuou caminhando corredor abaixo.
      - No fim deste corredor, est o ginsio de esportes. Na hora da aula de Educao Fsica, voc entra naquela porta do fundo  direita. Aquele corredor ali, 
prosseguiu ele, apontando para a esquerda e ainda andando,  a rea do primeiro grau, as turmas de quinta a oitava sries. Evite ir l sozinha.
      A sineta tocou, no alto da parede. Ronny virou-se e se ps a caminhar na direo oposta de onde tinham vindo.
      - Encontro voc na hora do almoo, disse o rapaz. J mostrei onde  a cantina?
      - No. Mas no precisa se preocupar. Tenho certeza de que descubro onde fica.
      Estavam de volta  sala para a aula de Ingls. Ronny parou  porta e deixou Selena entrar primeiro, seguindo logo atrs dela.
      - Pessoal, esta aqui  a Selena, nossa nova colega, declarou ele em voz alta.
      Em seguida, dirigindo-se a ela, disse em voz baixa:
      - Pode sentar onde quiser!
      Selena sentou-se na primeira carteira que viu, ciente de que todos os olhares estavam fitos nela. No sabia bem por que mas aquela acolhida amistosa a irritava. 
 claro que a inteno da secretria, mandando Ronny servir-lhe de cicerone e colocando os bales em seu escaninho, fora boa. Contudo aquilo a deixara meio incomodada. 
Achava que estava tendo uma recepo por demais afetuosa. Pensara que encontraria uma escola cheia de gente esnobe, que iria simplesmente ignor-la. Assim teria 
sido mais fcil entrar e sair sem ser notada. Facilitaria tambm sua mudana de escola, aps a semana de experincia que a me propusera, sem que ningum desse pela 
sua falta.
      - Olhe! disse uma garota que usava um vestido de tecido tipo colcha de retalhos. Estamos formando par!
      Selena ficou espantada. Suas roupas nunca eram iguais s de outros colegas. Jamais!
      - Onde voc comprou sua saia? Foi na Wrinkle in Time? Continuou a outra.
      A garota tinha olhos castanhos bem expressivos e a pele morena azeitonada.
      -  onde eu mais compro roupas, continuou a moa.
      - No, replicou Selena. Nunca fui l, no.
      Percebeu que respondera meio secamente e por isso acrescentou:
      - Essa aqui eu comprei num brech em Sacramento.
      - Ah, voc  de Sacramento? indagou a colega.
      - No, respondeu Selena. 
      No deu mais explicaes, pois a professora estava iniciando a aula, e todos os colegas haviam se sentado, menos a garota com quem estava conversando.
      A professora deu uma breve palavra de boas-vindas para Selena, que ficou aliviada ao ver que ela o fazia com certa discrio, sem chamar demasiadamente a ateno 
dos outros para a nova aluna. A maior parte da aula foi expositiva, e no debate em classe. Selena achou isso muito bom, pois, assim, poderia passar mais despercebida.
      Alis, passar despercebida acabou-se tornando o objetivo de Selena naquele dia. Manteve-se calada e bem reservada em todas as aulas. A hora do almoo, dirigiu-se 
para o refeitrio da cantina e teve de sentar-se perto de Ronny e alguns amigos, pois o rapaz fez questo disso. Contudo limitou-se a responder s perguntas dos 
colegas com "sim" ou "no". Com isso, eles passaram a conversar sobre outros assuntos e se esqueceram dela. Era exatamente o que Selena desejava.
      Assim que ela e a me entraram em casa, aps as aulas, ouviram a voz de V May, chamando-a da cozinha.
      - Queridinha, j estou pronta! Quer me levar  Eaton's?
      Selena olhou para a me, como que pedindo uma explicao. Mame apenas deu de ombros. A garota entendeu que a estava vivendo o presente, j que a tratara por 
"queridinha". Mas que idia era aquela de ir  loja Eaton's?
      -  para buscar algum remdio, V May? indagou ela.
      - No, replicou a av.
      Ela acabou de abotoar o palet vermelho e levantou um pouco a gola, que era de peles. Em seguida colocou um chapu e encaminhou-se para a porta. V May estava 
muito elegante. Parecia uma meninazinha pronta para ir a uma festa de Natal.
      - Acho que vamos voltar logo, disse Selena.
      Largou a mochila na sala e pegou a chave do carro em cima da mesa. Em seguida, deu o brao  av, e foram descendo lentamente os degraus molhados da escadinha 
da varanda.
      Selena foi guiando cuidadosamente at  loja. As ruas estavam bem escorregadias e, ademais, fazia mais de um ms que ela no saa com o carro. Sentia-se meio 
sem jeito ao volante, ali, num setor onde nunca dirigira.
      Anteriormente, sempre que a famlia vinha passar as frias com a av, esta levava os netos  Eaton's nas tardes de vero. Ali havia uma daquelas sorveterias 
antigas e um balco com tampo de frmica para os clientes. Ao redor dele, havia tamboretes com assentos forrados de vermelho. Selena j tomara ali muitos sorvetes 
e milk-shakes. Era uma das poucas lojas que ainda funcionavam do mesmo modo desde sua fundao, cinqenta anos atrs. Algumas das mais antigas da rua haviam sido 
demolidas ou remodeladas e transformadas em lojas de presentes oulanchonetes de fast food.
      Pararam no estacionamento e seguiram para a entrada da loja, procurando no pisar nas poas de gua. V May caminhava tranqila, cantarolando baixinho. Ao 
abrirem a porta*, um guizo soou, anunciando a chegada das clientes. Selena viu sua mmente inundada de recordaes da infncia.
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      *Nos Estados Unidos, por causa do frio rigoroso do inverno, as portas das lojas normalmente ficam fechadas. (N.da T.)
      
      - O que a senhora vai querer hoje, V May? indagou Selena, encaminhando-se para o balco de medicamentos.
      A av foi para outra direo - para o balco de sorvete. Selena seguiu-a e sentou-se num tamborete ao lado da av, ainda sem entender direito o que estava 
acontecendo.
      - Ol. May! exclamou uma mulher uniformizada que atendeu ao balco. Como est passando?
      Selena reconheceu-a. Ela trabalhava ali desde que Selena era pequena.
      - Muito bem! respondeu V May. ngela, essa aqui comigo  a filha do Harold, informou ela, tirando o casaco e o chapu e deixando-os no tamborete do lado.
      - Claro!  a Selena, no ? Puxa, como voc cresceu, menina! Soube que fez uma viagem  "Ilha Esmeralda"**. Que tal? Gostou?
      
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      **"Ilha Esmeralda", nome dado  Irlanda. (N.da T.)
      
      - Sim, muito! Foi uma viagem maravilhosa! Gostaria de ir l de novo!
      - Ah, acho que voc ir, sim, disse a mulher em tom meigo. May sempre diz que voc tem um esprito meio aventureiro. E ento, o que as duas vo querer hoje?
      - Queremos o que sempre tomamos no primeiro dia de aula, dois copos. E eu quero tambm uma xcara de caf. Voc quer mais alguma coisa, queridinha?
      Como Selena no sabia o que era o que sempre tomamos no primeiro dia de aula, pediu tambm um copo de gua. V May olhou para a neta com um sorriso no rosto.
      - Seu pai lhe contou que eu fazia isso com todos os meus filhos? No primeiro dia de aula, vnhamos aqui na Eaton's e pedamos milk-shake de chocolate. Com 
isso, eles ficavam ansiosos para chegar o dia, para que pudessem vir aqui. A ltima vez que fiz isso foi quando Emma estava no primrio.
      ngela trouxe o copo de gua e o caf. Logo V May se ps a prepar-lo a seu modo. Primeiro, adicionou leite de uma leiteirinha que a balconista lhe dera, 
derramando a quantidade exata. Em seguida acrescentou uma colherinha de acar.
      Selena gostava de ficar olhando as mos de V May. Elas pareciam danar. O movimento de seus dedos eram leves e coordenados. Ela pegou a colher, como se fosse 
uma pena, e remexeu a bebida, formando pequeninas ondas na xcara de loua grossa. Evidentemente, ela conseguia aceitar a loua da Eaton's em lugar da sua de porcelana.
      - Houve um ano, continuou V May, em que trouxe todos os meus filhos, e ocupamos quase todos os tamboretes.
      Selena sabia que a av sempre fora muito criteriosa para gastar dinheiro, e espantou-se de saber que ela comprara sete milk-shakes s porque era o primeiro 
dia de aula.
      - E agora, queridinha, conte-me como foi seu primeiro dia na escola.
      Selena deu de ombros.
      - No h muito para contar, no, falou.
      Voc no respondeu. Conte-me tudo. Quero saber tudo.
      - Bom, aqui  muito diferente de Pineville, principiou. A primeira diferena foi antes da aula de Ingls. A professora leu um verso da Bblia e fez uma orao. 
Alis, uma prtica muito boa, que no h nas escolas pblicas.
      -  mesmo, disse a av. E era assim que deveria ser em todas as escolas.
      Nesse momento, ngela trouxe os milk-shakes e colocou-os sobre a mesa. Entregou-lhes tambm uma colheirnha de metal para misturarem bem o sorvete.
      - E eu que costumava tomar um desses sozinha, disse V May, dando uma risadinha.
      Selena enfiou o canudinho no copo e sorveu o delicioso lquido.
      - Obrigada, V May, disse ela. Foi muita bondade sua me trazer aqui. E eu agradeo mesmo.
      - O prazer foi meu, queridinha. Agora me conte mais sobre a escola.
      Selena ficou pensando em algo para contar. No fundo, ainda estava planejando deixar esgotar-se a semana de experincia e depois dizer aos pais que queria mudar 
para uma escola pblica. Contou a V May sobre os bales que haviam colocado no escaninho. Disse que estourara todos e os jogara fora para poder guardar os livros.
      - Ah, e depois, em minha classe, havia uma garota com um vestido de um tecido igual ao da minha saia. Isso no acontece com muita freqncia, no  mesmo?
      - E ento, quando voc tiver de sair para fazer compras, deve cham-la para ir junto. Vocs tm o mesmo gosto.
       Selena ficou meio irritada com o comentrio da av. Ningum tinha o mesmo gosto que ela. Suas roupas eram sua "marca registrada". Eram s dela, e de mais 
ningum.
      - Alis, voc deveria convid-la para vir  nossa casa. Como  que ela se chama?
      - No sei.
      V May olhou para a neta meio decepcionada, abaixando um pouco a plpebra do olho direito, que j era meio cada. No disse nada. Com gestos leves, pegou a 
xcara de caf e levou-a aos lbios. Sorveu a bebida devagarinho. Selena compreendeu que precisava mudar de assunto.
      - V, lembra-se de Katie, aquela outra garota de que falei que conheci em Carnforth? Eu a convidei para vir aqui. Talvez ela venha nas frias. Acho que a senhora 
vai gostar dela. Katie  muito divertida.
      - Voc conheceu outros colegas hoje? indagou V May, rejeitando o novo rumo da conversa.
      - Conheci.
      - E como era o nome deles?
      - Conheci uma rapaz chamado Ronny. Estava com uma queta muito legal. E ele disse que ela era do Nepal.
      - Ah, ? Como assim?
      - O pai dele a trouxe de l para ele.
      Selena estava ciente de que no era bem sobre isso que V May queria conversar. No dava para mudar de assunto. As perguntas dela deixaram Selena com um pouco 
de sentimento de culpa, embora a av no houvesse dito nada com inteno de repreend-la.
      ngela voltou e serviu mais caf a V May. A garonete conversou animadamente com a av, o que deixou Selena bem satisfeita. Assim ela no ficaria fazendo 
mais perguntas sobre a escola. J fora difcil ficar vasculhando a mente  procura de respostas para as indagaes de sua me quando estavam voltando para casa.
      V May tomou outro gole de caf e do milk-shake. Nesse momento, entrou um senhor idoso que se sentou num dos tamboretes. Ele cumprimentou V May, e os dois 
trocaram habituais perguntas formais. Ao que parecia, o velho conhecia Selena, mas ela mesma no lembrava se ele era um vizinho ou apenas um conhecido. Com a chegada 
dele, V May parou de fazer perguntas sobre seu primeiro dia de aula.
      Quando se levantaram para sair, V May deixou uma moeda de vinte e cinco centavos como gorjeta. Selena achou que era muito pouco. Se tivesse dinheiro ali, 
teria posto um pouco mais no balco.
      Ao sair do prdio, viram que o sol aparecera em meio s nuvens, formando pequenos arco-ris nas poas de gua sujas de leo.
      - Obrigada de novo, v, disse Selena.
      Saram rodando por entre as casas do bairro. Agora entendia por que V May teimava em no se mudar dessa rea. Alm de o bairro ser muito bonito, ela tinha 
ali vizinhos e amigos de muitos anos. Sua vida estava toda ligada a esse lugar. De certo modo, Selena tinha inveja dela.
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Dez
      
      
      No segundo dia de aula, Selena continuou com a mesma atitude de simples observadora desinteressada. Durante quase todo o dia, respondeu apenas por monosslabos 
ao que os outros disseram ou fizeram. S houve um momento em que ocorreu algo diferente. Aps as aulas, quando acabava de fechar a porta do seu escaninho, viu passar 
algum que levava s costas uma mochila de couro marrom. Ela j vira uma igual, a de Paul.
      Saiu andando corredor abaixo para ultrapassar o rapaz e depois virar-se para olh-lo, como quem no quer nada. Sabia que no poderia ser Paul, de jeito nenhum. 
Ele no estaria na sua escola aquela hora. Mesmo assim, tinha de ir verificar.
      Quando j se achava a uns trs passos  frente dele, virou-se e olhou para o rapaz. Era um colega que se sentara prximo dela na aula de Biologia. Ele a fitou 
e dirigiu-lhe um sorriso tmido.
      Pronto! Agora ele vai pensar que estou querendo a ateno dele!
      No que ele fosse feio ou algo assim. No era. Era bastante comum em tudo - altura mediana, cabelo castanho, rosto muito simples. Parecia uma pessoa cujo sorvete 
preferido seria o de creme. No era o tipo de que ela gostava. Provavelmente no possua nenhum ponto em comum com Paul.
      De repente se deu conta de que estava comparando outros rapazes com Paul, e isso a aborreceu. Por que estava agindo assim? Nem conhecia Paul direito. Nunca 
mais iria v-lo. Por que estava pensando nele afinal?
      Selena continuou seguindo pelo corredor, saiu pela porta principal e pouco depois avistou o carro da me no estacionamento da escola.
      - E a? indagou ela, manobrando o veculo para sair. Hoje foi melhor?
      - Foi bom, respondeu Selena.
      - Amanh no vou precisar do carro, continuou mame. Se quiser, pode vir com o fusca. E se precisar ficar aps as aulas para alguma atividade, tambm pode.
      Selena sabia o que ela estava querendo dizer. Na noite anterior,  mesa do jantar, a me sugerira que ela entrasse para um dos clubinhos da escola. A jovem 
replicara que a reunio dos clubinhos era realizada sempre aps as aulas, uma desculpa para rejeitar a sugesto da me. Agora ela lhe apresentava um recurso para 
rebater sua recusa.
      - Est bem, concordou Selena, para evitar mal-entendidos. Aman venho de carro.
      No restante do trajeto, ela procurou ficar atenta para aprender bem o caminho. E no dia seguinte, de fato, no teve problemas na ida. Na volta, porm, a histria 
foi outra. Saiu assim que as aulas terminaram e chegou  via expressa sem dificuldades. Contudo passou do lugar onde deveria pegar o trevo para chegar ao seu bairro 
e acabou encontrando um trfego pesado, indo para o centro da cidade. No quis tomar a sada seguinte, pois no tinha certeza se haveria um trevo para voltar  expressa 
e pegar a rota certa para chegar em casa.
      Selena passou pelas duas sadas seguintes sem entrar nelas. Na primeira no havia retorno para a expressa. Na segunda havia, mas ela s percebeu isso depois 
de j haver passado dela. Da a pouco se deu conta de que estava se aproximando de uma das grande pontes sobre o rio Columbia e, portanto, seguindo na direo do 
centro da cidade.
      - Oh, puxa, o que estou fazendo aqui?
      Com aquele carro pequeno, sentia-se meio prensada no meio dos veculos maiores que a cercavam de um lado e do outro. Diminuiu a velocidade, para decidir o 
que faria. S de pensar que estava passando sobre o rio, comeou a ficar nervosa. Em Pineville no havia pontes longas como esta. E ela nunca pegara um trfego to 
intenso assim.
      Selena encolheu os dedos dos ps dentro da bota e ficou a repassar as opes que tinha. Poderia ir a um telefone pblico e ligar para o pai, pedindo-lhe que 
fosse busc-la. No. Tambm poderia perguntar a algum como chegar ao bairro onde morava. Era uma boa alternativa. Contudo o melhor mesmo seria encontrar ela prpria 
o caminho. Se pudesse pegar um retorno e voltar pela mesma rota em que viera, tudo estaria resolvido.
      Com firme determinao, acabou de atravessar a ponte, entrando no setor comercial da cidade, onde havia vrias nruas de mo nica. Assim que foi possvel, 
virou  direita e depois novamente  direita. Estava dirigindo-se para um trevo que dava entrada para a via expressa.
      - O. k.! O. k.! gritou para um motorista apressado atrs dela. Ele buzinara, pois Selena estava rodando muito devagar. Acelerou um pouco mais, desejando que 
os pais j tivessem trocado a placa do veculo. Imaginava o homem do carro de trs berrando: "V embora daqui, californiano!"
      Resistiu  tentao de olhar para ele pelo retrovisor. Alm disso, tinha de concentrar-se bem para decidir o que faria, como por exemplo, qual sada deveria 
pegar. Rodou um bom pedao sem ver nenhuma. A primeira que encontrou no lhe pareceu ser a certa. Resolveu mudar de pista para no dar numa sada obrigatria. Mas 
era tarde. O motorista do carro que vinha atrs dela chegara junto demais. E como o fluxo de carros estava intenso, no conseguia passar  pista da esquerda. No 
teve outra opo seno pegar a rampa de sada.
      Foi rodando meio sem rumo. Em momentos como esse, porm, seu esprito aventureiro despertava, e ela no deixava que circunstncias difceis a assustassem. 
Andou alguns quarteires e afinal chegou a um posto de gasolina. Estacionou numa das vagas laterais e foi  lojinha de convenincia. Entrou e, procurando agir com 
toda naturalidade, comprou um tablete de chocolate e um mapa da cidade de Portland.
      Assim que saiu da loja, viu um carro esporte entrando no posto. Ao volante estava uma jovem muito parecida com Jalene. No, no havia dvida. Aquela era mesmo 
a namorada de Paul. Mas parecia estar sozinha. Pensou em conversar com ela, mas ser que a moa a reconheceria?
      Enquanto debatia consigo mesma, viu chegar um jipe com o rdio ligado no ltimo volume. Nele havia dois rapazes com cerca de vinte anos. Lembrou-se de que 
j vira ali outros jovens com jeito de estudante. Deduziu que deveria estar perto da Faculdade Lewis e Clark. Agora tinha mais uma opo.
      Pela primeira vez naquele dia, Selena comeou a sorrir. Voltou para o carro e abriu o mapa.
      A Katie talvez dissesse que o fato de eu ter me perdido e ter acabado nas imediaes da faculdade  uma coisa de Deus. E se eu desse uma volta pelo campus 
e olhasse por a? Quem sabe Deus me trouxe at aqui para que eu topasse com o Paul?
      Localizou no mapa o lugar onde se encontrava e descobriu que se achava a menos de duas quadras da escola. Sentiu o corao bater forte. Os pais no iriam se 
preocupar se demorasse a chegar, pois a me at a incentivara a ficar no colgio aps as aulas. Apesar de tudo, tinha a sensao de estar enganando-os. Deveria ligar 
para casa? Seria bom. Abriu a mochila  procura de algumas moedas e do papel onde estava o nmero de telefone. Incrvel, mas ainda no o decorara. Lembrar nmeros 
no era o seu forte.
      Pegou o papel, desdobrou-o e soltou um resmungo. Ele devia ter-se molhado, pois a escrita estava manchada. Poderia discar diversos algarismos at chegar ao 
certo. No. Tinha dinheiro trocado, que no seria suficiente para vrias ligaes. Poderia discar para o auxlio  lista. Seria o melhor a fazer. Alis, seria o 
mais sensato.
      Rasgou o invlucro do chocolate e deu uma mordida. Lembrou-se de que seu irmo Cody certa vez lhe dissera que era melhor dizer: "Desculpe-me, me!" do que 
"Posso ir, me? Essa atitude se aplicava  situao que vivia naquele momento. Se ligasse para casa e dissesse  me que queria dar uma volta pelo campus da faculdade, 
era provvel que ela lhe dissesse para voltar imediatamente e que, mais tarde, poderia fazer uma visita  escola junto com ela.
      Entretanto no fora intencionalmente que se perdera e acabara chegando ali. Fora por acaso; no tinha culpa disso. Ento poderia dar uma volta pela escola 
e, depois olhando o mapa, voltaria para casa. Contaria tudo direitinho como acontecera.
      Deu outra mordida no chocolate, tirando um pedao grande, e ficou a mastig-lo devagar. Resolveu adotar a primeira opo: "Desculpe-me, me". No estaria desobedecendo, 
nem nada. Seu pai j lhe falara que na vida havia alguns fatos que se achavam na "zona de penumbra", que eram meio imprecisos. Nesses casos, o jovem teria de tomar 
uma deciso sozinho e depois arcar com as conseqncias. Essa situao era um desses fatos. No haveria problema algum. Que mal poderia haver em uma simples volta 
no campus de uma faculdade?
      Comeou a cair uma chuva leve. Selena colocou na boca o ltimo pedao do tablete de chocolate e se ps a manobrar o fusca para sair da vaga. Parou  entrada 
da rua para esperar que os carros passassem e ela pudesse se misturar ao trfego. Olhando pelo retrovisor, viu que Jalene se achava logo atrs. Duvidava de que ela 
a tivesse visto, e se tivesse, provavelmente no a teria reconhecido como a jovem que encontrara no aeroporto uma semana antes.
      Assim que deu para sair, entrou no trfego e rodou dois quarteires, chegando ao porto da universidade, com Jalene logo atrs. Selena desejou que as posies 
estivessem invertidas, isto , que ela tivesse seguindo a namorada de Paul. Quem sabe? Talvez Jalene estivesse indo encontrar-se com o rapaz e assim ela poderia 
v-lo. Isso seria bem mais interessante.
      Bem l no fundo, porm, Selena sentia que havia algo errado. Uma vozinha suave lhe dizia que ela se afastara da "rea de segurana". Entretanto, ao mesmo tempo, 
havia um impulso interior que a instigava a arriscar-se. Seu esprito aventureiro veio  tona, e ela continuou em frente. Entrou no campus, com Jalene sempre atrs.
      Selena ficou de olho no carrinho da outra, que parou num estacionamento ao lado de um prdio de seis andares. Uma das fachadas dele era s de janelas. Ela 
se perguntou se seriam ali as salas de aulas. Viu Jalene sair do veculo carregando alguns livros e correr para a entrada debaixo da chuva. Talvez fosse a biblioteca. 
Ela tambm poderia ir  biblioteca, no poderia? Estacionou, saiu do carro e foi correndo para a porta. De fato, era a biblioteca. E dentro havia muitos estudantes. 
Quais seriam as probabilidades de Paul estar ali? Perdera Jalene de vista.
      Passou pela recepo e pelo arquivo de fichas e parou. Junto s janelas havia diversas divisrias, todas ocupadas. E se Jalene tivesse vindo ali para se encontrar 
com o namorado? E se os dois estivessem sentados numa daquelas reparties e Selena desse de cara com eles de repente? O que deveria dizer? 
      "Sua namorada veio me seguindo at aqui, e agora eu  que estou atrs dela."?
      Olhou para um lado e para o outro. Sentiu vontade de ficar por ali simplesmente porque achou o ambiente agradvel. Gostava de estar entre jovens mais velhos 
que ela. Sentia-se mais  vontade com eles do que com os adolescentes do segundo grau. Os estudantes do curso superior eram mais maduros, algo que ela apreciava. 
Ela se via mais como universitria do que como colegial.
      - Com licena, disse uma voz masculina s suas costas.
      Virou-se, achando que era Paul, mas ao mesmo tempo com receio de encar-lo. Deu com um rapaz de culos, mais baixo que ela. Ele segurava uma pilha de livros, 
que mudou para o outro brao.
      - Voc est com um papel de chocolate agarrado na sua... ... a atrs, disse ele, olhando para a cala dela.
      Selena virou-se para ver o que ele quisera dizer. O invlucro do tablete de chocolate grudara no traseiro de seu jeans. Ela andara pela biblioteca toda daquele 
jeito!
      - Ah, obrigada! exclamou, removendo o papel, sem se mostrar constrangida.
      No ponto de onde o tirou ficou uma mancha de chocolate e caramelo. Selena virou-se e, com passos firmes, atravessou a sala, saiu e foi direto para o carro.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Onze
      
      Selena no contava pegar um trfego to intenso. Era a hora do rush. Estudando atentamente o mapa, descobrira como poderia chegar  via expressa. Agora, porm, 
a estrada estava igual a um estacionamento - cheia de carros. Parecia que toda a populao da cidade resolvera ir na mesma direo que ela. O melhor a fazer ento, 
era seguir devagar e ligar o rdio para no se sentir muito sozinha durante o percurso.
      Encontou uma rdio evanglica. Naquele momento estavam tocando um hino de Margaret Becker, uma cantora de que Selena gostava muito. A certa altura, ela deu 
uma nota aguda e ficou a sustent-la durante alguns segundos.
      - Vai fundo, Margaret! exclamou Selena.
      Ps-se a cantar junto com ela e, de vez em quando, dava olhadas rpidas para o mapa. Chegou em casa s 5:10h. Assim que entrou, percebeu que ia haver "tempestade".
      - Eu me perdi, foi logo dizendo, antes que a me tivesse tempo de explodir. Acabei indo dar na Faculdade Lewis e Clark. Ento comprei um mapa para aprender 
o caminho. Mas o trnsito estava muito ruim.
      - Por que no telefonou? indagou a me.
      Ela estava com os braos cruzados e o rosto vermelho, mas parecia ligeiramente aliviada ao ouvir a explicao da filha.
      - Eu pensei nisso, mas no sabia o nmero.
      - Selena, falou a me, abanando a cabea. No vou aceitar essa desculpa, no.
      - Olhe aqui, replicou Selena, tirando o papel e mostrando o nmero manchado.
      - Voc j sabe ligar para o auxlio  lista. Esse papel manchado no  desculpa. Agora v tomar seu banho. O jantar est na mesa.
      Isso  que era o pior - jantar sem ter resolvido o problema. Obviamente iriam conversar sobre ele  mesa. Preferia que a me ou o pai tivessem brigado com 
ela e terminado logo com tudo. A verdade era que nenhum deles gritava com os filhos. Sempre resolviam as questes por meio de dilogo. Todos tinham liberdade de 
se explicar e dar sua opinio a qualquer momento. 
      O pai orou, dando graas pela refeio, e em seguida pediu a Selena que explicasse de novo o que lhe acontecera. Ela repetiu a histria toda. Dessa vez mencionou 
que tinha ido  biblioteca.
      - Voc o viu? indagou o pai.
      - No, respondeu.
      Meu pai deve me conhecer muito bem, pensou.
      - Viu quem? quis saber Kevin, com sua curiosidade infantil
      - Um rapaz chamado Paul, explicou o pai.
      - Paul? interveio V May.
      At esse momento, ela permanecera calada. Selena receou que ela estivesse com outra crise de volta ao passado. Mas a av s ficou olhando para o prato, comendo 
tranqilamente.
      -  um rapaz que conheci no avio quando estava voltando da Inglaterra, explicou Selena.
      Tinha esperana de que ao mencionar um fato ocorrido no presente, a av entendesse que no estavam se referindo ao filho dela.
      - Ah. sim, falou V May. Voc tinha um tio chamado Paul. Sabia disso, queridinha? Quando ele era garoto, certa ocasio, ele trabalhou como entregador de jornais 
em Laurel Hurst. Um pneu da bicicleta furou bem antes de ele terminar o servio. Sabe o que ele fez?
      Todos ficaram a ouvi-la atentamente, contentes pelo fato de ela estar falando do passado como passado. E Selena se sentia satisfeita porque aquilo fizera com 
que se esquecessem do probelam dela.
      - Em vez de ligar para casa, continuou a av, ele foi acabar de entregar os jornais empurrando a bicicleta. Depois voltou para casa a p, debaixo de chuva. 
Chegou aqui com uma hora e meia de atraso. A essa altura eu j estava achando que ele fora sequestrado, ou coisa pior. Assim que ele entrou em casa, imagine s, 
eu gritei com ele.
      V May cortou um pedacinho de seu frango e colocou-o na boca. Por uns instantes, todos permaneceram em silncio.
      - Voc devia ter telefonado, disse mame, j mais calma, mas ainda querendo dar seu recado. Aqui no  Pineville. Voc no pode rodar por uma cidade grande 
como esta, achando que est em perfeita segurana.
      - Tnia vai para Clakamas todo dia, insistiu Selena.
      - , mas sabemos aonde vai, onde est e a que horas voltar para casa. Se ela se atrasar, sabemos onde vamos procur-la. Isso  completamente diferente do 
que voc fez hoje. No faa isso nunca mais!
      -  claro que voc pode ir para a escola de carro, falou papai. Mas quando for a outro lugar qualquer, primeiro tem de verificar conosco. O. k.?
      Sabendo que podia expressar seus sentimentos, Selena resolveu abrir-se e soltar o pensamento que lhe ocorrera.
      - Lembra que uma semana atrs eu estava do outro lado do mundo? E consegui vir da Inglaterra at aqui sem problemas. Ser que eu no saberia me virar em Portland?
      - No  essa a questo, insistiu o pai. Todos sabemos que voc sabe se cuidar. Tem uma maturidade e um senso de independncia que muito jovem da sua idade 
no tem. Entretanto isso no muda o fato de que voc tem dezesseis anos. Deus confiou sua vida a ns. Enquanto no for maior, eu e sua me teremos de estabelecer 
seus limites. Obviamente ser voc quem decidir se ir observ-los ou no. E quando os determinarmos estamos s pensando no seu bem.
      - Sei disso, replicou Selena com um suspiro.
      - Ento, disse mame, bem mais tranqila, voc concorda que sempre que quiser ir a algum lugar, que no seja a escola, tem de verificar antes comigo ou com 
seu pai?
      Selena ficou a imaginar se sua me sofrer com os mesmos temores que a av tivera com relao a seu tio Paul. Sentiu certo remorso por ter-lhe causado aquelas 
preocupaes.
      - Concordo! falou afinal. Reconheo que deveria ter ligado. Desculpem-me!
      - timo! exclamou Kevin, empurrando o prato. Ser que agora a senhora pode trazer a sobremesa, me?
      - Espere um pouco, Kevin, disse a me.
      Selena dera apenas algumas garfadas em sua comida. E enquanto o restante da famlia terminava de jantar, Kevin indagou:
      - O que voc fez na biblioteca?
      - S dei uma olhada.  um prdio enorme. Gostaria de voltar l algum dia, com a permisso de vocs, claro.
      Mame sorriu.
      - Conversou com algum l? quis saber ela.
      Selena deu uma risadinha e explicou:
      - S com um cara que disse que tinha um invlucro de chocolate grudado na traseira de minha cala.
      - E voc ficou andando pela biblioteca com o papel na roupa? perguntou papai. 
      - Fiquei.
      Todos riram, e ela tambm.
      - S voc, Selena! S voc! comentou o pai. Sua me estava aqui imaginando que voc sofrera um acidente de carro, e enquanto isso voc circulava por uma faculdade 
com um rabo de papel de chocolate. E o cara que lhe falou disso talvez estivesse mais sem graa que voc. Certo?
      - , creio que sim.
      Mame foi  cozinha e voltou com uma travessa de biscoitos e uma leiteira. Em vez de continuar  mesa para comer a sobremesa, Selena pediu licena e foi para 
o quarto, prometendo voltar um pouco mais tarde para ajudar a lavar as vasilhas. Deitou-se na cama e se ps a pensar, querendo descobrir por que estava sentindo-se 
interiormente inquieta.
      O problema com os pais estava resolvido e, ao que parecia, a av passava bem. Alm disso, ela prpria no estava tendo conflitos com Tnia. Contudo algo incomodava 
Selena. Seria a preocupao com a escola? Provavelmente. Ela queria j ter terminado o segundo grau. Isso mesmo. Desejava estar na faculdade, convivendo com estudantes 
universitrios, como acontecera na Europa. Era isso que queria.
      Foi ento que lhe ocorreu um pensamento vago, algo que Katie falara numa das ltimas noites que haviam passado em Carnforth Hall. Ela dissera que estava com 
saudades dos anos da adolescncia. Naquele momento, Selena achara estranho que ela dissesse aquilo. Todavia, agora, achava o comentrio dela linda mais estranho 
pois ela prpria estava ansiosa para se tornar adulta.
      Ser que no vou me arrepender de querer correr com a vida? Ser que mais tarde vou desejar ter ido mais devagar e ter curtido melhor esta fase?
      Apesar de tudo, continuava com a idia de se transferir para uma escola pblica. Desse modo, no iria se destacar muito, j que o nmero de alunos seria maior. 
Aqui ela no tinha necessidade de ser popular, como acontecera em Pineville. S queria que o ano e meio que faltava para se formar passasse o mais depressa possvel. 
E se fosse apenas mais uma aluna entre os milhares de estudantes de uma escola pblica, o tempo iria mais rpido.
      No dia seguinte, por causa da firme deciso de sair do Colgio Royal, ela continuou no mesmo esprito de indiferena que assumira. No falou muito. Limitou-se 
a conversar apenas quando algum se dirigia a ela, replicando com o mnimo de palavras possvel. Entendia que o que tinha a fazer era terminar aquela semana, como 
concordara, e depois explicar aos pais por que achava melhor ir para uma escola pblica. Eles sempre eram justos e ouviam a opinio dela tambm. No havia dvida 
de que concordariam que essa era a melhor opo.
      Na quinta-feira, para desfazer qualquer sentimento negativo que pudesse haver da parte dos pais, Selena voltou da aula direto para casa. Alm disso, resolveu 
ajudar a me - sem que esta pedisse - a dar banho em Brutus, o cachorro da famlia.
      Brutus era um co So Bernardo, que estava com eles havia trs anos. Embora Selena no gostasse muito de animais em geral, adorava esse cachorro.
      Em Pineville, ele era conhecido no bairro todo. Circulava pela rua o dia inteiro, mas normalmente voltava na hora do jantar. Todo o pessoal da vizinhana gostava 
dele.
      Contudo, desde que haviam se mudado para Portland, ele estava com um jeito estranho. Ficava o dia todo rodando pela casa e pelo quintal. Por vezes queria entrar 
no "clubinho" dos meninos, sempre que um deles ia para o barraco. Parecia totalmente desinteressado em andar pelas ruas do bairro e em marcar seu territrio. Mame 
achou que se lhe dessem um banho talvez ele pudesse reanimar-se. Selena no via como isso poderia resolver o problema do co, mas decidiu ajud-la. Elas o colocaram 
na banheira grande, cheia de gua com sabo, e logo tiveram a sensao de que estavam segurando um imenso peixe liso e escorregadio.
      - Vamos l, garoto, disse mame. Voc tem de cooperar. Fique em p para ns o lavarmos e assim vai ficar limpinho e cheiroso.
      A banheira era daquelas antigas, fixadas em ps de ferro fundido, e era difcil movimentar-se em redor dela. O corpanzil de Brutus tomava conta do espao todo, 
e ele s queria ficar lambendo a torneira com sua lngua rosada. Selena e a me se puseram a esfreg-lo, conversando com ele em voz calma. O cheiro do plo de cachorro 
molhado ficou insuportvel.
      - Vamos enxug-lo aqui mesmo? indagou Selena.
      - A gente poderia lev-lo para a cozinha, respondeu a me. Mas l ele faria mais baguna do que aqui. Vamos tentar aqui mesmo.
      A me acabou de enxagu-lo e fechou a torneira. Agora a dificuldade seria tirar Brutus da banheira. Ele no queria sair, o que no era seu costume. Em Pineville, 
quando lhe davam banho, assim que o soltavam, ele saia da banheira e comeava a sacudir-se, espirrando gua para todo lado.
      - Olhe s! exclamou Selena. Est parecendo um nenm grande! Vem c, Brutus! Levante as patas! Assim. Vire de lado. Agora as patas de trs. timo! Fique bem 
quieto, que vamos enxug-lo.
      Pela primeira vez na vida, Brutus obedeceu.
      - Parece que est deprimido, comentou Selena, enquanto o esfregava com uma toalha.
      - Ser que est sentindo falta da outra casa? indagou mame.
      - Como  que a gente faz um cachorro compreender que aqui agora  a casa dele?
      - Acho que ele sabe, disse mame.  por isso que est meio quieto. Est sentindo falta do que deixou para trs. Ele vai melhorar. Wesley chega sexta-feira 
 noite, e o Brutus vai se reanimar. Pelo menos o Wesley ir lev-lo para caminhar e correr por a.
      Fora Wesley, o irmo mais velho de Selena, que trouxera Brutus para casa, trs anos atrs. Nessa poca, ele era apenas um filhote engraadinho e peludo. Ningum 
fizera oposio  chegada do cozinho, muito menos a me, que sempre gostara de animais. Wesley dissera que o bichinho era para ela. Como ele estava para ir estudar 
fora, queria deix-lo com a me, para que ela tivesse de quem cuidar.
      - O. k., seu grandalho! disse a me, pegando o co pela coleira e levando-o para fora. Agora pode ir para o quintal. Pelo menos est com um cheiro melhor. 
Talvez comece a ficar rnais animado.
      Brutus foi caminhando devagar sobre o gramado e parou em frente  porta do barraco. No havia ningum l. Ele poderia entrar no seu canil, se quisesse. Entretanto 
preferiu deitar-se  entrada. E ficou ali quieto, com o focinho apoiado nas patas dianteiras, agora bem limpinhas.
      Selena e a me permaneceram  janela da cozinha, olhando-o por uns instantes. A jovem teve a impresso de que o co deu um suspiro de alvio.
      - Sabe que estas verdes no esto boas?
      Selena virou-se. Era V May, olhando para o cesto de frutas junto  geladeira.
      - Elas esto boas, sim, v, replicou a moa, aproximando-se para ver o que havia ali.
      Havia duas laranjas, trs mas e uma banana bem madura, com algumas manchas.
      - No tem nada de verde a, V May, continuou Selena. A senhora quer uma ma?
      - No quero ma nenhuma, disse a av, fitando a neta como se fosse esta que estivesse com a mente confusa.
      Em seguida saiu cantarolando baixinho. Selena e a me se entreolharam preocupadas.
      -  duro ver a vida dela ir definhando-se assim, comentou a me. Seria to bom se a gente pudesse voltar no tempo!
      Selena pensou em responder que com ela acontecia o contrrio - queria adiantar o relgio de sua vida. Contudo no disse nada. Parecia errado expressar esse 
pensamento em voz alta. E com isso ela resolveu fazer algo que estivera em sua mente durante toda a semana - escrever para Katie. No havia ningum melhor do que 
essa amiga para entend-la. Katie seria sincera e explicaria a Selena por que ela estava com essa nsia de crescer logo. Ademais, desejava contar-lhe acerca de Paul.
      Deitou-se na cama de barriga para baixo, pegou uma folha e escreveu:
      
      Querida Katie,
      
      Veja se isso que me aconteceu  ou no  "coisa de Deus". Quando cheguei ao Aeroporto de Heathrow, fui telefonar. Fiquei esperando desocupar um telefone e, 
de repente, um rapaz que estava num dos aparelhos, virou-se para trs...
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Doze
   
      
      Na sexta-feira  tarde, Selena tirou seus objetos do escaninho para lev-los para casa Achava que assim seria mais fcil para a me pegar sua transferncia 
na segunda-feira. Devolveria todos os livros de uma vez s. No sentia a menor pena de sair do Colgio Royal. Passara a semana toda procurando manter-se distante 
de tudo e de todos. Assim no seria muito difcil desligar-se emocionalmente da escola.
      Lembrou-se de que seria bom levar tambm o uniforme de ginstica. Foi ao vestirio feminino e girou os nmeros do segredo do cadeado para abrir o escaninho. 
Ouviu algumas garotas conversando do outro lado do mvel de metal, fora de sua vista. Elas estavam to envolvidas no assunto que nem perceberam que havia mais algum 
ali.
      - Eu acho que ela  muito convencida, disse uma.
      - Voc est fazendo um julgamento precipitado, Marissa, replicou a outra.
      - Olha s o modo como ela nos tratou a semana toda. Parece que se acha melhor que ns. No passamos de umas pobres coitadas.
      Pois eu acho que devemos esperar um pouco mais. Vamos convid-la para uma reunio com algumas meninas para ver se ela se abre.
      - Ela no vai se abrir, replicou Marissa. Preste ateno no que estou dizendo. Selena  muito metida.
      Selena estivera acompanhando a conversa, mas s se deu conta de que falavam dela quando a garota mencionou seu nome. Ao ouvi-lo, gelou de alto a baixo. Quem 
eram aquelas meninas? Que direito tinham de formar uma opinio to errada a respeito dela? Como no era de fugir de um confronto e sempre enfrentava todas as situaes 
difceis, deu a volta para o outro lado e declarou:
      - Eu no sou metida!
      As colegas a fitaram espantadas, de olhos arregalados e boca aberta. Nenhuma delas respondeu nada. Selena percebeu que eram de sua turma. Sentindo que no 
tinha mais nada a dizer, virou-se e saiu pisando firme. Puxou as roupas de ginstica do escaninho e foi andando apressadamente para a porta.
      Pra mim chega! J chega! Vou sair daqui. Quem essas "patricinhas" pensam que so para dizer que sou convencida? Eu nunca fui convencida! Sempre fui de fazer 
amizades logo. Eu me esforo ao mximo para ajudar todo mundo a se enturmar. No sou metida, no! Elas  que so.  por isso que vou sair desta escola.
      Destrancou a porta do carro e atirou dentro os objetos e o uniforme de ginstica. Queria que aquele carro tivesse mais potncia. Assim poderia arrancar a mil 
por hora, e aquelas garotas iriam ouvir os pneus cantarem. Infelizmente, o veculo no fora feito para facilitar exploses temperamentais. S a tarefa de lig-lo 
j era bem difcil. Contudo Selena saiu o mais depressa que pde, dizendo a si mesma que se acalmasse, que deixasse para l e que apagasse aquele incidente da memria.
      Quando chegou em casa, porm, estava mais irritada. Entrou pisando duro e foi direto para o quarto. Tnia estava se aprontando para ir trabalhar, o que aumentou 
sua raiva. No tinha nem um lugar em que pudesse ficar a ss, um quarto s dela. Tirou algumas roupas da cadeira de balano e jogou-as na cama.
      - O que aconteceu para deixar voc to nervosa? indagou a irm, que naquele momento colocava na cintura um cinto largo.
      - Detesto tudo isso aqui, replicou Selena. Queria que a gente nunca tivesse mudado, que ainda estivssemos l em casa.
      - Voc j tentou aceitar este lugar aqui como sua casa? perguntou Tnia.
      - Claro! No me diga que voc gosta mais daqui do que de Pineville!
      A cadeira de balano vazia parecia convid-la para refugiar-se nela, para se acalmar, mas Selena se recusou a sentar.
      - Gosto. Adoro isso aqui! respondeu Tnia. E voc tambm vai gostar.  s querer. Portland tem muito mais oportunidades para ns do que Pineville. O que aconteceu 
com voc, afinal?
      - Nada!
      - Ah, e voc acha que acredito nisso? Vamos l! O que aconteceu?
      - Est bem, replicou Selena. Quer saber? Vou dizer. Umas garotas daquele maravilhoso colgio evanglico disseram que sou metida.
      - E voc deu motivo para que pensassem isso?
      - Claro que no!
      - Elas eram amigas suas?
      - No tenho nenhuma amiga l, continuou Selena, rendendo-se e sentando-se na cadeira, com os braos cruzados.
      Tnia jogou o cabelo para trs e olhou para a irm. 
      - Quer saber? s vezes no a entendo.  to inteligente e to burra ao mesmo tempo.  to madura e to infantil! Est totalmente cega com relao a essa questo, 
no est? Se quer arranjar uma amiga, primeiro tem de procurar ser amiga.
      - Ah! exclamou Selena, fazendo uma leve careta para Tnia. No quero arranjar nenhuma amiga l.
      - Hummm! Ento est timo! A est uma deciso inteligente!
      Tnia pegou a bolsa e saiu caminhando em direo  porta.
      - J vai trabalhar? indagou Selena.
      No via a hora de ficar sozinha no quarto. Ao mesmo tempo, porm, no queria que a irm sasse. Ainda no. Primeiro precisava desabafar tudo com ela.
      - J. E depois do trabalho vou sair com umas colegas da loja com quem fiz amizade. Aprenda comigo, sua teimosa.  assim que se age.
      Abriu a porta para sair, mas antes virou-se e deu uma ltima alfinetada.
      - E j falei com papai e mame que vou sair e a que horas vou coltar, embora no precisasse ter dito nada, j que tenho dezoito anos.
      Selena pegou um chinelo e mandou-o em direo  porta, no momento exato em que Tnia a fechava.
      - J que tenho dezoito anos! repetiu, arremedando-a.
      Detestava o fato de ter s dezesseis. Detestava mesmo! Que idade horrvel! Todo mundo dizia que era to lindo ter dezesseis anos! Era nada! Ela podia dirigir, 
mas s tinha permisso para ir  escola. No tinha amizades, no ia a lugar algum. No tinha nada para fazer numa sexta-feira  noite, a no ser ficar em casa, nutrindo 
sua autopiedade.
      Em Pineville, pelo menos tinha muitos amigos com quem poderia se encontrar. E ela tivera o mrito de esforar-se para cultivar essas amizades, quando teria 
sido mais fcil deixar para l. No precisava de que Tnia viesse ensinar-lhe como se faz amizade com outros. Selena sabia tudo que dizia respeito a essa questo. 
Poderia at dar uma aula sobre o assunto. Mas  claro que ningum pede a uma garota de dezesseis anos para ensinar nada.
      - Selena! era sua me, batendo de leve  porta. Posso entrar?
      - Acho que sim.
      Mame abriu e entrou, acompanhada de V May.
      Ah, timo! Agora tenho duas para falar no meu ouvido, justamente o que eu precisava.
      Selena at que gostava de conversar com a me. E por vezes adorava abrir-se com V May tambm. Contudo falar com as duas ao mesmo tempo, quando se sentia meio 
pra baixo, a j era demais.
      V May sentou-se na cama de Tnia, que alis estava muito bem arrumada, e deu um olhar crtico para a de Selena, toda bagunada. Mame arrastou uma cadeira 
para perto da ilha e ficou de frente para ela, a um metro de distncia. As trs formavam um pequeno tringulo, e no ar havia certa tenso.
      - Sei que meu lado do quarto est desarrumado, disse Selena, querendo uma "cortina de fumaa" para desviar a ateno das duas do seu problema. Vou aproveitar 
o final de semana para dar uma boa arrumada nele.
      - timo! disse mame. Acho muito bom quando voc arruma o quarto. Mas queria conversar sobre outro assunto.
      Selena deu de ombros.
      - Tenho notado, continuou a me, que est sendo um pouco difcil para voc adaptar-se aqui. Quero saber se h algo que eu possa fazer para ajud-la a ajustar-se 
melhor.
      - Pode deixar que eu v para uma escola pblica. No quero ficar no Colgio Royal. Fiz experincia durante uma semana, como a senhora pediu. Mas l no  o 
tipo de escola de que eu gosto.
      - E qual  o tipo de que voc gosta? perguntou V May.
      Selena teve vontade de responder:
      "Uma escola grande, com muitos alunos, onde eu no 'aparea' e possa terminar esse ano e meio que falta o mais depressa possvel e sair logo."
      No entanto decidiu no dizer isso.
      - No sei bem, replicou. S sei que do Colgio Royal eu no gosto.
      - Vamos ter de conversar com seu pai a respeito disso, falou mame em tom calmo. Tenho certeza de que teremos oportunidade de acertar esse assunto durante 
o final de semana. Alm da escola, h algo mais lhe incomodando?
      - No.
      Mame ficou em silncio durante alguns instantes e depois prosseguiu:
      - O Wesley vai chegar mais ou menos daqui a uma hora. Pensei em irmos a uma pizzaria. Depois, se quiserem, voc e ele podem pegar um cinema.
      Enquanto mame falava, V May se levantou e foi caminhando para a velha cmoda que estava naquele quarto havia vrios anos. Ela se inclinou para olhar-se no 
espelho que ficava acima dela, preso  parede. Selena comeou a imaginar se ela no estaria voltando ao passado. V May tocou as ruguinhas dos cantos dos olhos e 
examinou-as durante alguns segundos.
      - Que estranho! exclamou. Parece que foi ontem mesmo que fiz doze anos! Tenho certeza disso!
      Selena e mame se entreolharam rapidamente.
      - Podemos tambm pedir as pizzas pelo telefone, continuou mame em voz baixa.
      Selena deduziu que a me estava com receio de ir com V May a um lugar pblico, caso ela estivesse tendo uma de suas crises.
      - Sabe? disse V May, virando-se para as duas. O tempo passa assim, afirmou, estalando os dedos e olhando para a neta. A velhice chega depressa demais, queridinha. 
Vou l embaixo tomar caf. Algum quer vir comigo?
      Selena e a me ficaram ainda mais admiradas. V May a chamara de "queridinha", o que indicava claramente que estava lcida. Ento o que significava aquela 
olhada para o espelho e aquele negcio de dizer que fora "ontem mesmo" que fizera doze anos? Selena se indagou se a av percebera sua ansiedade para se tornar adulta 
e, indiretamente, estava lhe dizendo para levar a vida mais devagar.
      - Eu vou, replicou a me. Vou com a senhora.
      - E eu vou arrumar meu quarto, falou Selena. Creio que as duas vo ficar muito satisfeitas com isso.
      - E Tnia vai ficar encantada! comentou mame, levantando-se e seguindo V May.
      Selena ficou sentada na cadeira mais alguns momentos, balanando-se devagarinho. Depois ergueu-se, foi ao espelho e olhou-se longamente como a av fizera. 
Passou-lhe pela mente que aquele espelho era mgico, e que ela iria ver nele sua imagem quando tivesse 68 anos. Entretanto viu apenas o nariz cheio de sardas, o 
cabelo bem anelado e os olhos azul-acinzentados, onde ainda no havia nenhuma ruga.
      Sorriu fechando um pouco os olhos, tentando fazer com a pele enrugasse, como acontecia ao seu pai quando ele estava com vontade de chorar, mas ria, procurando 
reprimir o choro. Aquilo lhe deu um ar de mais velha. Relaxou a expresso e examinou-se de novo.
      Meus olhos so da mesma cor dos de Paul, pensou. Aquele comissrio de bordo tinha razo. Nossos olhos so iguais. Se ao menos ele enxergasse a vida do mesmo 
jeito que eu...
      Nesse momento, Selena orou pelo rapaz, como j fizera diversas vezes durante a semana.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Treze
      
      
      - Que pizza vocs vo querer, pessoal? Calabresa e o que mais? indagou Wesley, que se encontrava ao lado do pai, na fila para fazer os pedidos.
      Ele era parecido com a famlia da me: alto, de cabelo castanho bem ondulado e nariz reto e comprido. Os olhos, porm, eram como os do pai, castanhos e com 
pequeninas rugas nos cantos.
      - Quero de abacaxi, disse Kevin.
      - E eu com azeitona, pediu Dilton.
      - Vamos procurar uma mesa, sugeriu a me. Em quantos somos?
      - Sete, respondeu Selena, fazendo a conta rapidamente.
      A pizzaria estava cheia, o que indicava que provavelmenie a pizza era boa. As trs mulheres e os meninos foram andando por entre as mesas e conseguiram encontrar 
uma grande num dos cantos. S precisariam arranjar mais uma cadeira para a ponta da mesa. Volta e meia isso acontecia quando a famlia toda ia jantar fora. Parecia 
que na maioria dos lugares tudo era preparado para grupos de quatro pessoas, o que acabava causando certa frustrao  famlia Jensen.
      O ambiente era aconchegante, as cadeiras forradas em vinil vermelho e as mesas cobertas de toalhas xadrezes. Em cada uma delas havia bases de metal para as 
pizzas, com velas vermelhas por baixo, para mant-las aquecidas. No teto, estavam suspensas de cabea para baixo, uma mesa e duas cadeiras, completamente postas, 
com uma pizza de plstico e at um vasinho de flores. Percebia-se que estava tudo bem preso, mas Selena logo imaginou que aquilo poderia causar confuso na mente 
da V May. Entretanto at o momento ela estava indo muito bem.
      Kevin e Dilton, que haviam se afastado um pouco, voltaram correndo, pedindo moedas para brincar no fliperama que havia num salo contguo.
      - Eu no tenho, falou Selena, depois que os dois j haviam passado pela me e por V May.
      A moa estava usando uma bermuda comprida de cotton, com uma suter bem larga de gola role e suas botas de cowboy. Sua roupa no tinha bolso, e ela nunca usava 
bolsa. Alis, nem tinha bolsa.
      -  melhor pedir ao Wesley. Talvez ele at v l jogar com vocs.
      Os dois garotos saram apressados  procura do rapaz, que algumas vezes agia com eles mais como um tio amigo do que como irmo. Como Selena previra, Wesley 
resolveu ir ao fliperama com eles enquanto esperavam a pizza.
      Cerca de quarenta minutos mais tarde, depois de terem devorado duas pizzas tamanho gigante, a famlia Jensen saiu em dois carros. Mame, papai, V May e os 
meninos foram para casa. Wesley e Selena foram ver um filme a que o rapaz desejava assistir.
      Ela ficou calada durante todo o percurso, e o irmo nem notou isso; pelo menos foi o que pareceu. Ele tinha muito que contar. Falava de sua camionete, das 
aulas na faculdade, do trabalho de meio expediente num supermercado. Ele tinha vinte e trs anos e estava no terceiro ano na Universidade Estadual do Oregon. O que 
Selena mais apreciava no irmo era que ele a tratava como igual, e no como uma garotinha mais nova.
      Wesley parecia conhecer as ruas de Portland melhor que ela. Afinal ela se ps a falar e lhe contou que, alguns dias antes, se perdera na cidade e fora parar 
na Faculdade Lewis e Clark.
      - E a, acha que vai estudar l no ano que vem ou prefere a minha?
      - Ei, espere a. Ainda estou no segundo ano, replicou ela. Ainda tenho um ano e meio para decidir.
      - Ah ! Esqueci. Desde que voc tirou a carteira de motorista, fico pensando que j vai se formar este ano.
      - No, ainda no, embora, para mim, quanto mais cedo melhor.
      - O que est achando de Portland?
      - Mais ou menos. A Tnia est gostando muito daqui.
      Entraram no estacionamento do cinema. Selena saltou da camionete e Wesley verificou se as portas estavam bem trancadas. Meses antes, ele estacionara perto 
da casa de um amigo, e seu rdio fora roubado. Agora o rapaz procurava ter o mximo cuidado com o carro, j que ele prprio estava pagando as prestaes dele e o 
seguro total.
      Entraram na fila para comprar os ingressos, e Selena teve um leve estremecimento. A noite estava fria e mida. Desejou ter trazido um agasalho. Costumava sentir 
frio dentro de cinemas. Talvez fosse porque sempre dava o azar de ficar debaixo do aparelho de ar condicionado. Assim que entravam no saguo, Selena estremeceu de 
novo. Wesley passou o brao em torno dela e ficou a massagear-lhe a pele de leve para aquec-la. Teriam de esperar alguns minutos para que o pessoal da sesso anterior 
sasse.
      Enquanto estavam ali parados, Wesley aconchegou-a um pouco mais e disse-lhe ao ouvido:
      -  to bom rever voc, Selena! Que bom que sua estada na Europa foi agradvel e que voltou em segurana para casa!
      Selena sorriu para o irmo, com sincera admirao.
      - Obrigada! replicou.
      De repente, com o canto do olho, avistou um chapu marrom. Soltou-se do irmo e correu os olhos pelo rio de gente que ia saindo do cinema. A uns cinco passos 
dela, estava Paul. O rapaz ia caminhando no meio do pessoal que saa, mas estava com a cabea virada para trs, olhando fixamente para ela. Selena retribuiu-lhe 
o olhar.
      - Viu algum conhecido? indagou Wesley, retirando o brao do ombro dela.
      -Vi.
      - Quer ir l cumpriment-lo? Ainda faltam alguns minutos para o filme comear.
      Por uns instantes, Selena ficou indecisa. Deveria correr atrs de Paul? Ele j estava quase saindo para a rua. E se estivesse acompanhado, por exemplo, de 
Jalene? Selena no vira ningum ao lado dele.
      Se ele quisesse conversar comigo, raciocinou, poderia perfeitamente ter parado e falado pelo menos "Oi!".
      Ento se lembrou de que, na hora em que Paul pai Wesley estava com o brao em torno dela, cochichando algo seu ouvido. Ele deve ter pensado que o irmo era 
seu namorado.
      - Quer que eu v com voc? indagou Wesley. Quer que espere aqui e guarde lugar para voc, ou o qu?
      - Vamos entrar, replicou Selena. Acho que no consigo mais peg-lo.
      Eles foram seguindo pelo corredor.
      - Quer pipoca? indagou a jovem.
      - Est brincando! Depois daquela pizza toda, voc ainda tem disposio para comer pipoca?
      Pra falar a verdade, estou sentindo o estmago meio vazio. Voc ainda tem algum dinheiro a?
      Com aquele jeito de tio "amigo", Wesley tirou do bolso uma nota de 5 dlares e deu  irm.
      - Pega um refrigerante grande tambm pra ns dois. Qualquer um serve, desde que no seja com sabor de laranja. Vou guardar um lugar pra voc.
      Selena foi para a pequena lanchonete do cinema e entrou na fila. Todavia ficou olhando para fora, para ver se por acaso Paul ainda estaria por ali. Pensou 
que, se ele a visse sozinha, talvez voltasse para conversar com ela. Entretanto reconheceu que a idia era meio absurda.
      E quanto mais pensava no caso, mais achava que o prprio de t-lo visto j era bastante estranho. Quais as probabilidades de os dois se reencontrarem nessa 
cidade grande? Sentia-se meio desinquieta por ter visto o rapaz no cinema e Jalene no posto de gasolina.
      Katie talvez dissesse que aquilo era "coisa de Deus". E era mesmo, j que, quando o via, ela se lembrava de orar por ele. Contudo Selena achava tais encontros 
"esquisitos" ou "muito estranhos". Por que ela deveria ter esse tipo de ligao com o rapaz?
      - s suas ordens! disse-lhe a balconista.
      - Um pacote mdio de pipoca com manteiga e uma Coca grande.
      - No temos Coca. Pode ser Pepsi?
      - Claro. Tudo bem, replicou Selena.
      Pensou que as pessoas no deveriam fazer perguntas to idiotas, principalmente quando ela estava to imersa em seus devaneios, pensando em Paul e nos estranhos 
encontros que tivera com ele. Coca, Pepsi. Era tudo a mesma coisa.
      - So $6,50, informou a atendente.
      - Seis dlares e cinqenta por uma Coca e a pipoca?
      - Pepsi e pipoca, disse a outra, corrigindo-a.
      - Est bem. No quero a pipoca. Vou levar s a Co...a Pepsi.
      Selena deu-lhe a nota de $5,00. A moa entregou-lhe um copo grande com o refrigerante cheio de gelo e duas notas de $1,00 de troco.
      - Isso  um roubo! exclamou, antes de virar-se para sair. Sei que voc apenas trabalha aqui e que no  sua culpa, Mas o preo desse negcio aqui  um absurdo!
      Saiu pisando firme e abanando a cabea. No se importava nem um pouco de as pessoas que estavam atrs dela na fila terem ouvido sua reclamao. Agora s lhe 
interessava ir aonde Wesley estava, sentar-se e curtir o filme. Precisava relaxar.
      Nesse instante, compreendeu que no era por causa do preo da pipoca que estava irritada. J pagara esses mesmos valores antes e nem se importara. O que a 
deixara transtornada fora o fato de ter visto Paul. Simplesmente transferira a emoo que sentira ao v-lo para o problema do preo da pipoca.
      - Cad a pipoca? indagou Wesley, assim que ela passou por ele para sentar-se.
      - Mudei de idia, replicou. Olha o troco. E eu trouxe Pepsi est bem?
      - Ah, ento no tinha Coca, n?
      - E qual  a diferena? indagou ela, meio rspida.
      - Ei, calma! falou Wesley, inclinando-se para trs e olhando bem para a irm. O que  que est havendo?
      - Nada. Desculpe!
      Selena acomodou-se bem na poltrona. O filme comeou e ela sentiu que precisava relaxar. S havia um problema. Era uma histria de espionagem. Primeiro, uns 
caras saltaram de pra-quedas. Depois um sujeito estava perseguindo outro de motocicleta em alta velocidade. Havia tanto suspense que Selena ficou sentada na ponta 
da cadeira o tempo todo. Quando terminou, percebeu que os dedos dos ps lhe doam, pois inconscientemente os encurvara dentro da bota durante boa parte da sesso.
      - Excelente filme, no ? comentou Wesley assim que saam.
      - Pelo menos tinha muita ao, replicou ela. Eu no sabia que era capaz de ficar de flego suspenso por tanto tempo.
      - Por quanto tempo? indagou ele, abrindo para ela a porta da camionete.
      - Mais ou menos duas horas.
      Wesley riu.
      - Os efeitos especiais foram muito bons, principalmente na cena em que o cara caiu na gua, conseguiu livrar-se das algemas e depois soltar-se do pra-quedas.
      - Foi um bom filme, comentou Selena, fazendo que sim. Obrigada, Wesley.
      - Quer ir tomar um caf? perguntou o irmo.
      - No. Prefiro ir para casa. E voc?
      - Claro, vamos. Eu trouxe um bocado de textos para ler no final de semana. Seria bom se j comeasse hoje mesmo.
      Assim que entraram em casa, Selena foi direto para a cama. O quarto estava bem arrumadinho, pois ela passara mais ou menos uma hora ajeitando tudo.
      No imaginara que, depois de guardar tudo direitinho, iria sentir-se to mais "em casa" assim. Enquanto estivera tudo espalhado por ali, e alguns objetos ainda 
dentro da maleta que levara  Inglaterra, tinha a impresso de que sua estada naquela casa seria apenas temporria. Mas assim que arranjou tudo e pendurou as roupas 
junto com as da mudana - que uma "fada boa" organizara para ela - sentiu que estava ali para ficar. S no tinha muita certeza se deveria achar isso bom ou ruim.
      Tnia ficaria contente de ver o quarto arrumado; isso eia bom. Ela ainda no chegara, pois sara com umas amigas aps o trabalho.
       claro que ela tem de gostar daqui. Ela mesma trouxe sua mudana e colocou tudo no quarto do jeito que queria. Tnia j est aqui h um ms. Eu s estou h 
uma semana. Tenho a sensao de que todo mundo est ajustado, menos eu. Quando cheguei, todos j estavam adaptados para esta nova vida, e agora tenho de "correr" 
para peg-los.
      Selena se ps a ler a Bblia e, depois de algum tempo, sentiu as plpebras pesadas. Apagou a luz e ficou deitada, limpando os dentes com um fio dental com 
gosto de menta, que encontrara quando tirava as roupas da mala.
      Em meio ao escuro do quarto, a mente de Selena ficou cheia de pensamentos confusos, todos ocorrendo ao mesmo tempo. Como um caleidoscpio mental, foi lembrando 
os acontecimentos. Inicialmente reviu as garotas falando dela no vestirio da escola. Depois veio a imagem de V May diante do espelho, procurando no rosto os traos 
da juventude. Por ltimo, foram os olhares que trocara com Paul. O primeiro fora junto ao guich de cmbio no aeroporto. O seguinte, no avio. O outro junto ao local 
de recolhimento da bagagem. E agora, ainda outro, nesta noite, no cinema. Por que ele olhara para ela?
      Por uns momentos, achou que, pelo fato de terem os olhos parecidos, ele via nos dela uma espcie de espelho. Parecia que ele estava procurando algo. O que 
seria?
      No entanto no havia nada que ela pudesse fazer, a no ser orar por ele. E orou. Como um guerreiro destemido a empunhar uma espada, Selena pediu a Deus que 
o protegesse, que ele fosse liberto das garras do inimigo, que terminasse o namoro com Jalene ou que a jovem se convertesse. Depois pediu que ele se sentisse incomodado 
enquanto no voltasse a acertar seu relacionamento com o Senhor. Orou durante um bom tempo, at sentir os ombros comearem a relaxar. Era hora de bater em retirada. 
J batalhara muito por hoje.
      Tnia entrou no quarto, e Selena fingiu que estava dormindo.
      
      
      
Captulo Quatorze
   

      
      Selena sempre gostara da maneira de agir de seus pais com relao a questes difceis e at meio constrangedoras. Eles eram abertos e conversavam sobre tudo 
com os filhos. Ento dessa vez ela teve uma surpresa. Quando lhes disse que queria sair do Colgio Royal, eles lhe pediram que ficasse mais uma semana.
      - Mas, me, a senhora falou que eu poderia experimentar s uma semana. Eu tentei, mas no gostei.
      - Ns achamos que a experincia no foi muito vlida, disse o pai com voz firme. Voc tinha acabado de chegar em Portland, depois de uma viagem longa. No 
tinha tido tempo suficiente nem para se adaptar ao seu quarto. Queremos que faa uma avaliao mais justa, Selena. Precisa ser mais justa consigo mesma, com os colegas 
da escola e conosco. Se tivssemos certeza de que tinha agido assim, iramos transferi-la para a Escola Madison hoje mesmo. Vamos experimentar s mais uma semana. 
E dessa vez faa uma avaliao mais justa, est bem?
      Nesse momento, Wesley entrou na cozinha, fechando o zper de seu bluso.
      - Vou levar o Brutus para fazer uma caminhada. Algum quer ir comigo?
      - Eu quero, exclamou Selena, saltando da cadeira, com pressa de encerrar a conversa.
      Sentia que estava a ponto de dizer algo de que mais tarde talvez se arrependesse. Como isso j lhe acontecera inmeras vezes, estava aprendendo que era melhor 
sair e penssar um pouco mais na situao.
      - Ento v pegar um agasalho porque est fazendo muito frio, disse o irmo. Algum ouviu a previso do tempo hoje? Ser que vai nevar?
      - Eu no ouvi nada, replicou papai.
      Selena subiu ao quarto e voltou, instantes depois, vestindo um bluso e calando as luvas.
      - Espero que voc consiga dar um jeito nessa melancolia do Brutus, disse mame. Desde que chegamos aqui, ele anda muito diferente.
      - Pois estou achando que ele no  o nico, comentou Wesley.
      - O que voc quer dizer com isso? indagou Selena, sem saber se ele se referia a ela ou no.
      - Quero dizer que uma mudana causa um certo stress na gente, respondeu ele, olhando para a irm por sobre o ombro. Os psiclogos elaboraram uma lista de fatos 
da vida que causam sofrimento e, ao lado de cada item, do a escala das emoes que o ser humano pode suportar. A mudana de um lugar para outro est quase no mesmo 
nvel que a morte de um ente querido e a perda do emprego. Vi esse estudo numa aula de Psicologia.  muito interessante saber quais so os eventos que causam stress. 
At a prova final est na lista. E como essa  minha grande preocupao no momento, pensei em fazer uma caminhada com o Brutus para dar uma relaxada e aliviar um 
pouco a tenso. Est pronta, Selena?
      - Estou. Tambm tenho umas tensezinhas para aliviar. Vamos l.
      - Pense bem naquilo que conversamos, disse o pai, no instante em que os dois saam. Ainda vamos falar mais sobre isso durante o final de semana.
      - Est bem, replicou ela. Mas eu queria que o senhor e a mame pensassem no meu lado tambm. 
      - Claro, assentiu o pai. Ei, e eu quero essa minha camisa de volta.
      Oh, pai, voc no usa mais esta camisa velha de flanela, falou Selena, puxando as pontas da roupa.
      Ela vestira um bluso jeans que era mais curto que a camisa do pai, e as pontas dela apareciam abaixo do agasalho.
      - Eu a encontrei num monte de roupas que est l no poro, continuou Selena. Pensei que estava l para ser posta na sacola de doaes.
      - No; aquelas peas esto ali para ser remendadas. Nessa camisa est faltando um boto, concluiu o pai, dando um olhar meio brincalho para sua me, que por 
sua vez deu de ombros.
      Selena vestira uma malha grossa e, sobre ela, colocara a camisa do pai, mas no a abotoara. Por isso nem dera pela falta do boto. Mas entendeu o que o pai 
quisera dizer. Sua me tinha muitas qualidades, mas costurar no era seu ponto forte. Selena se lembrava de que, desde que era menina, vira o pai vrias vezes sair 
com uma camisa faltando um boto ou com um fecho estragado.  claro que a me procurava esforar-se para fazer esses pequenos consertos, mas s vezes s o fazia 
depois de alguns meses.
      - Ento posso ficar com aquela outra, a camisa azul grossa? indagou Selena.
      O pai olhou para a me e disse:
      - Nunca pensei que um dia iria brigar com minha filha por causa de minhas roupas.
      - Filha, interveio a me, voc no deveria dar uma passada naqueles brechs que h em Hawthorne?
      Selena se lembrou de que uma de suas colegas comprara um vestido numa dessas lojas. Qual era mesmo o nome?
      - , acho que vou mesmo, depois que voltar da caminhada. Quer ir comigo, me?
      - No sei. Quando voc estiver pronta para ir, me fale, est bem?
      Selena foi para o quintal. Wesley estava alisando o plo de seu amigo e "rosnando" para ele.
      - Vamos l, Brutus, vamos dar uma caminhada com Selena.
      Prendeu a correia na coleira do co, e este rosnou, como que concordando. Eles foram saindo rua abaixo. Brutus parava a cada dois segundos para farejar um 
ou outro ponto e fazer o reconhecimento do lugar.
      - , parece que vamos levar a tarde toda, comentou Selena.
      Estava to frio que ela via a respirao saindo em pequenas nuvens de fumaa. Agora percebia que o bluso jeans era muito fino, e sentia a umidade atravessar 
a camisa e a malha grossa.
      - Isso vai ser timo para ele, falou Wesley. Creio que ele estava triste porque ainda no conhecia direito o bairro. Agora vai arranjar alguns amigos.
      De fato parecia que o cachorro estava mesmo apreciando o passeio. Algumas casas abaixo, ele deu uma rosnada forte para um buldogue que se achava do outro lado 
da cerca. Os dois se cumprimentaram na lngua dos cachorros. Selena ouviu outros co ganindo do outro lado da rua.
      - Parece que o outro l tambm quer entrar na conversa, disse ela.
      Wesley deu um puxo na correia, e Brutus encerrou o papo, dando uma corridinha para o outro lado para farejar e latir com o que estava atrs da outra cerca, 
um cozinho malhado.
      Wesley e Selena andaram quase uma hora acompanhando Brutus, vendo-o "aterrorizar" os animais do bairro. Parecia que ele estava recuperando seu jeito prprio.
      Selena estava batendo o queixo e tremendo de frio quando dobraram a esquina para entrar na rua de V May. A casa era uma das maiores do quarteiro e possua 
caractersticas bem marcantes. Na frente dela, havia dois altos olmos, como se fossem duas sentinelas postadas  entrada da varanda. Fazia mais de oitenta anos que 
aquelas rvores estavam ali, em seu posto. No vero, davam sua sombra  casa branca, que lembrava uma elegante dama vitoriana. E no outono, derramavam sobre ela 
suas folhas douradas.
      Selena teve de reconhecer que amava aquela velha casa. Lembrou-se de que, quando era criana, ela lhe parecia um castelo. Ela e os irmos a chamavam de "manso 
da V May". Sempre que vinham passar as frias ali, Selena fingia que aquela era a sua asa e fantasiava que vivia na poca das charretes puxadas a cavalo. No meio-fio 
da calada, ainda havia anis de ferro onde, um sculo atrs, eles amarravam os animais. Houve um dia em que Tnia e Selena amarraram neles suas bicicletas, com 
suas cordas de pular. E V May entrara na brincadeira. Viera  porta com alguns cubinhos de acar e fingira d-los para os cavalinhos imaginrios.
      Agora Selena estava vivendo na realidade seu sonho infantil de morar naquela maravilhosa manso. No entanto no queria ficar ali.
      - Vamos l, Brutus, disse Wesley, voc j caminhou muito por hoje. E se pra voc ainda no foi o bastante, pra mim, j.
      Ele entrou e foi direto para o quintal, tirando a correia da coleira. Brutus parecia ainda no ter esgotado o interesse pela vizinhana. Correu para o porto 
do fundo e deu algumas latidas. Em seguida, disparou para um dos lados do quintal e ficou latindo para uns esquilos que se achavam em cima de uma rvore na casa 
contgua.
      - O que vocs fizeram com ele? indagou mame, abrindo a porta para que os dois entrassem na casa aquecida.
      Selena sentiu cheiro de canela no ar, e na mesma hora, ficou com fome.
      - O que a senhora est fazendo, me? indagou.
      - Torta de ma. Como foi que vocs conseguiram reanimar o Brutus?
      - Fomos dar uma volta por a para ele conhecer a vizinhana, explicou Wesley, abrindo o forno e dando uma espiada.
      A habilidade que mame no tinha para costura. sobrava na cozinha. E torta de ma era a sobremesa predileta de Wesley.
      - Voc  a melhor me do mundo! exclamou o rapaz. Quando  que vai ficar pronto?
      - Daqui a quinze minutos. Vocs dois vo algo comer primeiro. Na geladeira, tem fatias de peito de peru para fazer sanduche.
      - Acho que vou fazer uma sopinha bem quente, falou Selena.
      Sentia a garganta meio spera e ainda estava com frio por causa da caminhada.
      - Depois que voc lanchar, quer ir a alguns daqueles brechs? indagou a me. V May subiu para deitar um pouco. Acho que agora seria uma boa hora para irmos.
      - Claro! replicou Selena.
      Sempre tinha disposio para andar pelas lojas, principalmente pelas de roupas usadas.
      - Vamos agora, ento, continuou. Eu como depois que voltarmos.
      - O. k.! Wesley, ento voc tira a torta do forno pra mim, est bem? Vou s pegar minha bolsa. Voc tem dinheiro?
      - Tenho $15,00. Vou buscar.
      Selena subiu os degraus de dois em dois e entrou no quarto quase sem flego.
      - Aonde  que vocs vo? indagou Tnia, que estava sentada a mesa, fazendo as unhas.
      - A uns brechs. Mame vai comigo. Voc quer ir?
      Selena sabia que no adiantava convidar a irm. Ela s fazia compras nas lojas mais elegantes. Comprar roupa barata, para ela, s em liquidao de alguma loja 
sofisticada.
      - No, obrigada! respondeu a outra educadamente. Divirta-se!
      Selena pegou o dinheiro e desceu as escadas correndo. Mame j estava esperando-a, vestida com um casaco longo, luvas e um leno de cabea. Selena pensou na 
possibilidade de pegar um ngasalho mais grosso, mas desistiu. Lembrou-se de que o carro estaria quente assim que ligassem o aquecimento.
      Contudo no esquentou logo. Elas foram no furgo, e o sistema de aquecimento dele era meio lento. Quando chegaram  primeira loja, ele mal soltara algumas 
baforadas de ar quente. Selena estava gelada.
      A loja tinha muitos artigos bons, mas estava muito fria. Selena sentiu o entusiasmo para fazer compras ir morrendo devagar. No entanto, como era muito teimosa, 
no desistiu do intento inicial. Foi s trs lojas as quais havia planejado ir. Gastou seus quinze dlares e mais oito da me.
      O melhor estoque era o da terceira, que se chamava A Wrinkle in time. Lembrou-se de que fora esse o nome que sua colega mencionara no primeiro dia de aula. 
A garota - como seria o nome dela? - tinha razo. Havia ali uma fantstica coleo de roupas diversas, de baixo preo, exatamente do gosto de Selena. Ela sentiu 
vontade de ter muito dinheiro para comprar tudo de que gostasse.
      No fim, acabou comprando um chapu de veludo prelo, um coletinho cor de creme, duas camisas de modelo masculino e uma saia longa, que tinha na cintura uma 
fita, nas pontas da qual estavam presos dois pequeninos guizos. Pensou em mostrar  colega o chapu que comprara, mas a se lembrou de que, se os pais concordassem, 
no iria voltar ao Colgio Royal na segunda-feira. Selena subiu para o quarto com seus novos "tesouros" e colocou-os sobre a cama.
      - O que voc comprou? indagou Tnia, que se achava sentada nas almofadas da ampla janela, toda encolhidinha.
      A moa estava de culos - que Selena achava muito engraados - lendo um romance grosso. Tnia era o tipo de pessoa que morreria de vergonha se algum de quem 
ela gostasse viesse a saber que ela usava culos para ler. Selena colocou o chapu na cabea, inclinando-o meio de lado.
      - Ele at que  bonitinho, comentou Tnia. E est muito na moda agora. Comprou num brech?
      - Era uma dessas lojas que vendem roupas reformadas. Pode at ser tudo novo; no sei.
      - No seria bom lavar tudo com um desinfetante ou algo assim? indagou a irm, com uma expresso de ligeiro desagrado.
      Selena simplesmente ignorou a sugesto dela e foi tirando da sacola os outros artigos.
      - Esta aqui, disse, mostrando a saia, tem de ser lavada na mo e no se pode torcer, seno ela perde essas preguinhas. Tem de esprem-la. Tambm no precisa 
passar.  o tipo de roupa ideal para mim, no acha?
      - Tem um cheiro esquisito, disse Tnia. Lave bem essas roupas antes de usar, ouviu? Podem estar cheias de pulgas ou de piolhos ou coisa pior.
      - No se preocupe, replicou Selena. Vou lav-las agora. Eu sempre lavo, no lavo?
      - , acho que sim. Ah, e por falar nisso, achei muito bom voc ter arrumado o quarto ontem. Obrigada. Gostei mesmo.
      - Sabia que voc ia gostar.
      Selena tirou o chapu, puxou o cabelo para trs e fez um rabo-de-cavalo, prendendo-o com um passador.
      - Voc deve detestar ter de ficar no mesmo quarto comigo, no ? continuou Selena. No mundo todo no wxistem duas pessoas mais diferentes do que ns duas.
      Tnia deu de ombros e voltou  leitura.
      - Posso lhe fazer uma pergunta? indagou Selena.
      - O qu? resmungou Tnia, sem tirar os olhos do livro.
      - O que voc vai fazer quando encontrar sua verdadeira me?
      Tnia ergueu a cabea devagar e olhou para Selena por sobre os culos. Parecia que estava calculando o que poderia contar  irm.
      - Sei l. Vou conversar com ela. Fazer algumas perguntas como, por exemplo, qual  minha herana biolgica, quem  meu pai e por que ela resolveu me entregar 
para ser adotada.
      - Voc no est pensando em ir morar com ela nem nada, est?
      - Claro que no. Que idia! Se ela no me quis dezoito anos atrs, no vai me querer agora.
      -  possvel que ela quisesse sim, mas no tivesse condies de sustent-la, comentou Selena. Acho que, se eu fosse voc, tambm faria isso, iria procurar 
minha verdadeira me. S no sei como agiria depois, que tipo de relacionamento iria ter com ela.
      - Isso eu tambm no sei.
      - Como  que voc imagina que ela seja? indagou Selena.
      - No tenho a menor idia. Mas espero ficar sabendo muito em breve. Primeiro tenho de ajuntar dinheiro. Com a compra do carro, minhas economias foram a zero. 
Voc tem sorte de no ter esse tipo de preocupao, Selena. S tem de ir levando a vida. Os prximos dois anos sero os melhores, voc vai ver.
      - Sei disso, concordou Selena. Mas aposto que ser mais velha no  to ruim assim como voc est dando a entender.
      - Pois ento espere s para ver as responsabilidades que a gente tem quando se torna adulta. Agora voc est levando uma vid muito tranqila. No tem um carro 
e mais o seguro dele para pagar. No precisa se preocupar em arranjar emprego nem com mais nada. Ento, minha filha, aproveite bem enquanto pode. Esse tempo passa 
muito depressa.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Quinze
    
      
      No domingo, de tardinha, Selena resolveu conversar novamente com o pai sobre a questo da escola. Ele estava sentado  escrivaninha, preenchendo alguns cheques 
para fazer pagamentos, ouvindo um CD de msica de Bach. Ela no havia planejado falar com ele naquela hora, mas, alguns minutos antes, sua irm entrara no quarto 
com o telefone sem fio e pedira que a deixasse ali sozinha pelo menos uma hora.
      Selena estava sentada no cho, tirando alguns pertences de uma caixa, separando os que ia conservar e os que ia jogar fora. Ao ouvir o pedido da irm, levantou-se 
e foi para o quarto da av, no final do corredor, onde ficava a televiso. No momento, a famlia s tinha aquele aparelho de TV. Estavam esperando que papai terminasse 
o quarto de recreao, para depois comprarem um televisor novo, que seria colocado l. Dilton e Kevin estavam sentados na cama, assistindo a um desenho especial, 
e a V May cochilava, recostada num sofazinho perto da janela.
      Aquele era o cmodo mais bonito da casa. Ali havia uma pequena lareira, onde o fogo crepitava. Selena pegou uma coberta que estava dobrada ao p da cama e 
cobriu V May. Quando a ajeitava por baixo da av, esta deu um leve sorriso.
      - "O Senhor, teu Deus," murmurou V May, sem abrir os olhos, "est no meio de ti, poderoso para salvar-te; ele se deleitar em ti com alegria; renovar-te- 
no seu amor."
      Selena deu um beijinho na testa da av e terminou o versculo sussurando:
      "Regozijar-se- em ti com jbilo".
      Caminhando para a porta, disse aos irmos:
      - Meninos, quando acabarem a, acordem a V May para ela ir deitar na cama.
      - Ela disse que ns podamos sentar aqui, explicou Kevin.
      - Eu sei. Ela no se importa, no. Acho at que est gostando da companhia de vocs. Mas ela no pode passar a noite toda dormindo no sof, encolhida daquele 
jeito.
      - Ns vamos acordar ela, prometeu Dilton.
      Selena desceu para o andar de baixo. E foi a que entrou na saleta onde estava o pai. Deixou-se cair na poltrona junto  porta que dava para fora. Cada vez 
gostava mais daquela cadeira. Era sua predileta. Ningum da famlia ia muito quela saleta que chamavam de biblioteca. Havia um leve cheiro de mofo e de coisa velha 
no ar, pois as estantes estavam cheias de livros de alto a baixo.  esquerda do lugar onde ela estava sentada, havia uma grande lareira, com um aparador bem largo. 
Nele se via um relgio antigo, que tiquetaqueava seguidamente no silncio do aposento. Ao bater a hora, ressoava nele um sininho, que lembrava a Selena os carrinhos 
dos vendedores de sorvete.
      - Tudo bem com voc, filha? indagou papai, sem tirar os olhos do que fazia.
      - Tudo certo. Quando o senhor puder fazer uma parrada a, quero conversar. Mas no precisa interromper, no, pai.
      O pai largou a caneta, abaixou o som do CD e virou-se para ela. Recostou-se mais na cadeira giratria em que estava sentado e disse:
      - No tem importncia. Vamos conversar agora. Posso fazer isso outra hora. Sobre o que voc quer falar?
      - Sobre a escola.
      Ele inclinou a cabea para um lado e cruzou os braos. Se Selena estava compreendendo o que ele quisera dizer com sua expresso corporal, o pai estava dando 
a entender que continuava firme como uma rocha em sua deciso.
      - Eu no quero mesmo voltar para o Colgio Royal, disse a jovem. Se ficar l mais uma semana, s vou estar adiando o inevitvel, e ser mais difcil sair de 
l.
      - Como assim? indagou o pai.
      A verdade era que hoje ela j no estava to certa de que queria sair, como estivera na sexta-feira. Durante o final de semana, pensara em alguns dos alunos 
da escola e ficara imaginando como seria a vida deles. O Ronny, por exemplo; o que pai dele estaria fazendo no Nepal quando lhe comprara aquela jaqueta? E as garotas 
que ouvira conversando no vestirio? Certamente a acharam intragvel, pelo jeito como agira naquele dia. Estava comeando a ter vontade de ir l e pedir desculpas 
para elas. Detestava deixar os problemas assim no ar, sem resolver.
      Outra razo por que comeava a mudar de idia fora o que acontecera ao Brutus. Percebia que a situao dela era meio parecida com a dele. Em Pineville, ele 
j conhecia todo mundo da vizinhana. Em Portland, no estava reconhecendo nada. Depois que ela e Wesley deram uma volta com ele para que "conhecesse" os ces do 
bairro, ele melhorara. Nessa caminhada, ela compreendeu que ficara retrada, sentindo pena de si mesma, por uma razo semelhante  do Brutus. Pensara que o melhor 
a fazer seria mudar para uma escola grande, onde poderia passar despercebida no meio da multido. Hoje, porm, comeava a achar que talvez tambm devesse "dar uma 
volta" para conhecer melhor os colegas. Agora seria bem mais difcil, pois quando gritara para aquelas garotas que no era convencida, estava demonstrando justamente 
o contrrio.
      - No sei, respondeu afinal. Estou meio confusa com relao a tudo isso. No sei mais o que quero.
      O pai descruzou os braos e inclinou-se para ela.
      - Sabe o que , filha? Nenhum de ns parou para pensar que essa mudana seria muito penosa para voc. Em poucos dias, voc fez uma viagem  Europa - que s 
em si j  uma experincia marcante - depois ainda mudou de casa e de escola. Acho at que suportou bem esses baques.
      - Ah, sei no, disse Selena.
      - Ontem, quando o Wesley falou sobre aquela lista de acontecimentos da vida que causam stress, fiquei pensando no assunto. Voc teve o dobro de mudanas que 
ns tivemos; no, o triplo. Ns tivemos trs semanas de dianteira em relao a voc. Mas, no sei por que, ficamos querendo que voc chegasse e se encaixasse aqui 
do mesmo modo que ns. Ento  por isso que est se sentindo meio perdida. E  por isso tambm que achamos que deve ficar no Colgio Royal, como decidimos dois meses 
atrs. Acho que deve dar um pouco mais de tempo nessa escola.
      Selena soltou um suspiro. Reconhecia que o pai tinha razo, mas ainda estava tendo dificuldade em concordar.
      - Est bem, disse por fim.
      Foi a que Selena se lembrou que tinha dever de casa para fazer. Como pensara que no iria mais estudar nessa escola, resolvera no fazer os deveres.
      - Obrigada pelo papo, pai.
      - Nada, filha. Sempre que quiser, estou s ordens, replicou ele, girando a cadeira para ficar de frente para a mesa.
      - Boa noite, pai!
      Selena subiu rapidamente para o quarto. Tnia ainda estava falando ao telefone e fez uma caretinha quando a irm entrou. Selena pegou sua mochila e foi para 
a cozinha, pensando quais seriam os captulos do livro que teria de ler. Teve a sorte de encontrar um ltimo pedao da torta de ma. Aqueceu-o no microondas e pegou 
um copo de leite. Sentou-se num tamborete e espalhou os livros sobre a mesa. A se lembrou de que precisava fazer capas para todos eles.
      Quando eu estava decidida a no voltar para essa escola, estava tudo muito mais fcil. Nem acredito que mudei de idia to depressa. Talvez papai esteja certo. 
Estou debaixo de muita tenso. Foi por isso que tive uma atitude to errada com aquelas garotas.
      Selena resolveu que sua primeira tarefa no dia seguinte seria procurar as colegas e pedir desculpas. Quando acordou de manh, porm, sentiu a garganta dolorida, 
e mal conseguia engolir.
      - No estou fingindo, no, me, disse.
      Descera at a cozinha, no sem certa dificuldade, e pusera uma chaleira com gua no fogo.
      - Minha cabea est latejando. Meus ouvidos parecem entupidos e minha garganta di quando engulo.
      - Voc j no  mais criana, e eu no preciso decidir por voc se vai  aula ou no. Voc mesma resolve.
      - No vou conseguir ir, no, me. Estou me sentindo pssima.
      - Deve ser ressaca da viagem, interveio Dilton, com jeito de grande entendido no assunto.
      - Que ressaca que nada, replicou Selena. J faz uma semana e meia que cheguei. Estou ficando resfriada ou com inflamao na garganta.
      A gua da chaleira ferveu. Selena fez um chazinho de limo com ervas e adicionou uma colher de mel. Pegou a xcara com as mos meio trmulas e subiu para o 
quarto.
      Tnia j sara. As segundas-feiras, ela tinha uma aula s sete horas numa faculdade. Sozinha no quarto, Selena fechou a porta e foi direto para a cama. No 
cho ainda estavam os objetos que comeara a separar na noite anterior - a caixa, alguns papis e os dois montinhos. Tnia iria ficar muito irritada, mais teria 
de suportar aquela baguna mais um dia. Nesse momento, Selena s queria deitar-se, e mais nada.
      Quando estamos doentes, passam-se coisas estranhas pela nossa cabea. Aquelas horas, para Selena, acabaram se tornando uma mistura da realidade - onde tudo 
se passava muito depressa, sem tempo para pensar muito - com pesadelos horrveis, onde se via nas piores situaes possveis. Num desses pesadelos, ela sonhava com 
Paul. Ele estava na biblioteca com Jalene, e ela o estava beijando, como fizera no aeroporto. Em seguida, Paul era como um rob, que ia andando atrs da namorada, 
carregando os livros dela. E Jalene ia s colocando mais livros nos braos dele, a ponto de Paul no agentar mais.
      Ento, em dado momento, Selena entrou na cena. Estava num veculo enorme, que tinha o formato de um tablete de chocolate, e perseguia Jalene pelos corredores 
da biblioteca.
      Afinal ela fez um esforo para acordar e viu que estava em seu quarto. Correu os olhos pelos mveis e objetos do aposento. Sentindo a testa molhada de suor, 
teve vontade de tomar um banho bem quente. Isso provocou um novo pesadelo, com outra srie de imagens malucas. Tentava dar banho no Brutus, mas era ele quem acabava 
colocando-a na banheira, passando xampu na cabea dela e esfregando-a com sua pata felpuda. Em seguida, o co estava indo com ela para a escola. Dizia lhe que deveria 
procurar fazer amizade com os colegas, os quais se achavam junto  cerca do quintal das casas vizinhas, ganindo para ela. Sentiu uma mo na testa, o que a trouxe 
de voha para a realidade. Abriu os olhos.
      - Como est passando, queridinha? Trouxe-lhe um remdio para a garganta.
      V May ajudou-a a sentar-se e a pegar um copo cheio de um lquido verde-escuro. Com certeza era um dos famosos chazinhos da av. Selena sabia que aquilo no 
lhe faria mal. Mesmo assim poderia ter um gosto horrvel. Teve vontade de recusar a bebida, mas, se o fizesse, a av ficaria ofendida.
      Entendendo que tambm no seria muito legal tapar o nariz, Selena tentou prender a respirao e engoliu o remdio o mais depressa que pde. O gosto que sentiu 
na boca lhe deu arrepios.
      - Tem gua aqui? indagou.
      Sabia que bebera todo o seu ch, mas talvez tivesse trazido um copo d'gua para o quarto.
      - Vou pegar, queridinha, disse V May, saindo para buscar gua.
      Selena esperou um bom tempo. O remdio pareceu ficar com um sabor fermentado. Por fim ela no agentou mais. Foi ao banheiro e bebeu da torneira. Com a movimentao, 
a tonteira aumentou. Mal chegou de volta ao quarto, sentiu uma forte dor de cabea. Alguns instantes depois, mame entrou com um suco de laranja e um termmetro.
      - Obrigada, me, disse Selena, bebendo o suco avidamente. V May lhe disse que eu estava com sede?
      - No. Ela veio aqui?
      - Uns dez minutos atrs.
      - Oh, que estranho. Hoje ela est meio confusa de novo. Ela a tratou como voc? indagou mame.
      Selena procurou se lembrar.
      - Tenho quase certeza de que ela me chamou de "queridinha". Ela trouxe um remdio para mim, um lquido verde.
      - Mas voc no bebeu, no, bebeu? indagou mame meio tensa.
      - Bebi.
      De repente, Selena compreendeu que no poderia mais ver a av como uma pessoa normal. Para falar a verdade, o que ela lhe dera poderia ser um adubo para plantas 
ou o lquido em que deixava a dentadura de molho.
      - Talvez fosse melhor no ter bebido, no ? Achei que era uma das vitaminas dela, ou um chazinho de ervas.
      - Poderia ser, sim, mas agora no se pode mais ter certeza de nada com relao a ela. Voc disse que foi h uns dez minutos?
      - Mais ou menos.
      - Bom, se fosse veneno, j saberamos.
      - timo, disse Selena, colocando o copo de suco na mesinha de cabeceira.
      Estava doente, mas no tanto que no pudesse aprontar uma brincadeira com a me. Ento arregalou os olhos e levou a mo a garganta. Fez como se no estivesse 
conseguindo respirar direito e caiu deitada no travesseiro.
      - No tem graa nenhuma, disse a me. Mas isso mostra que est melhor.
      - ; estou mesmo, replicou Selena.
      - Deve ter sido o suco de laranja.
      - Ou ento o remdio verde da V May. Ser que d para descobrir o que era aquilo? No sei como consegui beber aquele negcio.  que no queria ofend-la.
      - Tome, disse mame, entregando-lhe o termmetro. Vou procurar V May. Mea sua temperatura e depois me diga como est.
      Estava apenas com 39 graus. Era febre, mas no muito alta. No seria necessrio ir ao mdico. Selena deitou e logo caiu no sono. Dessa vez, porm, foi um sono 
calmo, profundo, sem pesadelos.
      Na tera-feira, ela ficou indecisa se iria  aula ou no. A me deixou a deciso com ela. Tinha saudades do tempo em que era menor, e a me colocava o termmetro 
debaixo do brao  dela e ficava olhando no relgio, esperando o momento de revelar o grande segredo. Depois ela retirava o termmetro e seu punha a olh-lo demoradamente, 
para descobrir a mensagem secreta contida naquele tubinho, que s as mes conseguiam ler. Se o resultado fosse favorvel a Selena, a me dizia:
      - Ter que ficar de cama hoje.
      Se fosse desfavorvel, ela falava:
      - Hoje voc j pode sair.
      Aquele aparelhinho era um grande mistrio para Selena, da mesma forma que era aquela histria de a marmota ver a prpria sombra.* Para a garota, no era ela 
nem a me quem determinava se ela iria  aula ou no; era o termmetro.
      ___________________
      * Existe uma crena nos Estados Unidos segundo a qual a primavera comea no dia em que a marmota termina sua hibernao. Ao final do inverno, esse animal sai 
da toca e, se ele vir sua sombra, no volta mais para ela. A fica comprovado que a primavera comeou. (N. da T.)
      
      Agora isso mudara. Hoje seria Selena quem tomaria a deciso. Estava comeando a entender o que Tnia quisera dizer quando afirmara que,  medida que vamos 
ficando mais velhas, passamos a ter mais responsabilidades.
      Selena resolveu ir  aula. Vestiu uma cala jeans, uma camisa de flanela, uma grossa jaqueta de caador e o chapu preto de veludo. A me deixou-a ir para 
a escola de carro, para que pudesse voltar, caso se sentisse mal. Depois que foi ao seu escaninho, ficou parada no corredor, esperando ver uma das garotas que haviam 
falado dela no vestirio, na sexta-feira. Avistou uma delas e olhou para a colega. A garota desviou o olhar e foi caminhando. Selena aproximou-se dela e disse:
      - Com licena.
      A outra olhou-a. Parecia meio sem graa.
      - Eu queria lhe pedir desculpas pelo jeito como agi na sexta-feira, continuou. Tive uma atitude muito antiptica. Vocs tinham razo. Estava esnobando todo 
mundo mesmo. Estou muito chateada. Desculpe-me. Espero que ainda possamos ser amigas.
      A garota fitou-a surpresa, mas com expresso de alvio. Tinha o cabelo castanho, bem liso e fino, partido no meio e preso atrs da orelha. Usava uns brincos 
pequeninos, de prola, e tinha sobrancelhas bem fininhas e olhos verdes.
      - Tudo bem, replicou. Meu nome  Victoria, ou melhor, Vicki. No se preocupe com o que aconteceu sexta-feira. Eu e Marissa tambm erramos em ficar falando 
de voc pelas costas. Desculpe-me.
      - Est bem! falou Selena. Na verdade, tudo isso foi uma "coisa de Deus", pois me fez ver que eu estava enganada.
      - "Coisa de Deus"? repetiu Vicki. Essa  boa. Foi voc quem inventou essa?
      - No, foi uma moa que conheci na Inglaterra.
      - Voc foi  Inglaterra? indagou a outra.
      Contudo, antes que Selena respondesse, viu a colega fazendo um aceno para algum que estava atrs dela. Era Marissa, que se aproximou mordendo o lbio inferior, 
como se estivesse receosa.
      - Quero lhe pedir desculpas, foi dizendo Selena. Sexta-feira eu estava meio transtornada e agi de forma muito errada. Desculpe.
      - No tem do que se desculpar, respondeu Marissa. Ns tambm erramos em ficar falando de voc. Tambm peo desculpas.
      - Em resumo, ento, vamos esquecer tudo e comear de novo daqui pra frente, est bom?
      - timo! exclamou Marissa, sorrindo sem mostrar os dentes.
      Ela era mais baixa que Selena e usava um bluso jeans. Seu cabelo castanho-claro estava amarrado num rabo-de-cavalo.
      - Selena estava me dizendo que foi  Inglaterra, informou Vicki.
      Nesse momento outra aluna aproximou-se.
      - No acredito! disse em voz alta a recm-chegada. Dessa vez voc no pode negar que comprou na Wrinkle in Time.
      Selena virou-se e viu a colega que, na semana anterior, usara um vestido de tecido imitando colcha de retalhos, parecido com o dela. Hoje estava com um chapu 
de veludo preto igual ao de Selena.
      - Comprei! replicou esta rindo. No sbado. Que dia voce comprou o seu?
      - Na quinta-feira, respondeu a outra. Alis, se voc quiser as anotaes da aula de ontem, posso lhe passar. Percebi que faltou ontem.
      - Obrigada! Sinto muito, mas no me lembro do seu nome.
      - Amy! respondeu a garota.
      Tinha um tipo italiano - cabelo negro e olhos castanho-escuros muito expressivos. O chapu ficou muito bem nela. Selena se perguntou se estaria bem nela tambm.
      - Amy, disse, quero pedir desculpas a voc tambm. Na semana passada agi muito errado, esnobando todo mundo. Quero apagar tudo e comear uma pgina nova.
      - Ento voc est na escola certa porque o pessoal aqui  muito legal para desculpar, explicou Amy, dando uma olhada de lado para Marissa. Isto , quase todo 
o mundo.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Dezesseis
      
      
      - A senhora tinha razo, me, disse Selena, assim que entrou em casa ao voltar da escola. Eu estava errada. Pronto, gostou dessa?
      Mame estava sentada junto  pia lavando umas batatas.
      - Ah, ento quer dizer que acabou gostando?
      Selena serviu-se de um suco e sentou-se num tamborete.
      - Pedi desculpas a todo mundo que tratei mal. A eles me trataram como se eu fosse outra pessoa.
      - Provavelmente porque voc tambm os tratou de forma diferente, comentou a me.
      - E minha garganta est melhor tambm, disse a jovem.
      - Parece que voc teve um dia timo.
      - Tive, e como foi o da senhora?
      - Muito bem. Levei sua av ao mdico hoje e, aps a consulta, conversei um pouco com ele. Ele acha que grande parte das atitudes confusas que V May teve na 
semana passada foi causada pelas transformaes na casa e no quarto dela. Agora talvez ela comece a melhorar, pois j est tudo no lugar, e no ocorrero grandes 
mudanas mais.
      - Isso me deixa mais animada.
      - Ah, e chegou uma carta para voc hoje, disse a me, indicando, com um aceno de cabea, a porta da entrada. Est ali na mesinha.
      - Obrigada, me. Precisa de ajuda a para o jantar?
      - No, aqui est tudo sob controle, mas depois do jantar vou querer sua ajuda, sim.
      Selena colocou o copo vazio no balco da cozinha e foi buscar a carta. Achava que era de uma de suas amigas de Pineville. Teve uma surpresa agradvel - era 
de Katie. E alis, uma carta volumosa. Foi para a saleta, sentou-se na sua poltrona predileta e se ps a l-la.
      
      Oi, Selena!
      Como est passando? Est se reajustando bem de volta  vida real? Na primeira semana, pra mim foi tudo muito difcil. Acho que fui uma chata pra todo mundo. 
Agora estou mais tranqila, pois j voltei  rotina e recomecei as aulas na Faculdade Palomar.
      Neste final de semana, fui a San Diego visitar o Douglas e assisti  uma reunio dos "Amigos de Deus", que  no apartamento dele. Menina, tem uma poro de 
coisas que quero lhe contar sobre aquele pessoal. Mas vou deixar isso pra depois, quando a gente se encontrar nas frias.
      Bom, o Douglas me deu uma carta para lhe entregar.  de um cara chamado Jeremy, que tambm participa do grupo de estudo bblico deles.
      
      Dentro da carta, havia outro envelope fechado. Selena tirou-o e olhou para ele. S havia o nome dela, "Selena", escrito em letras grandes. Teve vontade de 
abri-lo, mas continuou lendo a carta de Katie.
      
      Estou morrendo de curiosidade. Por favor, escreva-me imediatamente, dizendo quem foi que lhe mandou esta carta misteriosa. Depois voc me conta tudo, est 
bem?
      Ah, e voc me perguntou o que eu quis dizer quando falei que estava com saudade dos anos da adolescncia. Eu daria tudo para voltar aos dezesseis anos. Na 
poca, queria tanto ser adulta e independente que chegava a ser antiptica. Meus pais costumavam me podar bastante. Certa vez tive a chance de ser conselheira de 
crianas num acampamento bblico, mas eles no deixaram. Eu achava que eles tolhiam meu senso de independncia porque no eram crentes, e a maioria das atividades 
das quais eu queria participar envolvia meus amigos da igreja ou grupo de jovens. Agora percebo que o que eles queriam era que eu levasse a vida mais devagar e passasse 
mais tempo em casa. Como sou a mais nova dos trs filhos, acho que esperavam que eu ficasse um pouco mais presa a eles.
      No sei se com isso estou respondendo  sua pergunta. Mas, se quiser um conselho meu, leve a vida o mais devagar possvel. E alegre-se sempre que encontrar 
solues simples para os problemas do dia-a-dia. Acredite-me, daqui pra frente, a vida vai ficar bem mais complicada.
      Ainda est lendo minha carta? Ora, minha amiga, abra logo a outra.
      Com carinho,
       Katie (Fp 1.7).
      
      Selena abriu o outro envelope com gestos cautelosos. Tinha de admirar Katie. Se fosse ela que estivesse com uma carta misteriosa para enviar a algum, provavelmente 
seria vencida pela curiosidade e daria uma espiada para ver quem era o remetente.
      A carta tinha uma folha s, um papel de boa qualidade A letra era grande, s vezes manuscrita, s vezes em letra de forma. E estava assinada: "Paul".
      Sentindo o corao bater forte, quase saindo pela gargganta, Selena se ps a ler rapidamente. Depois leu-a de novo, procurando "saborear" bem cada palavra.
      
      Selena
      Voc acabou com minha vida, sabia? Est feliz agora? Depois que cheguei em casa, passei dois dias sem conseguir dormir. Ressaca da viagem, creio. Ou seriam 
os anjos torturadores que voc mandou aqui para me atormentar? Pois eles trabalharam muito bem. Terminei o namoro com Jalene e sa de tudo com a honra intacta. No 
domingo passado, fui  igreja. Fazia uns dez meses que no ia. Acho que voc agora deve estar sorrindo, toda satisfeita consigo mesma, no est? Mas no comece a 
se congratular ainda no. Continuo em cima do muro. S que agora provavelmente estou de frente para o lado certo. Minha me acha que voc  um anjo. Eu disse pra 
ela que voc  apenas uma garota que fala demai, mas diz palavras sensatas. Afinal, voc no voa, voa?
      Paul.
      
      Ao p da pgina, em letras midas, estava o nmero de uma caixa postal. Selena entendeu que isso era uma indicao de que ele queria uma resposta, pois, inclusive, 
terminara com uma pergunta.
      Selena ps a carta no colo, procurando acalmar a respirao descontrolada.
      Se ele mandou para o irmo dele em San Diego, e eu a recebi hoje, deve ter escrito na semana passada. Ento por que no falou que me viu no cinema?
      A ela se lembrou de que no momento em que Paul a vira, Wesley estava abraado com ela. Obviamente ele pensou que os dois eram namorados. Gostou da idia de 
Paul pensar que ela namorava um cara bem mais velho que ela, alis, sete anos mais velho. Ficou sentada por um bom tempo, imersa em seus pensamentos.
      Quando a me a chamou para jantar, Selena dobrou a carta, que havia lido pelo menos umas quinze vezes, e correu ao quarto. Tnia no estava l. Ento guardou 
o envelope debaixo do travesseiro e, nesse momento, lembrou-se de algo. Uma garota que conhecera na Inglaterra contara que escrevia cartas para o futuro marido e 
as guardava numa caixa de sapato que deixava debaixo da cama. Talvez ela tambm resolvesse fazer o mesmo um dia desses.
      Ao sair para descer, tropeou no monte de pertences seus que se achavam no cho, e resolveu que iria arrumar aquilo aps o jantar.
      Durante a refeio, volta e meia erguia os olhos para o velho candelabro dinamarqus, e seu pensamento vagava para longe. Resolveu escrever para Paul nesse 
mesmo dia, antes que mudasse de idia. Escreveria uma carta breve e bem espirituosa. S queria mostrar a ele que sabia "rebater" facilmente as "gracinhas" dele.
      Entretanto havia um porm, lembrou ela. No sabia o sobrenome dele, j que ele no o escrevera. Katie tambm no mencionara o sobrenome de Jeremy. Ser que 
no haveria problemas no correio se o omitisse? Valia a pena tentar. A carta dele para ela passara pelas mos de Jeremy, Douglas e Katie. Realmente ele tivera bastante 
criatividade.
      - Pode me ajudar a lavar as vasilhas? indagou a me, no momento em que ela estava pensando em subir para o quarto e ficar a ss.
      - Posso, replicou, meio desanimada.
      Quando estava colocando os pratos na mquina de lavar, pensou em contar  me sobre a carta de Paul. Achava inclusive que a me iria mesmo fazer alguma pergunta 
a respeito, mas como no o fez, Selena resolveu no tocar no assunto por algum tempo.  claro que no momento certo contaria tudo aos pais, mas ainda no. Era um 
segredo muito gostoso, que no queria compartilhar com ningum. Talvez at esperasse alguns dias antes de responder a Katie. Com um gesto firme, ligou o boto da 
lavadora. Afastou-se e enxugou as mos.
      - Parece que voc est bem melhor, filha, disse a me.
      - Acho que estou, sim, replicou Selena.
      Em seguida, subiu apressadamente as escadas. Fechou a porta do quarto e pegou a carta. Leu-a de novo, e depois mais duas vezes. Agora sentia que estava preparada 
para responder. Contudo no tinha papel, ou melhor, no tinha um papel bonito. Talvez Tnia tivesse. Olhou em cima da escrivaninha, mas no viu nenhum.
      Recolocou a carta debaixo do travesseiro e saiu para o corredor em direo ao quarto da av, batendo de leve  porta.
      - Pode entrar! falou a av.
      Ela estava assistindo ao seu programa predileto. "Os Waltons".
      - Ser que a senhora tem uma folha de papel de carta para me arranjar?
      Felizmente nesse momento entrou um comercial. V May se levantou devagar e caminhou lentamente at a velha escrivaninha que ficava num canto do quarto.
      - A senhora no precisava levantar, v, disse Selena. Eu mesma pegava.
      - No, no, queridinha. Tenho diversos tipos de papel de carta, um para cada caso.  para um rapaz ou uma moa?
      - Um rapaz, replicou Selena, achando estranho falar disso pela primeira vez.
      - Ento tenho um papel bem apropriado, disse V May. Ela remexeu numa gaveta onde estavam diversas folhas de papel de carta que ela devia ter ido guardando 
ao longo do tempo. Havia folhas com timbre de hotis que nem existiam mais, outras de cor rosada e outras verde-gua. Afinal ela pegou uma que era branco-trigo e 
entregou-a  neta. No canto inferior direito, estava escrito "Sofonias 3.17".
      - Era nesse papel que eu escrevia para Paul todos os dias, falou ela. Esse est bom para voc, queridinha?
      A coincidncia deixou Selena meio desconcertada. Ser que V May sabia que ela tambm iria escrever para um rapaz chamado Paul?
      - Claro, v. Est perfeito. Muito obrigada. Boa noite!
      Andou apressadamente corredor abaixo, entrou no quarto e fechou a porta. Parou um pouco, encostada  porta, ouvindo o coraao bater fortemente.
      - Tu s to real, Senhor! sussurrou, em meio ao quarto vazio. H momentos, Senhor, que fico completamente aturdida contigo. Ser que este papel  meio sagrado?
      Selena no precisou procurar na Bblia o versculo cuja referncia estava ao p da folha. Sabia que era o texto que V May a fizera recitar na noite em que 
fora ao seu quarto, pensando que ela era Emma. Por um instante, passou-lhe pela mente a idia de que V May era mais lcida que todos eles. Ser que ela no estava 
fingindo essa perda da memria para chamar a ateno dos outros para si e, assim, poder expressar seus pontos de vista sem se responsabilizar por eles? No, isso 
no era possvel.
      Deitou-se, pegou a caneta e o papel e comeou a escrever devagar. No poderia cometer nenhum erro.
      
      
      
      
      Paul,
      Puxa, como voc foi esperto, mandando uma mensagem por intermdio do seu irmo! Alis,  muito legal ter um irmo mais velho.  o meu caso, por exemplo. Na 
sexta-feira passada, meu irmo me levou ao cinema. E o mais engraado  que tive a impresso de que vi l um rapaz parecido com voc. Talvez devesse t-lo cumprimentado. 
Afinal, sempre se espera que uma garota que fala demais diga algo, no  mesmo?
      Ah, e com relao  sua vida, parece-me que no est assim to acabada. Obviamente ainda  difcil saber. E de cima do muro voc deve estar com uma excelente 
viso de tudo. Teria tambm alguns cacos de vidro?
      Diga a sua me que ela  uma santa por ter agentado voc e a carga de erros que voc vem cometendo nesses ltimos meses. Quantos mesmo? Dez meses? Ah, . 
E eu vo, sim. Alis, foi num aeroporto que nos conhecemos, no foi?
      
      Selena
      
      Sobrescritou o envelope cuidadosamente, dobrou a carta e colocou-a dentro dele. Antes de fech-la, porm, teve uma idia. Ao p da folha, do lado oposto do 
versculo, escreveu seu endereo em letras midas, como Paul havia posto o nmero de sua caixa postal.
      Pensou no quanto sua vida mudara nas ltimas semanas. Fora  Inglaterra e voltara, sozinha. Vira sua f se fortalecer durante o trabalho evangelstico na Irlanda 
do Nortte. Fizera amizade com pessoas maravilhosas. Conhecera Paul. Mudara para uma nova casa, o velho solar da famlia. Fora morar com uma av que estava experimentando 
alteraes de sade a cada dia. Passara a estudar numa nova escola. Deixara que Deus quebrasse sua teimosa resistncia e acabara gostando do Colgio Royal e dos 
colegas. Parecia que agora suas emoes se achavam em perfeita harmonia com a vida real.
      Olhando mais uma vez para a carta, reparou que havia um espao abaixo do seu nome. Resolveu acrescentar mais um comentrio que, alis, sintetizava sua vida 
naquele momento.
      
      P.S. A propsito, estou muito feliz. Obrigada por ter perguntado.



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